Sónia “Little B” Cabrita, 6 de Abril de 2013

Sónia “Little B” Cabrita

À boca de cena

texto António Branco fotografia Carlos Pinto

Longe parecem ir os tempos em que o jazz era quase só coisa de homens. A baterista e compositora radicada em Faro abriu caminho e, depois do seu primeiro disco como líder, promete que continuará a dar que falar...

As mulheres fazem parte, desde os alvores, da história do jazz. Este sempre foi feito com as mulheres, em todas as épocas, em todos os instrumentos, em todos os estilos, mas não é todos os dias que em Portugal uma mulher lança um disco enquanto líder de uma formação. Especialmente nas qualidades de baterista e compositora. Depois de "Devil’s Dress", da trompetista Susana Santos Silva, foi a vez de Sónia “Little B” Cabrita se estrear discograficamente.

O que realmente importa para si é a condição de líder. «Não sei o que é ser “homem”. Se faz a diferença no jazz, para mim, dá-me igual. Não sei o que é estar desse lado. Sempre estive deste. Para mim, independentemente do sexo, gravar como líder é que faz toda a diferença», começa por dizer.

Mas não deixa de referir a quantidade de tarefas que este facto, só por si, representa. «Já trabalhei em projetos de outros e nunca senti a responsabilidade que este “cargo” representa. Há que cuidar de tudo, desde a música à apresentação gráfica, mediática, etc. É como providenciar para que um recém-nascido possa crescer», acrescenta.

O disco de estreia, lançado no ano passado, começou a ser congeminado em 2010. Sónia recorda a origem do processo: «Andava com esta ideia já há algum tempo. Concretamente desde um “workshop” com a Zé Eduardo Unit, na Universidade do Algarve. Foi aí que se fez um clique na minha cabeça. Comecei a ter aulas de harmonia, comprei um vibrafone, e logo a seguir estava a pôr em prática – à minha maneira – o que aprendia nas aulas. Dessa prática solitária saíram os temas que decidi gravar.»

Os resultados satisfazem-na plenamente: «Acredito neste trabalho.» «Na minha opinião é um disco de jazz bem conseguido. Logicamente que se nota que o líder é baterista, mas isso é propositado. Os músicos tocaram bem e o som do CD está óptimo, o que se deve muito a ter sido misturado por um excelente engenheiro de som que também é músico, Peer Neumann. Gosto do que os americanos chamam “conducting drummer”, acho que a banda gira à volta da bateria e assim conseguimos um som bastante coeso», reforça.

Ouvir tudo

Sónia Cabrita revela que o seu “modus operandi” enquanto compositora é bastante natural. «As coisas vão saindo. Não me sento para compor. Tenho uma ideia e depois logo se vê. Vou para o teclado explorar as notas associadas a um ritmo, depois escrevo no computador e no fim, com uma melodia em cima, o novo tema está pronto para ser experimentado», diz.

As suas peças parecem aglutinar uma grande quantidade de referências. Sónia não esquece as origens: «Venho do rock e trabalhei numa loja de música durante vários anos. Habituei-me a ouvir tudo. Acho que não tenho preconceitos. No entanto, é curioso que, se me pedissem agora para compor um tema de rock, não o conseguiria porque a minha parte racional está agora mergulhada no jazz. Não sei como será no futuro. Como vejo a música na perspetiva do baterista, preocupo-me muito com as frases rítmicas e os “grooves” que possam daí sair», sublinha.

Quando lhe perguntamos qual o "peso" da tradição do jazz na música que faz, dispara: «Para ser franca, não oiço jazz moderno. Irrita-me. É tudo muito triste e soam todos muito parecidos. Talvez seja culpa minha. Oiço os clássicos, como Art Blakey, Ed Blackwell, Philly Joe Jones, Jimmy Cobb, Jack DeJohnette, que já entra neste grupo, e um longo etc.»

Faz questão que as pessoas conheçam o seu trabalho: «A minha música pode ser um bom motivo para chegar a mais sítios e a mais gente.» O conjunto de músicos que gravou o disco faz parte do rol que habitualmente toca com a baterista, mas não pensou neles enquanto compôs. «Tinha a ideia de um som, nada mais. Cresci musicalmente com alguns deles, pois estudámos juntos, caso de Giotto Roussies, Wenzl McGowen e Pedro Gil, pessoas com quem cheguei a tocar na 1ª Festa do Jazz do São Luiz, em 2003. Marco Martins chegou mais tarde, em 2008. Com Zé Eduardo toco há já onze anos», refere.

Quanto ao vibrafonista espanhol Arturo Serra – que surge como convidado especial na sua versão de “Little B’s Poem”, de Bobby Hutcherson –, conhece-o desde que adquiriu um vibrafone em 2011: «Pedi-lhe umas aulas.» Para Sónia Cabrita, «existe uma química no grupo pelo facto de nos conhecermos musicalmente muito bem e de há longa data.»

Considera que a receção ao álbum «foi boa, melhor do que esperava». «Tenho tido boas críticas e o incentivo de músicos de estilos tão diversos como Jack Walrath, Dennis González e David Murray», acrescenta, orgulhosa. Entretanto, Sónia já está a escrever as partituras do segundo disco.

Ninguém queria a bateria

 

Sónia Cabrita nasceu em 1978, em Lisboa. Mudou-se para o Algarve e em 1994 começou a frequentar aulas de solfejo e bateria na Associação Filarmónica de Faro, por insistência de uma professora. «Aí passei a fazer parte da banda, onde tocava caixa. Fiz muitíssimas procissões e coisas do género», afirma.

Em 2000 começou a estudar com Zé Eduardo, reputado contrabaixista, compositor e pedagogo que se havia fixado no Algarve em meados da década de 1990. Data desse período a alcunha que a acompanha desde então: “Little B”. «Lembro-me que um dos primeiros temas de jazz que ouvi foi o “Little B’s Poem” de Bobby Hutcherson. Gostei dessa melodia e comecei logo a tentar tocá-la com os outros, sempre que podia. Foram os colegas dessa altura que me começaram a chamar “Little B”», revela.

No ano seguinte, a conselho de Zé Eduardo, frequentou durante dois anos a então recentemente criada Escola de Jazz do Barreiro, aprofundando os conhecimentos de bateria jazz com Jorge Moniz. Sónia recorda essa fase: «Tinha de ir todas as semanas de Faro para o Barreiro para ter aulas, voltando no mesmo dia, porque trabalhava para poder pagar as frequências.»

Para além das aulas de combo com Zé Eduardo, participou em todos os “workshops” realizados em Tavira, durante os quais trabalhou com bateristas como Gerald Cleaver, Bob Gullotti e Toni Moreno, entre outros. Em 2007 mudou-se para Barcelona, onde frequentou durante alguns meses o Taller de Músics. Mais recentemente, teve aulas particulares com Michael Lauren.

A bateria é o seu instrumento de eleição, algo não muito habitual numa mulher. A razão da escolha ainda hoje não lhe é clara: «Realmente não sei porque é que optei pela bateria. Acho que no início da primeira banda toda a gente escolheu os outros instrumentos e sobrou a bateria, que ninguém queria. Fiquei com ela, até hoje.»

Passou por cerca de uma dúzia de bandas de garagem: «Juntamente com umas amigas decidi então fazer um grupo rock só de raparigas. Toquei com as Pickle Puss durante cinco anos e fizemos várias digressões nacionais.»

Mais ou menos por essa altura foi convidada, com as outras amigas, a entrar na equipa de produção do recém-criado Festival Jazz no Inverno, iniciado por Zé Eduardo em Faro, com o apoio do município local. «Estavam à procura de jovens, já com alguma experiência no mundo da música, para criar uma equipa estável, coisa que durou vários anos. Foi por frequentar profissionalmente o “backstage” desses inúmeros concertos em que contactava com muitos músicos americanos, e não só, que comecei a interessar-me pelo jazz», lembra.

Só assim se evolui

Quanto a principais referências, refere que Art Blakey foi o primeiro baterista de jazz que ouviu a sério. «Depois vieram os outros, como Tony Williams e Elvin Jones.» Há cinco ou seis anos descobriu a faceta jazzística de Cindy Blackman, que antes só conhecia do rock: «Gosto do estilo dela, uma mistura explosiva de Tony Williams e Art Blakey. O melhor de dois mundos.»

Recentemente, teve oportunidade de conhecer Blackman e «partilhar experiências musicais com ela foi também muito marcante». Não esquece ainda ter tocado com David Murray, facto que foi para si «muito inspirador».

A cena musical algarvia mudou bastante com a chegada de Zé Eduardo, em 1995. Sónia Cabrita sublinha a grande importância desta ligação duradoura na sua evolução, enquanto baterista e compositora. «Ultimamente toco em duas bandas dele, com as quais já gravei, caso dos Flajazzados, em 2011, e dos Fried Neuronium, mais recentemente. Toquei com a Zé Eduardo Unit no Festival de Jazz de Macau em 2003 e, em 2005, fiz uma pequena digressão pela costa este dos Estados Unidos, também com a Unit.»

Para além dos projetos de Zé Eduardo, toca regularmente com a cantora Viviane e com o cantautor Tércio “Nanook” Freire. Tem igualmente trabalhado com a Companhia de Teatro do Algarve.

No dia-a-dia, Sónia ouve de tudo. Nomeia discos como “Works on Canvas”, de Cindy Blackman, “Live at Fillmore”, de Miles Davis, e “Lifetime”, de Tony Williams. No rock prefere ouvir «mais as bandas e menos os bateristas», citando gente como Clearence Clearwater Revival, os My Ruin no heavy metal e os Nashville Pussy, «rock americano puro e duro».

Quanto a projetos para o futuro, refere que gostaria de tocar mais vezes com David Murray, «pela autenticidade e pela energia da música», e com Peter King, «pela elegância». Quanto a nomes portugueses, refere o de Ricardo Toscano, alguém que, no seu entender, «tem muito que dizer».

Sobre o que poderemos esperar da Sónia no futuro, adianta: «Se tudo correr bem, como espero, este ano haverá mais!»

 

Para saber mais    

www.myspace.com/sonialittlebcabrita

www.gremiodasmusicas.org/net

 

Discografia

Sonia “Little B” Cabrita: “Little B” (Edição de autor, 2012)

Fried Neuromium: “Fried Neuronium” (Associação Grémio das Músicas, 2012)

Nanook: “Mundo XXI” (Smog, 2012)

Vários autores: “Projecto Sul” (RUA FM, 2012)

Flajazzados: “Flajazzados” (Associação Grémio das Músicas, 2011)

Viviane: “As Pequenas Gavetas do Amor” (Smog, 2011)

Nanook: “Debut” (Edição de autor, 2009)