Carlos Bica, 21 de Novembro de 2016

Sem medo do Agora

texto Nuno Catarino fotografia Vera Marmelo

O álbum “Azul“ foi publicado em 1996, apresentando um projecto do contrabaixista e compositor Carlos Bica com o guitarrista alemão Frank Möbus e com o baterista norte-americano Jim Black. Seis discos e 20 anos depois está a sair para a rua um novo CD, “More Than This“ (Clean Feed), que diz quem já o ouviu ser muito provavelmente o melhor trabalho de sempre do trio. Vamos ouvi-lo na Culturgest, ao vivo, já daqui a uns dias...

 

O novo disco chama-se “More Than This”. Porquê este título?  

Estamos habituados a ver o mundo pelos nossos olhos e a interpretá-lo, na maior parte das vezes, de um modo racional e simplista, mas há muito por descobrir para lá do óbvio. O título alerta para a necessidade de tomarmos consciência da essência interior do que nos rodeia e em não nos limitarmos a ver as suas formas exteriores, identificando-nos com a sua própria forma física e psicológica. 

 

Este novo disco é dedicado a Pedro Cláudio, fotógrafo que morreu em Abril deste ano, e que foi autor de várias capas e vídeos dos teus discos. O Pedro morreu a 21 de Abril, a música do disco foi gravada entre 24 e 26 de Abril. A música reflecte essa ausência?

Pedro Cláudio esteve sempre presente nos meus pensamentos durante a gravação deste álbum. Um mês antes de o Pedro partir falámos por Skype sobre o novo álbum do Azul e ele disse-me, «Bica, não te esqueças que o Azul é meu», uma mensagem que me deixou feliz por saber que podia contar sempre com ele. A música do “More Than This“ reflecte certamente a perda de um ente querido, mas não no sentido nostálgico, antes pelo contrário, no da força gigante que a vida tem. O Pedro era aquele amigo a quem se pede um conselho quando se tem dúvidas na vida. Apesar de ele não ser músico, eu preferia muitas vezes ouvir a opinião dele do que a de um colega de ofício.

O nosso primeiro encontro deu-se por mero acaso no início dos anos 1990. Um dia, a cantora Maria João perguntou-me se eu não me importava, juntamente com o meu contrabaixo, de servir de “décor“ para uma sessão de fotografia da revista de moda Vogue, pedido ao qual acedi com agrado. O fotógrafo era Pedro Cláudio. Convidei-o então a ir nesse fim-de-semana ao Hot Clube assistir a um dos primeiros concertos que o Azul deu, e ele adorou. Logo ali nasceu uma colaboração que durou muitos anos e, sobretudo, uma amizade muito forte. Apesar de não nos vermos regularmente, o Pedro foi e continuará a ser sempre um amigo do coração. Tenho saudades dele. 

 

Além dos muitos temas originais, no eixo central do disco há arranjos para dois temas tradicionais, um alentejano e outro americano, e ainda uma versão de “Skeleton Dance”, do Alien Ensemble. Por que escolheram trabalhar estes temas? 

Sou eu quem propôe quais as músicas a tocar. O meu papel enquanto “bandleader“ é o de  levar os meus colegas a acreditar nas minhas propostas musicais, e para isso é necessário, antes de mais, que seja eu o primeiro a acreditar. Enquanto algumas das minhas propostas são facilmente compreendidas e aceites pelos outros músicos, outras precisam de algum tempo até que cada um encontre a sua própria voz e sinta que deu o seu contributo pessoal para que a música possa existir. As músicas não originais vêm-me parar aos ouvidos por vias muito distintas. No caso do “Skeleton Dance“, foi o autor dessa canção, Andi Haberl, um baterista e compositor de Berlim com quem também toco, quem ma mostrou. Por vezes, acontece sentir-me atraído por músicas que poderiam ter sido escritas por mim, o que com muita pena minha não é o caso. Descobri o “Silver Dagger“ por acaso, num disco de Bob Dylan gravado ao vivo nos anos 1960, que conta com a participação de Joan Baez. É uma daquelas melodias simples e mágicas do folk americano. A principal alteração que fiz em termos de arranjo foi tocá-la num tempo muito mais lento que o original, para melhor poder saborear a beleza da melodia. O cante alentejano “Na Rama do Alecrim“ estava no fundo do meu baú. Trata-se de um arranjo que tinha feito há muitos anos para um álbum de Janita Salomé. Ocorreu-me que poderia soar especial e diferente sendo tocada pelo Azul. 

 

Neste novo disco parece-me que apresentam a vossa música mais aberta, mais arriscada, até ao momento… Concordas?

A partir do momento em que tomas a liberdade de fazer o que te vai na alma estarás sempre a arriscar, pois não estás a tentar agradar a plateias. Contudo, reconheço neste álbum qualidades inéditas em relação aos anteriores. Repetir fórmulas nunca esteve nos nossos planos, mas é sempre difícil de planear o Agora. 

Química de grupo

 

O trio Azul, com Frank Möbus e Jim Black, celebra 20 anos de vida. Como tem sido tocar com estes músicos durante este tempo todo e como sentes que tem sido a evolução da vossa música?  

Sinto-me muito feliz e orgulhoso por liderar um trio com dois dos melhores músicos do mundo. Mas mais do que isso, é sobretudo a química de grupo que torna este trio muito especial, o que se deve ao facto  de a evolução do grupo ter acompanhado a evolução natural dos próprios músicos. 

 

Qual será o futuro do trio Azul? Já têm ideias para depois deste disco? 

Neste momento estou focado em levar para os palcos o “More Than This“. Depois dos concertos de lançamento em Novembro deste ano em Portugal, iremos estar em Março e Abril de 2017 em digressão pela Europa. Quando, em 1996, fui para estúdio e gravei o nosso primeiro álbum, não sonhava que 20 anos mais tarde ainda estaria a tocar com estes mesmos músicos e que conseguiríamos juntos construir um som de grupo com uma assinatura forte. 

  

O teu disco “Single”, editado em 2005, foi uma boa surpresa. Entretanto, já passaram mais de 10 anos. Não tens vontade de voltar a gravar a solo?  

O desejo de voltar a gravar a solo paira de novo no ar. Já me perguntei se não seria interessante gravar em minha casa, como um poeta que espontaneamente pega na caneta e passa para o papel o que lhe vai na alma. Com as tecnologias actuais isso não seria um problema, mas qual será o resultado? A concentração de quando se está em estúdio com todas as limitações de tempo obriga o músico a estar enormemente focado. Outro factor deveras importante é a acústica da sala onde se grava. Num disco de contrabaixo solo cada nota que é tocada é um espaço roubado ao silêncio. O silêncio é, neste caso, como que um musico com quem se dialoga, e daí a enorme importância do espaço físico. 

 

Tocaste recentemente com o Matéria-Prima, um grupo com João Paulo Esteves da Silva, mas vocês os dois ainda não editaram nenhum disco em duo. Como está esse projecto? Há planos para lançar algum disco?  

A minha colaboração com o João Paulo também já tem mais de duas décadas. Durante todo este tempo foram inúmeras as nossas colaborações conjuntas, tais como o trio de João Paulo com Peter Epstein e a minha pessoa, o DIZ com a cantora e actriz Ana Brandão, o Matéria-Prima ou o mais recente “White Works“, um projecto discográfico em que o João Paulo toca a piano solo as minhas composições. Nos últimos anos temos sobretudo tocado juntos em duo. De facto, adorava gravar um álbum em parceria com o João Paulo. A oportunidade ainda não surgiu e eu não a forcei a aparecer. Nos projectos que lidero, ambiciono contar com músicos que contribuam para que a sua música faça parte integrante da personalidade do grupo, tornando-se assim em peças fundamentais para o som do mesmo.  Sempre estranhei a facilidade com que alguns colegas substituem determinado elemento da banda por este não se encontrar disponível. Claro que o resultado poderá ser  eventualmente interessante, mas será  sempre diferente de formações cujos músicos já tocam há muito tempo juntos. O trio Azul ou o duo com João Paulo Esteves da Silva são dois bons exemplos do fruto de uma colaboração com muitos anos de existência.

 

Chegaste também a tocar em duo com o guitarrista Norberto Lobo. Como ficou essa parceria? Vai haver disco?  

Foram concertos que me deram muito gozo. Talvez um dia voltemos a repetir e quiçá gravar juntos, mas para já isso não está nos nossos planos. 

 

Em que projectos tens estado a investir a tua energia? 

Paralelamente ao Azul e a outras colaborações musicais, tenho trabalhado num novo projecto, em fase de construção, que envolve vários músicos berlinenses, assim como com o Move String Quartet, um quarteto de cordas que pretende quebrar as fronteiras entre a música erudita e a música improvisada. 

  

Em Portugal temos estado a assistir ao surgimento de uma nova geração de contrabaixistas, como Hugo Carvalhais, João Hasselberg, Romeu Tristão… Como vês a afirmação destes novos músicos? E, vivendo no exterior, como tens visto o actual momento da cena jazz portuguesa?

A cena jazzística nacional foi desde sempre prolífera em contrabaixistas, o que é curioso. Agora temos uma nova geração que, para além de tocar muito bem o instrumento, quer deixar a sua assinatura pessoal. A música improvisada em Portugal deixou de estar limitada a um jazz “mainstream“ e abriu novos caminhos para que o jazz seja aquilo que melhor o caracteriza, uma música sem medo de quebrar fronteiras. 

 

Para saber (ainda) mais

http://www.carlosbica.com/