Desidério Lázaro, 13 de Outubro de 2016

Uma espécie de catarse

texto Nuno Catarino fotografia Márcia Lessa

Natural de Tavira, Desidério Lázaro fez-se notar na cena nacional como saxofonista expressivo e enérgico. Apresentou-se ao mundo com “Rotina Impermanente” (2010), num trio acompanhado por Mário Franco e Luís Candeias. Seguiu-se “Samsara” (2012), disco em quinteto com Afonso Pais, João Firmino, Francisco Brito e Joel Silva. Regressou ao trio com “Cérebro: Estado Zero” (2013). No ano passado editou “Subtractive Colors”, tendo acrescentado ao seu trio-base (Franco e Candeias) os músicos João Hasselberg, João Capinha e Paulo Gaspar. É com este grupo que regressa aos concertos e, na segunda quinzena de Outubro, vai apresentar-se ao vivo em cinco cidades nacionais: Angra do Heroísmo, Porto, Coimbra, Castelo Branco e Lisboa Antecipando esta digressão nacional, o músico apresenta-se em discurso directo.

 

Como é que começaste a tocar e como chegaste até ao jazz?

Tudo começou por influência/obrigação dos meus pais… Quando tinha 6 anos comecei a ter umas aulas de flauta de bisel e solfejo. E essas foram aulas fantásticas, das melhores que já tive, porque eu era muito novo e aquilo entrava com uma força descomunal. Depois fui tocar clarinete para a Filarmónica, já com 10 anos. Por volta dos 14 ou 15 anos comecei a ter interesse por uma carreira mais séria de clarinetista. Fui para o conservatório e ao mesmo tempo ia tendo uma banda de funk em Tavira. Consegui ter acesso a um saxofone tenor e comecei a dar os primeiros passos no saxofone e na improvisação mais modal e linear… Por volta dos 18 anos comprei um disco do Coltrane, o “Blue Train”, e fiquei maluco com o som do saxofone e do jazz em geral. Meti na cabeça que algum dia havia de ir para ali, depois de fazer a carreira clássica. A referência de jazz que eu tinha eram basicamente os discos de Glenn Miller da minha mãe, porque de resto só ouvia rock. Nunca pensei vir a ser músico de jazz, porque a minha ideia era tocar numa orquestra clássica. Só que fiz as provas para a Escola Superior de Música e não entrei. Pensei eu: «Vou tentar o jazz, no clarinete…» Passado um ano, os meus pais ofereceram-me um saxofone alto, depois juntei dinheiro e comprei um tenor e segui em frente… Estava a estudar no Hot e havia alguma malta que já tinha ido estudar para a Holanda, que tinha boas referências, e acabei por ir para lá também, o que foi uma boa decisão.

 

Tocas sobretudo saxofone tenor, mas também tens tocado saxofone soprano, clarinete… Como é a tua relação com estes vários instrumentos?

Há pessoas que têm muito talento para pegar em qualquer sopro e tocam com muita facilidade qualquer instrumento… Comigo isso não acontece. Sou muito exigente com a relação física que tenho com o instrumento. Não consigo tocar se o meu som não tiver qualidade, se o timbre não tiver qualidade, se não estiver com boa afinação, e tudo isso requer trabalho, requer atenção diária. Já o soprano, sinto que está mais próximo do tenor, não sei porquê… Quando toco alto ou barítono sinto que perco a relação com o tenor, já com o soprano não perco… Sinto que é mais fácil ir do tenor para o soprano do que para qualquer outro sopro…

 

O Coltrane também se notabilizou primeiro com o saxofone tenor e na fase final tocava muito o saxofone soprano…

Quando o comecei a ouvir, o som do soprano de Coltrane não me fascinava muito. Havia outros saxofonistas cujos sopranos me interessavam mais, como Wayne Shorter, Branford Marsalis… Foram sobretudo esses dois que me fizeram ter como “sidekick” o soprano. O Coltrane dizia que o soprano era um bocado a extensão das notas que lhe faltavam no tenor… Eu sinto um bocado a mesma coisa, sinto que preciso dos dois instrumentos para complementar a maneira como me quero expressar.

 

Quais foram os músicos mais determinantes que te ajudaram a definir o teu percurso?

Diria, sobretudo, que Paulo Gaspar. Apanhei-o quando estava no Conservatório de Setúbal e numa altura em que precisava de alguém que me dessa garantias de que eu estava no caminho certo. Ele não só me deu a mão como me abraçou e deu-me uma grande estabilidade emocional. Acho que, ainda hoje em dia, tudo o que tenho conseguido fazer no mundo da música se deve a ele. Claro que é injusto não referir outras pessoas, mas quando há uma influência destas tão forte, penso que é inevitável destacar. Há muitas coisas que me influenciam mais do que os músicos. Encontro muitas informações, nos filmes, na literatura, nas séries televisivas, na pintura, naquilo que alguns pensadores disseram, mais do que nos músicos…

Mais luz

 

Até ao momento gravaste discos ao leme de três projectos: Desidério Lázaro Trio, Samsara e Subtractive Colors. Como foi essa evolução, de projectos e de músicos?

Quando estava na Holanda e comecei a escrever as minhas primeiras composições tinha o desejo de que aquilo soasse a uma espécie de orquestra sinfónica. Quando voltei para Portugal tive um período de muitos concertos, toquei muito. Seguiu-se uma fase em que me fui abaixo, tive uma depressão. O primeiro disco em trio, o “Rotina Impermanente”, foi uma espécie de catarse, a maneira como eu me via a expressar-me era o mais despida possível. Já conhecia Luís Candeias de Amesterdão, penso que é um baterista muito melódico, pelo que fez todo o sentido para aquela música. Mário Franco é um contrabaixista que sempre esteve no meio dos dois mundos, entre o clássico e o jazz, e achei que tinha de ter uma pessoa com esse tipo de formação para a música que queria fazer naquela altura. Para mim fez todo o sentido começar por aí. O “Samsara” já é um disco com muito mais luz, já vem do meu interesse pela meditação, pelo budismo. O segundo álbum em trio mantém um pouco da luz do “Samsara”, embora seja mais seco. E o “Subtractive Colors” correspondeu ao meu desejo de dar mais cores ao trio. Manter os músicos do trio, não ter instrumento harmónico e ter outras cores.

 

O Subtractive Colors é o projecto onde estás a investir a tua energia neste momento. Porque escolheste estes músicos?

Para a formação pensei numa coisa mais orquestral. Acima de tudo quis apostar na flexibilidade e na possibilidade de os instrumentistas tocarem outros instrumentos. Por exemplo, João Hasselberg toca também baixo eléctrico e está em vários universos, por isso foi a minha escolha para segundo contrabaixista. João Capinha toca muitos sopros e esteve nos dois universos, estudou clássico e jazz. Paulo Gaspar também toca os dois clarinetes e está, de certa forma, nos dois universos. A própria formação foi pensada em termos de flexibilidade, mas não pretendi fazer um projecto em que todas as músicas têm todos os instrumentistas a tocar ao mesmo tempo. Isso é uma das características do projecto, há músicas que são a trio, há músicas que são a duo, há outra em que é só bateria e os dois saxofones… Gosto da possibilidade de fazer isso num concerto. E o meu objectivo é sempre o concerto. Penso sempre na forma como poderei tornar interessante o espectáculo que as pessoas vão ver.

 

O que podemos esperar desse espectáculo? Vais agora andar em digressão com este grupo…

Acho que neste momento temos um espectáculo montado muito interessante para qualquer pessoa que o vá ver. Já fizemos muitos concertos, sinto que o “set” está encontrado em termos de dinâmica e que agora a banda está perfeitamente rotinada. Infelizmente, não vamos poder fazer nos restantes concertos aquilo que faremos no CCB, que vai ser um concerto com projecção e com vários cantores convidados. Esse concerto vai ser o adeus do projecto e quero terminar com estrondo, “end with a bang”! Estou muito contente por mostrar este projecto em vários sítios e por poder ir ao Angrajazz. Acho que está na altura certa, e espero que as pessoas adiram!

 

Agora que este projecto está a terminar, o que vais preparar para os próximos tempos?

Quero fazer um projecto de raiz com Camila Reis, que é artista plástica. Um projecto multidisciplinar, provavelmente envolvendo actores e imagem, além da música. Esse será, provavelmente, o meu grande projecto de 2017. Esse é um dos meus grandes planos. Estou cada vez mais interessado na multidisciplinariedade. Também gostava muito de fazer música para filmes e videojogos. Estou agora a ter aulas de composição clássica e a começar a ter mais contacto com “software” de produção musical. Por outro lado, sinto que tenho muitas músicas de formato canção a que gostava de dar vida. Gostava de fazer um quinteto, com voz e piano, para dar vida a essas canções (atenção, canções sem palavras!). E continuo com muita pica para estudar e tocar saxofone.

 

Falaste em videojogos e chegaste a fazer música dedicada a personagens do clássico “The Legend of Zelda”. Os videojogos são uma influência importante para ti?

São, mas não tanto na arte emocional ou artística… Se bem que hoje em dia os videojogos estão a caminhar na direção dos filmes. Muitos deles já têm histórias bastante elaboradas. Fazer música para um videojogo seria um projecto que me iria entusiasmar muito, também por esse lado de os videojogos se estarem a aproximar do cinema.

Outras coisas

 

Tens tocado em vários grupos, chegaste a participar num disco de B Fachada, tocas agora com Bruno Pernadas… Como tens distribuído a tua energia por esses vários projetos, alguns deles fora do jazz?

Acho que com os anos acabei por não me tornar naquilo que eu queria, que era ser um “especialista do jazz”. Mas tive a sorte, por circunstâncias da vida, de fazer parte de muitos projectos diferentes, com “outputs” muito variados, que me deram vontade de participar em coisas fora daquele fim de ser um improvisador. Antigamente fascinava-me aquela cena de ser o Coltrane. Tocas um tema e estás ali a improvisar durante muito tempo até encontrares o nirvana… Eu perseguia muito essa ideia, mas depois comecei a fazer outras coisas e percebi que gosto muito de fazer outras coisas! Na Holanda fiz improvisação com bailarinos, aqui em Portugal já toquei com artistas pop, aqui há uns tempos colaborei com uma coreografia de Rui Horta, “Romeu e Julieta”, também com a música de Bruno Pernadas… Sinto-me uma pessoa abençoada, porque as coisas acabam por vir ter comigo e eu abraço-as. Mas ainda tenho secretamente aquele sonho de ser um improvisador reconhecido, e por isso é que continuo a estudar saxofone. Uma parte de mim ainda quer o público de pé a bater palmas! (risos)

 

Além do trabalho na tua própria música, também estiveste envolvido na criação da editora Sintoma Records. Como surgiu a editora?

A Sintoma nasceu da ideia, minha e de João Firmino, de juntar pessoas sem preconceitos. Mas a nossa ideia caiu por terra porque as pessoas têm preconceitos! O objectivo era irmos para além da ideia de sermos uma editora “online” que oferece música gratuitamente para criar público de jazz. Não quero dizer que foi uma ideia falhada, mas a dada altura percebemos que caiu por terra. É difícil chamar-nos editora, até porque não o somos legalmente. Sempre acreditámos que, disponibilizando música de forma gratuita, poderíamos levar a música a mais gente, mas o esforço que fizemos acabou por não ter repercussão no esforço de mais gente… Na altura da criação da Sintoma a audição de música por “streaming” ainda não era “mainstream”, mas depois tornou-se popular. Hoje em dias as pessoas querem tudo num clique, pelo que decidimos começar a meter gradualmente os discos no Bandcamp. A nossa intenção era criar uma espécie de Porta-Jazz, um movimento, uma comunidade activa. Fizemos o que pudemos, estamos de consciência tranquila. E nunca se sabe o que aí vem!

 

Como vês o actual momento do jazz em Portugal?

Acho que estamos num momento incrível, fervilhante! Mas estamos com um problema… Acho que está a começar acontecer aqui aquilo que já vi acontecer em Amesterdão… A comunidade jazzística que se forma em redor do Conservatório de Amesterdão acaba por criar músicos que não têm muitas oportunidades para tocar. Nós estamos aqui a criar músicos de jazz competentes, mas não sinto que exista espaço para eles expressarem as suas diferentes perspectivas. E isso pode ser preocupante a longo prazo. Por outro lado, como os músicos andam à procura de espaços onde se possam apresentar, mesmo com condições pouco dignas, também não há um espírito de comunidade, não assistem aos concertos uns dos outros, não trocam opiniões… Estamos a criar músicos que não tocam! Seja como for, estão a abrir cursos profissionais por todo o País, e com a falta de disponibilidade para mostrar música nos grandes centros urbanos é previsível que os saiam deles e comecem a desenvolver outros focos de actividade no interior. Espero, pois, que a música jazz continue a gerar interesse.