Stefano Bollani, 16 de Junho de 2016

Viagem a Cascais, via Nápoles

texto Nuno Catarino fotografia Valentina Cenni

Colaborador do histórico trompetista Enrico Rava, o pianista italiano Stefano Bollani vem desenvolvendo um percurso sólido em nome próprio, nele revelando uma especial afinidade com a música brasileira. No disco “Napoli Trip” (edição Decca), acabado de lançar, explora diferentes ambientes, incluindo surpreendentes explorações electrónicas de Jan Bang. Antecipando o concerto a solo que irá apresentar em Cascais, no âmbito do Verão no Parque, a 30 de Julho, Bollani esteve à conversa com a jazz.pt…

 

Como começou a tocar piano e quem foram as suas primeiras influências?

Comecei a tocar quando tinha 6 anos de idade, porque queria ser cantor. Apaixonei-me pelo bebop quando tinha 11 anos. Adorava o som daquela música. Depois comecei a estudar harmonia jazz e descobri que todos aqueles músicos – Charlie Parker, Bud Powell, etc. – estavam a improvisar! Fiquei maravilhado com essa descoberta. Ainda hoje penso que isso é a coisa mais excitante que um músico pode fazer: tocar no momento presente. Estar focado naquilo que acontece no momento, dentro de mim e fora de mim.

 

Ao longo da sua carreira desenvolveu uma forte ligação musical com o trompetista Enrico Rava. Qual é a importância desta parceria no seu percurso?

Ele deu-me muita confiança. E ensinou-me muita coisa, com o seu exemplo directo, lá no palco. Aprendi com ele a forma de liderar uma banda. Não há necessidade de muita conversa durante longos ensaios se confias nas pessoas com quem estás a tocar.

 

Nos discos “O Que Será” (com Hamilton de Holanda) e “Carioca” revelou muita proximidade com a música popular brasileira. Como surgiu essa ligação?

Sempre adorei a música brasileira. Existe uma certa energia que só se consegue encontrar ali! Bossa nova, MPB, choro, forró, samba... Há tanta coisa para aprender!

  

Em paralelo com o jazz, também toca música clássica. Sente que estes mundos musicais não estão muito afastados?

Música há só uma! Os músicos e os jornalistas dividem-na por “géneros”, por tipos de música, mas na minha cabeça essas divisões não existem.

 

Acaba de editar um novo disco, intitulado “Napoli Trip”. É uma homenagem musical à cidade de Nápoles?

Sim, é! Mas no disco encontram-se diferentes pontos de vista da cidade. E está cheio de grandes amigos, como Jan Bang, Daniele Sepe, Hamilton de Holanda e Manu Katché.

 

Este novo disco tem muitos temas (16), a maioria deles de curta duração. Há temas tocados por todo o grupo, há solos de piano, há electrónica. Na sua maioria trata-se de composições originais, mas também há versões. Qual é o principal conceito que reúne todas estas ideias e características?

O principal conceito é o seguinte: a viagem parte de Nápoles, mas vai até outro lugar e depois regressa ao ponto de partida. E Nápoles é uma cidade capaz de englobar tudo! É uma cidade esotérica onde as pessoas lutam o tempo todo contra aqueles que querem acalmar a área, que é uma zona vulcânica (!), uma zona enérgica. Pensem na dominação espanhola e na dominação italiana (a mais recente). As pessoas em Nápoles são fortes a defender a sua energia: é por isso que por vezes há problemas. É uma rebelião contra a chamada “lei”, feita para manter as pessoas em baixo.

 

Neste álbum há muita electrónica, o que é uma surpresa. Porque escolheu tocar com Jan Bang?

Conheci-o num festival na Noruega. Ele estava a remisturar um concerto que eu tinha dado com Hamilton de Holanda. Achei que seria óptimo fazer algo com ele.

 

Outra surpresa neste disco é ouvirmos a sua voz, pois canta numa das faixas. Porque escolheu cantar?

Como disse anteriormente, desde criança que eu tinha o sonho de me tornar cantor… E continuo a trabalhar nisso!

 

Neste disco há uma versão, em piano solo, da canção popular “’O sole mio”. Porque escolheu incluir no disco um tema tão icónico?

Porque adoro pegar em canções muito famosas e transformá-las em algo de novo. Adoro desmontar canções e voltar a montá-las com perspectivas diferentes.

 

Está a par da cena jazz portuguesa?

Nem por isso… Mas conheço alguns grandes pianistas, como Mário Laginha e Bernardo Sassetti, que infelizmente está a dar concertos noutro lugar, longe deste planeta. Também tive o prazer de tocar algumas canções com a voz belíssima da Mafalda Arnauth, num programa da televisão italiana.

 

Quais são os seus planos para os próximos tempos?

Acabei agora uma digressão com o espectáculo “La Regina Dada”, uma peça para a qual escrevi música em parceria com a minha namorada, a actriz e bailarina Valentina Cenni. Adorávamos levar esta peça por toda a Europa.

 

O que poderemos esperar do seu concerto em Cascais?

O melhor é não esperar nada! Um concerto é um diálogo entre o tipo pago que está no palco e os espectadores que pagaram para estar na audiência. Vamos divertir-nos juntos! Prometo solenemente que vou improvisar o tempo todo. É por isso que preciso da ajuda do público para me inspirar.