João Hasselberg, 30 de Março de 2016

O som e a fúria

texto Nuno Catarino fotografia Márcia Lessa

João Hasselberg é um distinto contrabaixista português com um forte sentido melódico, na tradição de Charlie Haden. Contudo, é sobretudo na condição de compositor que se tem feito notar, afirmando-se na cenanacional com a edição dos seus dois primeiros discos como líder: “Whatever it is You're Seeking, Won't Come in the Form You're Expecting” (2013) e “Truth Has to Be Given in Riddles” (2014). Nestes discos, para lá da matriz jazz, a sua música atravessa múltiplos universos sonoros – passa pela folk, pela clássica, vai até à pop. Em paralelo, Hasselberg vem desenvolvendo outros projectos em que explora ideias diferentes: o duo Songbird, com o pianista Luís Figueiredo, trabalha novas roupagens de canções pop e acaba de editar o seu disco de estreia, “Vol. I”; no trio Hakken, com João Firmino (guitarra eléctrica) e João Pereira (bateria), é trabalhada uma original aproximação ao rock.

O contrabaixista integra ainda o trio do pianista grego Spyros Manesis e colabora com a cantora Luísa Sobral, além de participar em outros grupos no papel de “sideman”. Com uma formação que passou pela Escola de Jazz Luiz Villas-Boas (do Hot Clube de Portugal) e pelo Conservatório de Amesterdão, Hasselberg acumula agora também o papel de professor. Músico original e com uma visão alargada do universo musical, aproveita esta longa conversa para reflectir sobre o seu percurso, falando por exemplo das suas referências literárias e do fascínio que tem pela cultura japonesa.

 

Como começaste a tocar? Porque escolheste o contrabaixo?

Comecei a tocar piano quando tinha 6 anos. Os meus pais eram divorciados e o meu pai tinha uma namorada espanhola que era professora de piano. Foi uma espécie de brincadeira: «Queres aprender a tocar piano?»E eu adorei aprender a tocar aquilo. Comecei por aí, às tantas fui para o conservatório. Ela deixou de ser minha professora. Passei a ter outro e a coisa não funcionou. Esse professor queria de mim coisas que eu não estava disposto a dar naquela altura e por causa disso afastei-me da música durante algum tempo. Mais tarde, quando fiz 16 anos, a minha irmã ofereceu-me o baixo eléctrico dela. Comecei a tocar e a gostar do instrumento cada vez mais. Por essa altura tinha a ideia de querer ser astrofísico, mas pouco tempo depois de ter começado a tocar o baixo já tinha mudado de ideias. Fiz o secundário todo no agrupamento de ciências - física, química, biologia, essas coisas – mas quando estava em casa já não ligava muito a isso, já só pensava na música.

 

Quando foi aquele momento em que percebeste que ias ser músico?

Foi mais ou menos por aquela altura, quando tinha 17 anos. Conheci João Firmino quando tinha 15 anos, conhecemo-nos por acaso, e nessa altura ele também estava a começar a tocar. A influência dele foi muito importante para eu continuar e para a minha decisão de querer ser músico. Fomos dando força um ao outro. Apesar de, naquela altura, eu viver em Évora e ele em Coimbra, partilhávamos muita coisa. Era o início do Messenger e dessas coisas, passávamos os dias a falar e a trocar discos. Comecei a ter aulas de baixo eléctrico com Greg Moore (que vivia em Évora), depois fui para a escola do Hot Clube, onde estive dois anos, e finalmente para Amesterdão.

 

Em que momento desse percurso começaste a tocar contrabaixo?

Foi no Hot que percebi que toda a música que eu ouvia e toda a música que eu queria tocar era tocada com contrabaixo. Não é que não pudesse ser tocada com o baixo eléctrico, mas não seria a mesma coisa, não iria ser coerente…

 

E como chegaste ao jazz?

Com os meus pais, especialmente com a minha mãe, havia muito jazz em casa. Antes sequer de prestar atenção ao jazz, já sabia discos de cor, que eu ouvia em casa constantemente. Quando comecei esses contactos com o Firmino e com Greg Moore, eles foram-me mostrando coisas novas, fui aprofundando esse conhecimento. Ao chegar ao Hot já sabia mais ou menos o que queria, já sabia o que gostava de ouvir (pelo menos na altura), já tinha um leque bastante amplo de conhecimento. Não cheguei ao Hot do zero, já sabia quem era Charlie Parker, John Coltrane, Brad Mehldau, Ornette Coleman…

Do caraças!

 

Quais foram os primeiros discos que te chamaram para o jazz?

Epá, tantos! Os mais marcantes… “The Art of the Trio, Volume 3: Songs” de Brad Mehldau, que já ouvia muito antes de ir para o Hot e a que depois passei a dar ainda mais importância. Este disco tem obrigatoriamente de estar nessa lista. “Blue Train” e “A Love Supreme” de Coltrane. Esses três foram os que marcaram mais no início.

 

Como foi a passagem pelo Conservatório de Amesterdão e em que medida é que essa experiência te marcou?

Marcou não só pelos professores como, muito especialmente, pelos colegas. Está lá pessoal do mundo todo e cada um tem uma ideia diferente daquilo que a música é, cada um ouve música diferente, e ter conhecido toda essa gente veio ampliar o meu leque… não necessariamente de estilos de música, mas sobretudo formas diferentes de encarar a música. Conheci muitas pessoas, toquei com muita gente diferente, tive professores incríveis. Foi uma experiência super-enriquecedora.

 

A primeira vez que te ouvi foi no trio do pianista grego Spyros Manesis, com quem continuas a colaborar. Como começaste a tocar nesse grupo e como tem sido essa experiência?

Lá em Amesterdão conheci um contrabaixista grego chamado Petros Klampanis, que agora está a viver em Nova Iorque, e era ele que tocava com o Spyros nessa altura. Acabou o mestrado e foi fazer outro para os Estados Unidos. Foi assim que entrei para o trio e a coisa sempre correu bem. Agora é um bocado diferente, continuamos a tocar juntos, mas neste momento sinto que cada um de nós está a procurar caminhos diferentes. Seja como for, tentamos sempre fazer um esforço para encontrarmos um factor comum.

 

Além de João Firmino, Greg Moore e Spyros Manesis, que outros professores e colegas músicos mais te marcaram ao longo do teu percurso?

Dos professores que tive no Hot, tenho de destacar Nelson Cascais e Afonso Pais, que foram muito importantes e muito motivadores. Em Amesterdão, também Desidério Lázaro foi uma super-influência e uma ajuda…

 

Conheceste o Desidério em Amesterdão?

Não, conheci-o cá, antes de ir para o Hot, num” workshop” de Zé Eduardo no Algarve. Não o vi durante dois ou três anos e depois reencontrei-o lá. Ele sempre foi um grande guia, sempre disse o que valia a pena fazer e o que não valia tanto a pena fazer - musicalmente, experiências na cidade, o que quer que seja… Também trabalhámos juntos no mesmo restaurante. Foi ele que me arranjou o emprego, o que foi uma alta ajuda!

 

E músicos holandeses?
Há um pianista chamado Harmen Fraanje, que neste momento acho que é o meu músico favorito. Ele é músico em todos os sentidos, ainda que  teoricamente seja um músico de jazz. Se quer aprender uma peça do repertório clássico não lê a partitura, vai ouvir as gravações até à exaustão, até saber cada nota de cor. Depois, vai para o piano e toca. Ou seja, o gajo não lê as bolinhas pretas do papel, interioriza tudo e faz o que tem a fazer. A sua forma de pensar a música é completamente diferente. É um improvisador incrível: nunca o ouves a repetir-se ou a tocar a mesma coisa. E é um compositor do caraças! Ambrose Akinmusire tinha um concerto “carta branca” lá na Holanda e chamou Theo Bleckmann e Harmen Fraanje, para um concerto em trio. E se o Ambrose chama o Harmen, isso quer dizer alguma coisa…

Também conheci Clemens Van Der Feen, contrabaixista holandês que acabou o Conservatório no ano em que eu entrei. Fez clássica e jazz com nota máxima em ambos, o que não é nada mau…  Nessa altura já ele tocava na Orquestra Concertgebouw de Amesterdão, com  Toots Thielemans. É um músico  impressionante, com uma visão alargada. Tal como Harmen Fraanje, são ambos super-improvisadores. Tocam qualquer coisa que lhes ponhas à frente e fazem-no muito bem e de uma forma muito própria. 

Gosto de tudo

 

Passando agora para a tua música. Tens já dois discos editados e neles as tuas composições atravessam vários géneros musicais, vão da folk à música clássica, ao rock, ao jazz mais “puro”, etc. Como trabalhaste de forma a juntar estes elementos distintos?

Há uma característica que eu tenho e que se pode revelar um problema (ou não), que é: gosto de tudo, de tudo! De música clássica adoro tudo, de todos os períodos. De jazz adoro tudo, de todos os períodos. Pop, rock, folk, adoro tudo. Gosto de tudo. E a forma que arranjei de lidar com isso nestes dois discos foi fazer uma panqueca com essas coisas todas – cada uma com um topping diferente. O que não quer dizer que eu vá continuar a fazer isso nos próximos álbuns, mas foi a forma que encontrei de fazer as coisas. Porque não sou o tipo de pessoa que se vá censurar, tipo «escrevi um tema pop e não sei o que fazer com isto». Não vou fazer isso. Foi o que escrevi, é o que fica. Não estou a tentar fazer um disco de jazz, ou um disco de pop, ou não sei quê. Este disco tem a minha música e não é necessariamente um disco de jazz, este disco tem a minha música e podem chamar-lhe o que quiserem. Nestes dois discos não tive a preocupação de fazer algo de estilisticamente coeso. Acho que agora vou mudar. A visão que tenho neste momento está a mudar um bocado.

 

Vais “afunilar” para algum sentido?

Basicamente, acho que vou passar a fazer várias ramagens… Se quiser fazer um álbum de canções, vou fazer um álbum só de canções, se quiser fazer música improvisada, vou fazer um álbum só de música improvisada, etc. Vou tentar arrumar as coisas. Vai ser melhor para a minha sanidade mental e também vai ser melhor para as pessoas que ouvem a minha música. Pelo menos não vão andar a saltar faixas, porque aquela faixa é muito esquizofrénica, ou é muito pop… Isto é a minha visão agora, mas daqui a um ano já pode ser outra.

 

No grupo que lideras tens tocado com jovens músicos que estão a marcar a nova geração do jazz português: Ricardo Toscano, Diogo Duque, Joana Espadinha, João Firmino, etc. Por que escolheste tocar com eles?

Gosto muito de todos, pessoal e musicalmente. Se calhar podia ter chamado outros músicos, mas pareceu-me que estas eram as pessoas certas, também em termos da relação que temos uns com os outros. Não somos todos da mesma geração, mas quase, e a visão que temos da música é muito parecida, apesar de não ouvirmos todos as mesmas coisas. Cada um traz a sua coisinha e eu conto muito com o “input” deles.

 

O baterista, Bruno Pedroso, é o elemento mais velho do grupo. Porque o escolheste?

Porque, apesar de ele ser da geração anterior, mentalmente é da nossa. Não estou com isto a dizer que ele é retardado mental (risos)! Desde que voltei de Amesterdão toco muito com ele e dou-me muito bem com o Bruno.

 

Em 2011 venceste o Prémio Jovens Músicos – Categoria Jazz, num quarteto com Ricardo Toscano, André Santos e  João Pereira. Como é que isso aconteceu?

Acho que foi André Santos que montou a coisa. Não sabíamos que nome havíamos de dar ao grupo. O Toscano disse: «Fica Quarteto Ricardo Toscano» e ficou assim. O André queria participar porque era a primeira edição em que o Prémio Jovens Músicos ia ter a vertente jazz e juntou malta que ainda estava dentro das idades e que ele achou que era o pessoal indicado. E foi giro.

 

No teu primeiro disco, “Whatever it is You're Seeking (…)”, todos os títulos dos temas são referências de clássicos literários, de Ernest Hemingway a Carson McCullers. Como vês a ligação da literatura com a música?

Nas férias do meu último ano em Amesterdão recomecei a ler. Na adolescência, na altura em que queria ser astrofísico, lia muito, mas era tudo divulgação científica, não queria saber de romances. Depois comecei a tocar e houve um período em que não liguei nada à leitura. Nessas férias de Verão fui a uma livraria em Amesterdão que só tem livros em Inglês e comprei um de Ian McEwan. Comecei a ler aquilo e foi «Wow! O que é que estive a perder este tempo todo?». A partir daí foi sempre a ler, aquela coisa de ler dois livros por semana. E eu percebi que, quanto mais lia, mais música ouvia na minha cabeça. Não só as histórias ficavam na cabeça, como elas se reciclavam noutra coisa qualquer e decidi aproveitar isso.

 

Como foi o processo: pensaste uma música a partir de um livro ou o inverso?

Dependeu das situações. Em alguns casos fui à estante e tentei lembrar-me das histórias que me tinham marcado mais, como “O Velho e o Mar”, “A um Deus Desconhecido”, etc. Esses livros são superfortes e despertam logo música na minha cabeça. Noutros casos, fui ver que ambientes musicais se ajustavam à história. Na maior parte das vezes fui da história para a música.

 

Sei que tens um fascínio particular pela cultura japonesa. Em que medida se encontra aí uma ligação à tua música?

Acima de tudo tem a ver com questões estéticas e morais da cultura japonesa, que os ocidentais nunca tiveram ou, se tiveram, já perderam. As questões estéticas passam pela simplicidade e por dar importância não ao óbvio, mas àquilo que está ao lado do óbvio. Fizeram um estudo há uns anos, mostrando uma foto com um tigre no meio da floresta. Mostraram a foto a um ocidental, perguntaram o que ele via na foto e ele respondeu: «Um tigre.» Mostraram a um oriental e ele respondeu: «Está um tigre em primeiro plano, inserido na floresta, etc.» Há um livro de Junichiro Tanizaki, “Elogio da Sombra”, que é sobre isso, sobre a forma como os japoneses lidam com a luz e com a sombra, na arquitectura, no “design”, etc. E depois, além da estética, há a questão ética. Por tradição, os japoneses são pessoas muito sérias. Pode parecer ridículo um gajo de 30 anos ter este discurso de «o mundo está perdido», mas a verdade é que cada vez mais vejo certos valores básicos, como a honestidade e o respeito, a serem espezinhados. Os japoneces são o oposto, são muito correctos, para eles a palavra ainda conta. E se houver mais pessoas assim, o mundo será um sítio mais simpático para se estar.

Praticante de Kenjutsu

 

E também praticas artes marciais japonesas…

Sim, pratico Kenjutsu e Iaijutsu. São ambas artes marciais japonesas que os samurais praticavam, no Japão feudal. Uma delas é de combate, a outra é apenas o saque de espada. Acima de tudo, comecei a fazer isto porque fisicamente é puxado, o corpo fica saudável e a cabeça também. Por um lado, tem o lado do detalhe. Nestas artes marciais é preciso dar atenção a tudo. Metem a tua cabeça num estado de alerta que no dia-a-dia não tens. Fazer isto várias vezes por semana deixa a tua mente focada. Levar isso para a música é um dos meus objectivos. Se me pedem para compor um tema e entregá-lo em tal dia, quero tentar fazê-lo uma semana antes, pelo menos, para depois ter tempo para fazer as alterações que sejam necessárias. Se tenho de aprender repertório para um concerto, preciso de estar focado. Isto era uma coisa que eu dantes não tinha tanto, ou pelo menos não tinha de forma consciente. Agora consigo controlar mais esta questão.

 

Um dos temas do teu segundo disco chama-se “For Charlie” e é dedicado a Charlie Haden, mas, curiosamente, não inclui contrabaixo. Porquê?

Estava a tocar com o Septeto do Nuno Ferreira em Castelo Branco, na Festa da Sintoma Records, e antes de nós actuou o grupo de Luís Figueiredo, com um tema de Charlie Haden, “For Turiya”, que ele tocava com Jan Garbarek e Egberto Gismonti. Enquanto eles tocavam esse tema, alguém me mandou uma mensagem de telemóvel, não sei se foi Demian Cabaud, a dizer que Haden tinha morrido. Para mim aquele momento foi muito forte, foi um grande choque, porque gostava de o conhecer e de aprender e conviver com ele. No dia anterior tinha começado a escrever um tema e no dia a seguinte à morte dele fez sentido que aquela composição fosse uma espécie de homenagem ou despedida. Dentro dessa partitura, inconscientemente (só percebi mais tarde), incorporei pedaços de alguns temas dele, algumas pequenas frases que podem passar despercebidas, mas que quem conheça bem reconhece. Não tem contrabaixo precisamente para deixar o registo grave de fora.

 

E além do Haden, dos contrabaixistas históricos, quem mais te marcou?

Dos que ficam sempre, Jimmy Garrison, principalmente. Paul Chambers também. Hoje em dia, Thomas Morgan. Sou superfã.

 

Tens estado envolvido num grupo mais próximo do rock, o trio Hakken, com João Firmino e João Pereira. Como chegaste à música deste trio?

A ideia original quando formei o grupo tinha mais a ver com a improvisação, com explorar mais os ambientes, os efeitos, a electrónica. Mas no primeiro ensaio percebemos que não era esse o caminho que aquilo ia levar e decidimos não forçar esse lado. No Hakken a identidade do grupo tem mais a ver com os temas que cada um de nós destina ao trio. A ideia passou a ser: vamos escrever musica para isto, não é para trazer música já feita. Ainda estamos à procura… Vamos agora voltar aos ensaios e vamos definir a nossa direcção.

 

Manténs essa ideia de fazer um projecto focado na improvisação?

Esse é um outro projecto que vou querer realizar em breve, com esse lado da improvisação, música superelectrónica, provavelmente muito agressiva, com a possibilidade de ter duas baterias... Tenho ainda de ver isso.

 

Um outro projecto em que chegaste a participar foi um quarteto focado na improvisação livre que juntou Rodrigo Amado, Luís Vicente e João Lencastre. Como correu essa experiência?

Não sei se correu bem ou mal, sei que adorei! Tocámos juntos duas ou três vezes e gosto muito de trabalhar com eles. O efeito é o mesmo das aulas de Kenjutsu: esse grupo deixa-me em estado de alerta. É improvisação livre, não há tema, não há nada, o teu cérebro está noutro sítio. Parece que tens de ter cinco cérebros a funcionar ao mesmo tempo e eu adoro isso. Cada vez mais tenho a certeza de que é isso que quero fazer.

 

Vais fazer vários concertos com Rainier Baas, Luís Figueiredo e Joel Silva. Como se juntou este grupo?

Vamos ver como nos damos a tocar. Dou-me muito bem com o Figueiredo, dou-me muito bem com o Joel, o Joel também se dá bem com o Figueiredo e vice-versa. Ainda não sabemos bem com funcionará esta junção com o Rainier, mas vamos ver. Para já vamos dar estes concertos e depois logo se vê. Se vemos que a coisa fica séria, levamo-la para a frente.

 

O teu trabalho mais recente é o duo Songbird, com o pianista Luís Figueiredo. Porque decidiram tocar apenas “covers” de canções da música popular? Como negociaram a escolha dos temas?

Tem a ver com eu gostar de todo o tipo de música e mais alguma. Eu e o Figueiredo somos uns lamechas e gostamos das cantigas que puxam pela lagriminha. Apesar de nem sempre gostarmos dos mesmos autores, ambos apreciamos muito o formato canção. Estávamos num “souncheck” com Luísa Sobral no Algarve e começámos a tocar umas baladinhas, assim só por acaso. O Luís disse no gozo (ou não): «Devíamos fazer um projecto só disto e gravar.» Eu respondi: «Tá bem, ’tá bem, fixe, alta ideia.» Depois nunca mais falámos sobre isso e, passados uns meses, o Luís liga-me e diz: «Então como é que é, vamos gravar?» Reagi imediatamente: «Claro!» Juntámo-nos na casa dele em Coimbra durante três dias a escolher repertório. Obviamente, muito repertório que eu escolhi não ficou e muito do que ele escolheu não ficou. Tivemos de ver quais temas é que intersectavam nos gostos um do outro e de fazer uma selecçãozinha. Tínhamos uma pré-selecção de 50 ou 60 canções no início. No disco, ficaram umas 13.

 

E ao vivo tocam outros temas que não estão no disco…

Essa foi outra ideia que nós tivemos, que foi estar sempre a renovar o repertório. Antes de termos um novo concerto, juntamo-nos durante três dias a escolher novos temas. Pessoalmente, gosto mais dos que tocámos recentemente no Hot Clube do que aqueles que estão no disco.

 

Entre os temas do disco e os novos que tocaram ao vivo, há várias composições de Sérgio Godinho, talvez o autor mais representado na vossa selecção.

Sim, Sérgio Godinho é um dos tais “cantautores” que coincide nos dois. Por mim fazia um disco só de Sérgio Godinho! Ele tem canções incríveis e o Figueiredo acha o mesmo. Ele é o maior.

Contrastes com órgão e coro

 

Como vai ser o teu próximo disco como líder?

Acho que vai ser mais focado em contrastes. Vai ter uma vertente muito rígida e muita coisa superimprovisada. O grupo também vai ser ligeiramente diferente. Vão sair elementos, não vai haver saxofone, nem guitarra. Provavelmente entrarão cordas e coro,  ainda não sei. O Luís vai provavelmente também tocar órgão ou celesta. O problema é que algumas questões logísticas estão a meter-se no caminho do processo de criação. Quero poder tocar ao vivo a música tal como foi gravada. Por isso estou a tentar encontrar um equilíbrio entre aquilo que eu acho que a música deve ser e aquilo que consigo fazer ao vivo.

 

Além destes projectos e grupos já referidos, em que outros estás envolvido?

Toco com o grupo de Nuno Costa, na banda de Beatriz Pessoa (cantora que me é muito querida), no grupo de Gonçalo Prazeres e com Luísa Sobral. Faço, esporadicamente, algumas participações pontuais. Desde há um ano comecei a selecionar melhor aquilo que quero mesmo fazer e a deixar o resto de lado.

 

Por vezes a tua música soa muito “cinematográfica”. Alguma vez colocaste a hipótese de compores a banda sonora original para um filme?

É uma das coisas que gostava mais de fazer, sim. Para já porque adoro filmes, mas também porque adoro passar a questão dramática para a música… Adoro tentar meter na música um sentimento, uma situação. Para mim, toda a música devia ter isso, devia ter sempre esse núcleo emocional! Por vezes sinto que muita música não o tem, mas não vou ser eu a dizer às pessoas como é que elas têm de fazer música. Agrada-me a ideia de escreverpeças especificamente com essa função, de enfatizar uma cena dramática. Já aconteceu com um filme, mas o filme ainda não saiu. É um filme chamado “Ela”. Rodrigo Amado deu o meu contacto ao realizador, este usou música do meu primeiro disco e havia cenas em que era preciso escrever música original e eu escrevi. Espero que venham mais oportunidades dessas.

 

Também és professor, na Escola de Jazz Luís Villas-Boas. Achas que as escolas de jazz são importantes para dar as ferramentas aos alunos?

Não se pode obrigar ninguém a fazer uma coisa que não queira fazer. Há muita malta que está numa escola de jazz porque quer, mas depois não estuda. A música, como qualquer arte, não é matemática. Na matemática ensinam-te a resolver uma equação uma vez e a partir daí é sempre a mesma coisa, não tens de ir para casa trabalhar nisso. Na música tens, dão-te um conceito para desenvolveres, ou uma coisa básica, como uma escala, e tens de ir para casa para passar horas a meteres a escala nos dedos, na cabeça e no ouvido. Quando estás a tocar não podes pensar «ah, como é que aquilo se fazia?»… É isso que vejo mais na maioria dos alunos, porque na realidade aqueles que vão ser músicos competentes constituem menos de 10%, talvez 5%…  É só uma questão de processo mental, de perceberes que para isso funcionar tens de ir para casa estudar. Estar numa escola boa não quer dizer nada. O “sensei” da escola de Kenjutsu onde estou lançou agora um livro e tem lá uma passagem que é precisamente sobre isto: «Podes levar um cavalo a um lago, mas não podes obrigá-lo a beber”. É essa a função do professor ou da escola: «Vou levar-te até ali, tu agora é que sabes o que fazer com isso.»

 

Além de tudo isto, há mais algum projecto a concretizar?

Tudo! Gostava de me tornar mais sério na questão da música clássica, de entrar mais nesse mundo: tocar música de câmara, tocar numa orquestra... Gostava de ter mais competências nessa área, para poder acrescentar essa paleta de cores à música que já faço. Deixar completamente de tocar também é uma possibilidade. Gostava muito de tocar só música pop, de tocar só baixo elétrico a acompanhar músicos como Patrick Watson ou John Mayer, andar um ou dois anos em “tournée” com esse pessoal… ou com Sérgio Godinho! Tocar música barroca e tocar com  John Mayer são para mim duas opções igualmente viáveis! Gostava de sair de Portugal outra vez, para estudar. Não sei… Tudo pode acontecer!

 

Para saber mais

http://www.joaohasselberg.com/