Albert Bover, 4 de Dezembro de 2015

O outro pianista de Barcelona

texto Pedro Tavares e Mafalda Costa

É uma das figuras em maior destaque na cena de Barcelona do jazz. No instrumento que toca, o piano, é o nome de quem igualmente se fala quando o exemplo de Agustí Fernández vem à baila, ainda que o seu percurso seja bastante distinto do deste, porque mais enraizado na tradição do jazz. Completou os seus estudos em Nova Iorque, onde teve como mestres Fred Hersch, Kenny Barron, Barry Harris, Sal Mosca e Jackie Byard. A influência da música clássica é determinante na arte pianística que vem desenvolvendo. Já veio a Portugal algumas vezes, mantendo um trio com Demian Cabaud e Marcos Cavaleiro. Chama-se Albert Bover e fomos bater-lhe à porta para o conhecermos melhor…

 

Estudaste piano clássico e jazz em Barcelona e depois continuaste os estudos de música em Nova Iorque. Fala-me um pouco sobre essa tua formação… 

Bem, enquanto adolescente, por volta dos 14 anos, ouvia muito rock sinfónico… Depois comecei a estudar música clássica, mas, a certa altura, ouvi um disco de Bill Evans e decidi que o que queria mesmo estudar era jazz e não clássica. Com 15 ou 16 anos de idade ouvi Chick Corea e gostei desse jazz de fusão. A verdade é que não estudei piano clássico durante muito tempo, foram apenas dois anos… Mas acabei por estudar clássica por mim próprio, mais tarde, em Nova Iorque, com a pianista Sophia Rosoff*, que tocava jazz e compositores como Bach e Chopin.

 

Os primeiros discos que ouviste eram então de rock sinfónico?

O rock sinfónico era uma curiosidade… No final dos anos 1970 ouvia discos dos Genesis, dos Emerson, Lake and Palmer e gostava desse som. Era um miúdo um pouco ingénuo, com pouca informação….

 

Como é que a música passou a fazer parte da tua vida?

Foi através dos discos. O meu pai não se dedicava à música. Na verdade, sou o primeiro músico da família. Nem sequer havia um piano em minha casa, tive de lutar para me comprarem um.

 

A tua música é um reflexo das tuas influências. Concordas?

Creio que sim. Enfim, é um reflexo daquilo que gosto. Toda a gente toca como pratica e de acordo com a música que ouve. E eu gosto de jazz e de música clássica. Também gosto de músicas do mundo e ouço flamenco, música latina…

 

Tens até trabalhado com músicos de flamenco…

Sim, inclusivamente com músicos marroquinos, de Agadir. Para fazermos uma fusão da música da Andaluzia com o jazz, que não é fácil.

 

Por que razão não é fácil?

A música da Andaluzia é diferente, não sei explicar muito bem. O jazz que eu pratico é um jazz moderno, mais aberto, e o flamenco é uma música mais fechada. É difícil abri-la. 

Marcas perigosas

 

Temos estado a falar de influências musicais, mas não as mencionaste todas…

São muitas… Os discos de Herbie Hancock, de Keith Jarrett, Bud Powell, Miles Davis, Wayne Shorter… Não me marcaram só os pianistas, há outros músicos que são grandes influências no meu som. Chet Baker, por exemplo, que mostrou que se pode tocar como se canta. Houve uma época, também, em que ouvi muito Brad Mehldau. Mas depois tive de ouvir outros discos. Não é bom ficarmos só com uma referência. É um pouco como acontece com John Taylor ou Keith Jarrett: influenciam-te muito e depois notam-se demasiado essas marcas. É perigoso. Eleger figuras como essas, que ainda por cima toda a gente conhece, é perigoso.

 

O baterista Ramón Prats já me disse que não grava os seus concertos e ensaios, que não se ouve, para ter de se esforçar mais. Acha que é esse esforço que irá contribuir para o seu desenvolvimento…

Isso é estranho. Não quer dizer que seja obsessivo com isso, mas acho que gravar o que tocamos é positivo. Ouves e descobres o que estás a fazer. Depois desenvolves o que te agrada mais. Se não te agrada, o melhor é esperar um tempo antes de voltar a gravar…

 

Dás aulas de piano para o curso de jazz da Escola Superior de Música da Universidade da Catalunha e no Conservatorio del Liceo - como é que descreverias o ensino da música e do jazz na região?

Quando eu era jovem era muito difícil obtermos informação. Não havia formação superior, tínhamos aulas particulares com um ou outro professor. Depois havia cursos em Nova Iorque, que era um sítio onde a música estava viva e havia muita gente a tocá-la muito bem. Quando voltavas para aqui sentias que faltava um compromisso com a música e isso acontece menos, agora. As pessoas são mais profissionais, percebem que não podem simplesmente subir a um palco e tocar mais ou menos, como quem está a lavar pratos. Tens de dar mais de ti. Não pode ser uma coisa mecânica ou de “entertainment”, só para ganhar dinheiro. Tem de haver algo mais. Tem de existir uma necessidade, uma vocação. E agora é mais fácil ter acesso à informação, a escola está mais regulada.

Já os programas de estudo dependem de cada um. Mas podem melhorar-se em muitos aspectos. Os que existem são bastante abrangentes, dão liberdade aos estudantes, ou seja, cada aluno pode estudar com diferentes professores e cada pedagogo lhes dará algo de diferente. Por vezes até quase que se contradizem entre si, o que é muito enriquecedor para o aluno. Cada um decidirá depois se se identifica mais com a estética de A ou B. Têm muito mais informação disponível do que a que eu tinha com a idade deles.

 

Essa falta de informação que existia no teu tempo de estudante é a razão pela qual disponibilizas muita informação sobre livros de jazz, improvisação e piano, para além de entrevistas, no teu “site” pessoal? A quem se dirige essa informação? A toda a gente em geral ou aos estudantes de jazz?

É dirigida a todos, sim. Quer dizer, no início era para que as pessoas me conhecessem melhor e percebessem que tenho curiosidade em ir mais além do que só tocar piano… É muito difícil ficarmos restritos 24 horas seguidas ao que fazemos, seja tocar piano ou jogar futebol. Creio que as nossas inquietações e os nossos interesses se reflectem na maneira de tocar… torna a experiência mais rica. Pessoas como Ethan Iverson ou Keith Jarrett dizem isso mesmo: que são mais importantes as coisas que vão para além da música, que são as que os inspiram, do que a música em si.

 

Precisamente, a literatura é um dos teus grandes interesses, ao que sei. Que escritores te marcaram mais na música que tocas?

Essa é uma pergunta muito difícil, porque não posso dizer que haja uma influência directa. A influência passa mais pelo meu estado de ânimo, na verdade. Mas é muito difícil responder a essa pergunta… Proust é quem me vem à cabeça, por exemplo, e Pessoa também é muito importante.

 

Por outro lado, toda a vasta informação sobre livros de música que dás pode ser uma forma indirecta de educar o público que te procure, uma vez que em Espanha tanto o jazz como a improvisação, ou as músicas mais criativas, não cativam muito as pessoas…

Talvez seja assim, de facto. O problema já vem de longe, vem do século XV. Nessa altura há um total desinteresse pelo que se passa no Norte da Europa. E enquanto o Norte da Europa vai evoluindo e sofrendo revoluções, surgindo Bach, etc., em Espanha não acontece nada. Passa-se o mesmo com a literatura e com a pintura, perde-se tudo durante séculos… Até que aparece um Manuel de Falla no século XIX. Espanha esteve muito fechada musicalmente. Até nas colónias havia mais coisas a acontecer do que aqui. Qual é a tradição mais forte em Espanha? É o flamenco, que é uma música de fusão. Penso que as músicas mais criativas são estas músicas de fusão. Mas no geral há muito pouco a tradição de uma cultura musical. 

O que faz falta

 

O que é que faz mais falta, na tua opinião?

O que mais falta em Espanha é a educação cultural, uma educação musical desde a infância e uma cena artística. Aqui estuda-se música para se ser um músico profissional, enquanto noutros países se estuda música porque se gosta. Obviamente, são essas pessoas que ouvem música, que compram discos e vão a concertos. Até na rádio se vê a diferença… Se fores a Londres ou a Paris, tens jazz na rádio. É um panorama musical um pouco triste, o nosso.

 

Encontro nessa tua iniciativa de informar as pessoas no teu “website”, nesse teu cuidado, um paralelo com o pianista Agustí Fernández, que também se preocupa em chegar a mais pessoas…

Sim, isso é muito importante. E no caso do Agustí estamos a falar de um jazz de vanguarda, com um público mais restrito, o que torna tudo mais difícil. No meu caso também tento tocar com músicos mais jovens do que eu, ao vivo ou mesmo em formações que crio.

 

És professor. Já falaste um pouco disso, mas o que gostas mais de ensinar aos teus alunos?

Por um lado, o facto de aprender com isso. Ensinar permite-me aprender. A ensinar melhor e a saber coisas que eu pensava que dominava, mas que afinal não sabia tão bem quanto isso… Por outro lado, sabes que podes ajudar alguém que está às voltas com um problema durante anos e de repente levanta-se e toca. Isso é muito gratificante. A melhor forma de aprender e de transmitir esta música é subir a um palco e tocar com alguém que saiba mais do que nós. Por nós mesmos é difícil avançar… É preciso tocar com os outros. E ensinar cumpre esse papel social da música.

 

Na música que tocas há mais temas originais ou interpretações?

Diria que é 50% para cada lado. Há uma parte de “standards” que toco, mas toco à minha maneira, mais lento ou mais rápido, sem seguir muito o original. Mudo a métrica ou os acordes e faço a minha interpretação pessoal. Nos temas que componho há alguma improvisação livre e tenho algumas coisas gravadas assim.

 

Achas que é possível ensinar improvisação?

Sim, até aos músicos da clássica, que têm medo. Na clássica, os músicos estão presos à partitura, se ela não estiver lá eles não tocam. E eu digo-lhes: olha para as notas. O "Autumn Leaves", por exemplo. Tocas a melodia. Agora tens espaço para improvisar, faz variações sobre a melodia. Muda um pouco o ritmo, as notas. A partir daí perdem um pouco o medo que têm e começam a improvisar. A partir da melodia, o que eu acho que é uma boa escola. É a escola de Lennie Tristano, de Lee Konitz.

 

Por que razão é que te parece que os musicólogos ortodoxos do jazz e da clássica não acreditam no ensino das músicas de vanguarda?

Porque quando ensinas uma coisa, no conservatório, já estás a institucionalizá-la, já estás a dizer que se toca de uma determinada maneira. Mas isso, mais uma vez, depende da pessoa com quem se estuda. Podes estudar com um professor ortodoxo ou com alguém como Agustí Fernández, que ensina clássica e diz-te para tocares as cordas do piano… Eu creio que sim, que se pode ensinar a improvisar. Gosto muito do Agustí, penso que é um dos grandes pianistas europeus, tal como John Taylor. O Taylor tem peças para piano preparado, gravações em que toca as cordas do piano e de que eu gosto muito…

 

E no piano, quem mais te marcou?

Gosto de pianistas que têm um bom ritmo, algo de importante que muitas vezes é descuidado, sobretudo na clássica. É uma coisa que aprecio nos pianistas clássicos. E gosto dos pianistas de jazz que têm um bom som. O Jarrett, o Mehldau, Art Tatum, Hancock, John Taylor, Fred Hersch, Ethan Iverson… um bom som e um bom ritmo. São músicos completos.

 

E entre os pianistas da clássica?

Martha Argerich, Marc-André Hamelin, Horowitz, Glenn Gould a tocar Bach… 

O problema são os festivais

 

Como te parece o panorama do piano jazz “mainstream” na Catalunha?

Tete Montoliu era espectacular. Vê-lo tocar, com o seu sentido de tempo, o seu ouvido… Fez um duo incrível com o saxofonista George Coleman. É um pianista muito completo. Mas depois dele, quem é que seguiu a sua tradição? Não me perguntes, não sei dizer…

 

E entre os mais jovens?

Os jovens que tocam bem não estão no “mainstream”, tocam algo mais avançado.

 

Não és estranho a Portugal. Numa das últimas vezes tocaste até com Demian Cabaud e Marcos Cavaleiro…

Tenho tocado em Portugal algumas vezes. Nos anos 1990 toquei com Carlos Barretto e apercebi-me que o nível dos músicos de jazz em Portugal é muito bom. É um sítio onde gosto de estar. Quanto ao trio, Marcos Cavaleiro toca muito bem… O Demian, conheci-o através de Vasco Agostinho, com quem já toquei, e temos alguns amigos em comum. Gosto do trio tradicional de piano: é o contexto em que te podes expressar melhor, ao contrário de uma formação em quarteto ou quinteto, onde estás mais no papel de acompanhante. E também gosto de tocar a solo… Na verdade, gosto de músicos que têm conhecimento da clássica e do jazz, dos dois campos, e que o podem expressar a solo.

 

Achas que um músico, para ser bom, deve ter conhecimentos da música clássica?

Não, certamente que não. É uma coisa que não podemos dizer… Os músicos que tocam jazz e estão fora do universo da clássica estão muito bem, isso é certo. A mim agradam-me mais os que têm essa influência…

 

Tens muito público, nos teus concertos?

Sim… O problema aqui são os grandes festivais, que são dirigidos com intuitos comerciais… Se contratam Keith Jarrett, eu não tenho hipóteses, pois o Jarrett dá um espectáculo melhor do que o meu. Devia existir mais apoio para os músicos locais, como penso que acontece em Portugal e em França. Em Espanha não é assim, contrata-se muito os músicos estrangeiros… Embora em Madrid esse apoio seja mais notório do que em Barcelona. É tudo complicado, porque a programação que depende dos dinheiros públicos é política e os políticos têm uma visão limitada, pensam nos quatro anos em que estão no pelouro da cultura.

 

* Pianista norte-americana que ensinou músicos como Brad Mehldau, Fred Hersch, Ethan Iverson, Angelica Sanchez e Benoit Delbecq, entre outros.

 

Para saber mais

http://www.albertbover.com