João Clemente (Slow is Possible), 23 de Novembro de 2015

Devagar é mesmo possível

texto Rui Eduardo Paes

O disco homónimo que os apresenta foi gravado há precisamente um ano e está finalmente aí, causando surpresa a quem já o ouviu. De então para este final de 2015 muita coisa mudou com os Slow is Possible, o que passou pela criação do projecto “Sense of Becoming”, dedicado a seis filmes de Maya Deren. Mas como o próprio nome do grupo formado por João Clemente, Patrick Ferreira, Bruno Figueira, André Pontífice, Nuno Santos Dias (que entrou entretanto), Ricardo Sousa e Duarte Fonseca indica, todos os sete têm a consciência de que é preciso tempo para chegar a algum lado. Na qualidade de porta-voz desta banda sem líderes, Clemente afirma-o claramente nesta entrevista: «Temos muito para aprender e para crescer.» E no entanto, está aqui a grande novidade do jazz nacional por estes dias…

 

Pelo que sei, na origem da constituição dos Slow is Possible está o facto de vocês se terem encontrado na Escola Profissional de Artes da Covilhã, provindo de cidades diferentes. Um desfecho curioso, tendo em conta que eram estudantes de música clássica. Como é que partiram daí para um grupo de jazz, com influências do rock e de outros géneros à mistura?

Começámos a fazer música juntos há muitos anos, com trios e quartetos de “jazz”, uma orquestra de música livre chamada Salad Ensemble, várias gravações caseiras mas intensas e outros projectos que juntavam separadamente alguns dos agora músicos dos Slow is Possible, etc...

Quando formámos os Slow não houve uma escolha consciente do género de música que iríamos tocar. Tocamos o que nos apetece e o que gostamos. Nascemos nos finais do século XX, na era da informação, e as barreiras de géneros e estilos são para nós coisas do passado. Estamos abertos à experiência e, acima de tudo, temos um enorme fascínio pelo que não sabemos e não conhecemos. Jazz, rock, erudita, noise... não tememos os rótulos, mas da nossa parte não queremos alimentar essa necessidade de encaixotar as coisas pela forma. Não é a fisionomia das coisas que nos atrai, é o teor.

 

A propósito: a circunstância de viverem em locais distintos dificulta o vosso processo criativo? Como é que o grupo funciona, em termos de ensaios e de outras necessidades de trabalho colectivo? As composições são tuas apenas, ou há partilhas de autoria?

As composições são sempre colectivas. Quem traz a faísca varia, mas as composições são feitas em grupo. Não temos uma fórmula de composição: cada música que fazemos tem o seu processo unário e tentamos abordá-las com verdade, ou seja, nada é sagrado e a ideia que melhor servir a música em questão é a que fica. E essa ideia fica até uma nova sensibilidade se instalar e levar a que, parte A ou B, sejam refeitas. O facto de não vivermos todos no mesmo lugar não dificulta em nada o processo criativo. Nunca é simples marcar ensaios, o que ajuda a focar e a não tomar nada como certo. Definitivamente os ensaios não são uma ida ao parque.

 

Achas que foi a formação clássica dos membros do grupo, e o facto de não terem rodado nos circuitos do jazz, que definiu o estilo dos Slow is Possible? É isso que justifica, designadamente, a particularidade de não recorrerem às habituais coordenadas, e como eu costumo dizer, aos tiques e truques do jazz português?

A formação que cada elemento tem é apenas uma componente daquilo que cada um traz para a banda. Não temos dúvida de que uma das melhores coisas que retiramos da nossa formação foi a possibilidade de encontrarmos pessoas com as quais partilhamos sensibilidades e com quem gostamos de tocar. Nunca nos vimos como músicos “clássicos” ou “improvisadores”, ou outra coisa qualquer. No que diz respeito aos “circuitos” e aos seus tiques, a verdade é que não temos grande noção deles. Sabemos que não há um manual de instruções para se fazer uma banda como a que queremos fazer, por isso vamos aprendendo, fazendo. 

Ser a favor

 

Levando a questão mais longe: o facto de não estarem inseridos nos centros criativos do jazz nacional, Lisboa e Porto, acabou por ter o resultado positivo de os distinguir? Ou seja, além da vossa formação musical foi também a geografia que os individualizou?

A geografia define uma parte de qualquer ser vivo deste planeta, mas isso não significa mais que isso mesmo: uma parte. No nosso caso, nunca sentimos a necessidade de lutar contra coisa alguma, pois a indiferença é bem diferente do ódio e do amor. Quando se vem de sítios onde ninguém quer saber o que estás a fazer, não és contra nada. Para alguma coisa acontecer, o mais importante é ser a favor de algo. O foco passa exclusivamente por aquilo que tu queres fazer, sem limitações ou condicionalismos.

 

Algo que tem surpreendido quem já vos ouviu é o facto de músicos tão jovens evidenciarem tanta maturidade musical. Ou seja, o vosso novo CD tem uma enorme frescura, mas é também de uma grande solidez. Isso suscita-te que comentário?

Nenhum. O álbum não é mais do que o registo da música que fazemos e da forma como a fazemos. Somos nós que estamos ali e nada mais.

 

A música da banda ficou definida desde logo o início pelo seu carácter imagético e cinematográfico. Isso acontece porque todos vocês são cinéfilos? É influência ou foi sempre programático? Há quem detecte nesse aspecto uma referenciação no John Zorn compositor para cinema, apesar das diferenças – é verdade?

Todos nós gostamos de cinema, mas daí a sermos cinéfilos vai uma boa distância. Algumas das nossas referências vêm da sétima arte e partilhamos o mesmo gosto por vários realizadores e filmes. Ainda assim, o cinema tem um papel diferente na vida de cada um. No que diz respeito a John Zorn, não é apenas a sua música para cinema que nos inspira. Conhecemos o seu catálogo a fundo e nunca escondemos a admiração e o respeito que temos pelo seu trabalho.

 

Essa abordagem cinemática parece ser enformada, sobretudo, por um interesse pelo cinema experimental (vocês já definiram a música que tocam como um misto de David Lynch e Maya Deren) e pelo cinema de autor dos primórdios. Haverá um paralelismo entre esse gosto pelo cinema experimental e a vossa faceta também experimental? Em que termos? Detectao também nos Slow is Possible uma referenciação literária. Está patente, por exemplo, no tema “Chasin’ Bukowski”, mas parece-me ser mais extensiva…

Somos naturalmente atraídos para os campos mais obscuros: parecem-nos mais interessantes e íntimos. Gostamos de autores que têm uma voz própria e, assim sendo, dizer que pomos uma vela na capelinha do cinema experimental é falso. A nossa componente experimental advém da curiosidade, da vontade de saber “o que é”, “como fica”, “o que traz”, não vem de uma lógica reflectida e muito calculada.

Andrei Tarkovsky, David Lynch, Woody Allen, Maya Deren, Kenneth Anger, Charles Bukowski, Al Berto, Herberto Hélder, Lars Von Trier, Charles Baudelaire, Jain Painlevé, Alejandro Jodorowsky, Sergei Parajanov, Antonin Artaud, Arthur Rimbaud são autores que não colocamos em gaiolas. Para nós, as suas obras são livres e, por conseguinte, têm influência na música que fazemos.

 

O que é que vocês ouvem habitualmente? Do que gostam, que influências admitem nos vossos estilos pessoais?

Muitas e variadas… Não sabemos por onde começar, e muito menos acabar…

 

Apesar de todos os elementos disruptivos, as abstracções, o noise, a complexidade formal, a música dos Slow is Possible é até de uma grande acessibilidade. As melodias entram no ouvido e os ritmos fazem bater o pé. Esta ambiguidade foi intencionada, discutida?

Nunca discutimos tal coisa. Corremos atrás do que nos chama a atenção e isso leva-nos a sítios desconhecidos e imprevisíveis. Se nesse lugar são as melodias que reinam, então é assim que fica. Se, por outro lado, o sítio onde chegamos implica romper lábios e cortar dedos, também o fazemos. É a própria música que nos vai guiando. 

Castelos de areia

Na apresentação do grupo tem surgido a alusão de que se trata de uma formação de «música de câmara contemporânea», não obstante as intervenções de uma bateria, uma guitarra eléctrica e alguns processamentos electrónicos. É, de facto, o que os Slow is Possible pretendem ser?

Só queremos ser uma banda. A definição “música de câmara contemporânea” é suficientemente vaga e serve para fecharmos rapidamente conversas chatas que temos com pessoas que só querem ver e não ouvir.

 

No grupo a escrita tem uma presença muito mais importante do que a improvisação, mas fiquei com a percepção durante a gravação do CD de que as composições são bem mais abertas, no sentido de deixarem espaços para o trabalho no momento, do que parece. Falas-me da relação do composto com o improvisado nos Slow is Possible?

Até à data, todas as músicas dos Slow têm partes compostas e definidas, mas a orgânica da música vem de todos os terrenos que deixamos em aberto. Mais que intencional, é natural, a forma como isso acontece. No caso da “Waiting Like a Dog”, foi feita num dia e está, basicamente, igual até hoje. A “The Robbery”, que foi a primeira música que compusemos para Slow, já teve muitas e muitas versões, e a última secção da música foi feita apenas no dia em que a gravámos para o álbum. Cada música tem de ser abordada como é, única e com um conjunto de regras próprio. Nunca esculpimos em pedra, tentamos construir castelos de areia.

 

Vocês começaram por ser um septeto, tendo uma guitarra clássica como sétimo instrumento, depois tornaram-se num sexteto, aquele que gravou este vosso primeiro disco, e depois ampliou-se novamente com a entrada de um pianista. O que é que mudou na música entre o que ouvimos no disco e os concertos actuais dos Slow is Possible?

Felizmente, muita coisa. A entrada e saída de elementos altera, obrigatoriamente, a química de qualquer grupo. O que está no álbum é bem diferente do que estamos a fazer neste momento ao vivo. O facto de termos agora dois instrumentos harmónicos abre portas para novos territórios. O ponto central da banda passa precisamente pelos concertos; o foco principal do nosso trabalho é esse. É uma situação mais extrema e mais íntima que qualquer outra. Em relação às alterações no alinhamento, não entram elementos para os Slow apenas porque queremos ter uma bateria ou um piano. Entram porque é o Duarte e o Nuno, porque são pessoas que encaixam na perfeição na genealogia da banda.

 

Tanto quanto me é dado entender, não sendo tu propriamente o líder dos Slow is Possible, és o elemento aglutinador. Esclareces-me qual é o teu papel no grupo? O do colega que, como já os outros me disseram, os levou a ouvir Mr. Bungle quando estavam a tocar Brahms e pouco mais conheciam fora da clássica?

No princípio dos Slow o meu papel passou muito por esse lado aglutinador. Os elementos não se conheciam todos e eu fiz essa ponte. Neste momento, cada um tem o seu espaço e o seu campo de acção. A partilha de referências é, e sempre foi, comum a todos. Eu mostro Albert Ayler e alguém me mostra Émile Parisien, eu falo em Mr. Bungle e alguém me fala em Moondog, etc, etc, etc... A partilha faz parte da génese, e as dinâmicas dos Slow estão sempre em constante mutação. A única coisa absoluta é essa. Não há líderes. A metáfora que melhor funciona é a de um barco com 14 remos. Se num dia o Patrick está a conseguir fazer uma melhor leitura das estrelas é ele que comanda, e assim se passa com todos.

 

E agora que o vosso “debut” está cá fora e começam a ter mais concertos, o que se segue? Para onde vão agora, o que pretendem fazer?

O que queremos são concertos, e quantos mais melhor. O álbum saiu agora, mas foi gravado há um ano. Entretanto, as coisas deram algumas voltas e depois de termos feito o projecto “Sense of Becoming”, no qual musicámos seis filmes da Maya Deren com música nova, neste momento temos material suficiente para voltar a gravar e queremos encontrar forma de o fazer. Não temos ilusões e sabemos o nosso lugar, ainda somos um peixe muito miúdo, com muito para aprender e para crescer.

 

Para saber mais

https://www.facebook.com/slowispossible/