Gileno Santana, 21 de Outubro de 2015

Caso de sucesso

texto Nuno Catarino fotografia Rui Bandeira

O que Gileno Santana tem feito na Orquestra Jazz de Matosinhos chamou as atenções sobre si. A confirmação veio depois com o álbum “Metamorphosis” e agora a sua colaboração com o também brasileiro, e também residente em Portugal, Tuniko Goulart está a projectá-lo para um público maior. O momento certo para conversarmos com um trompetista de especial talento que trocou o seu país pelo nosso quando tinha apenas 18 anos de idade e cresceu muito nos nove em que cá vive.

 

Como começaste a tocar? Porque escolheste o trompete?

Comecei a tocar trompete por influência do meu melhor amigo, quando tínhamos ambos 13 anos. Hoje em dia, continuamos amigos e a tocar trompete. Este foi o meu primeiro e único instrumento.

 

Quais foram os primeiros discos de jazz que mais te marcaram?

O meu primeiro disco de jazz foi uma compilação do Miles Davis. Nunca me esquecerei daquela introdução ao piano de Bill Evans e a quarta aumentada que o Miles, sem pretensão nenhuma, ataca logo na exposição do tema “Bye Bye Blackbird”. Mais tarde ofereceram-me um disco, também, de compilações de Duke Ellington e lembro-me ainda de partilhar uma compilação de Louis Armstrong. Esse disco pertencia ao tal meu amigo que me influenciou a tocar trompete. Ouvíamos à vez, uma semana ouvia eu, outra semana ouvia ele. Naquela altura, no Brasil, era quase impossível encontrar discos de jazz sem serem compilações.

 

A influência de Miles Davis parece evidente, embora no disco Metamorphosistenha um tema chamado Im Not Miles. Como foi a tua relação com a sua música?

Acho que a influência do Miles neste momento nota-se cada vez menos. Sente-se somente numa fase em que estava a descobri-lo. Quando o disco foi gravado em 2012, estava a adorar aquela sonoridade rock dos anos 1970 com Led Zeppelin, Jimi Hendrix… Para mim, “I’m Not Miles” só faz sentido se ouvirem seguidamente “Metamorphosis I”. O disco “Metamorphosis” está pensado com um fio condutor.

Depois de três anos continuo a gostar do disco, principalmente do som. Tive dois dias de gravação “one take” e estive vários dias à procura de um conceito de som. Na minha opinião, os discos de jazz devem ter a mesma qualidade sonora dos discos de R&B, pop, rock… esses estilos são irrepreensíveis em termos de sonoros. Acho que nós, músicos de jazz, devemos pensar da mesma forma. Geralmente, os músicos de jazz ensaiam, fazem uns “gigs” e gravam. Gosto mais do conceito dos discos de pop&rock, com pré-produção, bons micros, engenheiros que percebam daquilo que estão a gravar, boa mistura e boa masterização e, se “puder”, uma boa capa para o disco também conta muito. Acho que nesse aspecto o Miles tem alguma influência em mim.

 

Além de Miles Davis, quem são os trompetistas que mais te inspiraram?

Adoro tudo o que seja tradição e trompetistas tradicionais como Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Clifford Brown, Clark Terry, Roy Eldridge, Art Farmer,  Blue Mitchell, Booker Little, Chet Baker, Freddie Hubbard, Lee Morgan, Red Rodney, Woody Shaw, Terence Blanchard, Wynton Marsalis, Roy Hargrove… Como vês, a lista é grande, conheço-os todos, e por vezes gosto de tocar com a linguagem deles. 

Sentimentos do quotidiano

 

Fora do jazz, que músicos e músicas mais te marcaram?

Se há coisa que me inspira é o sentimento que tenho cá dentro de mim. Sentimentos quotidianos, problemas, realizações, paixões, etc… É isto que me inspira para fazer música. Todas as minhas músicas foram criadas com sentimentos do momento e não com base noutras criações. No entanto, tenho as minhas influências, como a música tradicional brasileira, a música cabo-verdiana, a senegalesa, música com raízes africanas. Gosto também muito das baladas que se faziam nos anos 1980, “Slave to Love”, “I’ll Be Over You”, “Coming Around Again”, essas lamechices. Adoro esse tipo de música. Gosto muito ainda de Meshuggah, uma banda sueca de hard rock, G. Mahler, P. Mussorgsky, J. Brahms, Tchaikovsky e os clássicos Beethoven e Mozart. São essas experiências musicais que depois se transmitem em sentimentos e passam para a minha música.

 

Tens estado ligado àOrquestra Jazz de Matosinhos. A participação na orquestra tem sido importante para o teu desenvolvimento como músico?

Sem sombra de dúvida. A OJM tem sido o meu grande suporte desde 2010, quando assumi o papel de “lead trumpet”. Tenho vindo a aprender constantemente na OJM e tenho tido o prazer de tocar com pessoas maravilhosas. Tive momentos únicos que me fizeram ganhar maturidade, vocabulário e responsabilidade. Poucos sabem o que é ser “lead trumpet” numa “big band”. A OJM abriu-me várias portas, inclusive para tocar noutras orquestras pela Europa, como é o caso da DRO na Suíça, da qual sou músico contratado.

Em muitas viagens, quando digo que sou músico da OJM, os músicos reconhecem… «Woow, aquela orquestra em Portugal que gravou com Kurt Rosenwinkel…» Definitivamente, a OJM pôs Portugal no mapa internacional e sinto orgulho em fazer parte desse grande projecto.

 

 Metamorphosisapresentou uma música jazz com afinidades com o rock. Como chegou a este som?

Era o que a minha cabeça pedia no momento, sou avesso a modas. Foi no período em que estava deslumbrado com o Miles Electric.

 

Como surgiu o projecto com Tuniko Goulart?

Foi numa “tour” em Cabo Verde, de uma maneira muito natural. Estávamos à espera do almoço, pois o serviço lá é muito lento. Como tínhamos acabado de ensaiar, estávamos com os nossos instrumentos. Perguntei ao Tuniko se ele sabia tocar um chorinho chamado “Espinha de Bacalhau”. Ele na hora tirou a guitarra da “case” e começámos a tocar - esse momento está registado no Youtube. Depois começou a haver muitas partilhas e visualizações no Facebook e foi então que vimos que poderíamos fazer um projecto a tocar chorinhos. Resolvemos fazer outro vídeo e tivemos mais de 40 mil visualizações. Na semana seguinte estava na casa do Tuniko para gravar o disco promocional que foi lançado no dia 15 de Outubro. 

Os verdadeiros artistas transcendem-se

 

Em que outros projectos estás envolvido actualmente?

Neste momento estou a apostar no duo com o Tuniko. Com este projecto consegui uma coisa muito engraçada, que foi pessoas do mundo todo a partilharem no Facebook um tema meu que se intitula “Malaco”, tornando-o de certa forma viral. Continuo com o Metamorphosis e já estou a fazer a pré-produção de um novo disco. Tenho o Egli-Santana Group, o meu projecto sediado em Zurique com músicos da Suíça, da Alemanha e de Itália. Com esse grupo ganhámos em 2014 o Festival Internacional de Bandas em Berna- CH, Bejazz. No próximo ano vamos tocar em Portugal. Tenho também um trio com Carlos Barretto e José Marrucho. Como “sideman” estou a participar no novo projecto de Nelson Cascais, “Roda Viva”. Sou constantemente chamado para dar “workshops” em Portugal e em países como Brasil, Áustria, Itália, Coreia do Sul, Japão, etc. Também sou músico convidado de artistas internacionais como Gregory Porter, Bob Stewart e Tony Allen, entre outros.

 

Vieste para Portugal háalguns anos. Como vês a actual cena jazz portuguesa?

Cheguei com 18 anos, estive um ano em Lisboa e depois fui para o Porto. Já lá vão nove anos. Penso que Portugal atravessa o seu melhor momento de sempre, com muita diversidade e óptimos músicos de nível internacional em todas as áreas. Com projectos que cada vez mais rompem fronteiras, agentes que se conseguem impor no cenário internacional, festivais com grandes nomes. O momento é de crise, mas os verdadeiros artistas transcendem-se, continuam a trabalhar, porque a sua música é boa. Penso sempre que aquele que é bom e é esforçado terá sempre trabalho.

Acho que Portugal nunca esteve tão bem em toda a sua história. É claro que não vou falar que há 20 anos atrás os músicos ganhavam mais do que ganham hoje. Prefiro realçar a evolução que houve do que estar a lamentar, até porque eu não estava cá nessa altura. Portugal está seguramente no topo da Europa no que toca a qualidade dos músicos em geral. Mas é mais fácil eu ter um concerto na Austrália do que em Lisboa.

 

Quais são os teus planos para os próximos tempos?

Continuar a andar por este caminho. Já sei o que quero para mim e vejo que, se continuar nesse seguimento, as coisas mais cedo ou mais tarde vão acontecer. Lidar com a ansiedade é o maior desafio para o artista. Tenho procurado manter-me lúcido no que diz respeito a gerir uma carreira, um percurso… Quando um músico só sabe tocar o seu instrumento não é um bom sinal. No mundo moderno, temos de ser um pouco de tudo. Por isso, penso como artista e não só como músico. Podem esperar sempre o melhor da minha parte!

 

Para saber mais

http://www.ojm.pt/pt/orquestra/musicos/8/