Ramon Prats, 23 de Setembro de 2015

Além do 2+2=4

texto Pedro Tavares e Mafalda Costa

É um dos patronos da cena do jazz e da música improvisada de Barcelona e também um dos poucos músicos da Catalunha cujo nome atravessou fronteiras. Muito graças às suas colaborações com o pianista Agustí Fernández, o mais internacional dos improvisadores catalães. Com este mantém o Liquid Trio, que inclui o saxofonista Albert Cirera, presentemente a viver em Lisboa, e com Fernãndez também tem tocado com o renomado Mats Gustafsson.

Outro dos seus empreendimentos é o Duot, partilhado com Cirera, e projectos como o Ramon Prats Quartet e um grupo mais virado para o “mainstream”, o Movin’Wes, inspirado em Wes Montgomery. Baterista habitualmente conotado com o free e a improvisação livre, o seu estilo deve, sobretudo, a ritmistas de outras tendências do jazz, como Paul Motian, Kenny Clark, Marcus Gilmore ou Dan Weiss. Quisemos conhecê-lo melhor, até porque, no próximo mês de Novembro, vamos tê-lo entre nós, inserido nos Duot. Passará pela Sociedade Guilherme Cossoul, em Lisboa, a 5, pelo Salão Brazil, em Coimbra, a 6 e pelas Oficinas do Convento, em Montemor-o-Novo, a 9. De regresso à capital, tocará no Hot Clube com Duot e Rodrigo Pinheiro a 10 de Novembro, depois no Creative Sources Fest a 28, com Abdul Moimême e Alvaro Rosso e, finalmente, inserido na VGO e no mesmo festival, a 29.

 

Fala-me um pouco da tua formação…

Comecei por estudar flauta transversal e clássica no Conservatório Isaac Albéniz, de Girona. Depois fui para o Taller de Músics, em Barcelona, e tive aulas particulares com um alemão que vive aqui. Fiz o grau superior da ESMUC - Escola Superior de Música de Barcelona. Basicamente, essa é a minha formação académica. Como professor já orientei alguns seminários, sobretudo em escolas de Verão na Galiza, na Andaluzia e em Tenerife, e dei aulas no Taller de Música de Banyoles, na província de Girona. Hoje em dia sou professor de bateria e de "percepção rítmica" no Conservatório Superior de Música de Barcelona.

 

A improvisação pode ser ensinada?

A improvisação livre, queres dizer? (Hesita) Creio que é imprescindível praticar a improvisação. Tocar, experimentar. Se tiveres alguém à tua volta que te possa ajudar ou com quem possas tocar, então isso é fundamental e dá sempre uma boa escola a qualquer músico. Ir a concertos também é importante. A nível do ensino académico, como se entende esse ensino tradicionalmente, creio que sim, a improvisação pode ser ensinada, mas depende da ambição de querer fazê-lo. Ou seja, é preciso ir além do 2+2= 4. Há algo mais e isso creio que se pode ensinar, sim.

 

Sentes-te bem a ensinar improvisação?

Sim, para mim é muito confortável. Creio que uma parte muito importante da improvisação é a ideia de que um músico não se deve fechar - pelo contrário, deve abrir-se em todos os sentidos. Ao nível da mente, do coração e dos ouvidos. Mas abrirmo-nos é muito difícil, embora quanto mais o fizermos, mais essa abertura nos irá atrair como estilo de vida. 

“Ao vivo” é sempre mais

 

Como é que a música surgiu na tua vida e mais concretamente o jazz?

A música surgiu primeiro através do meu irmão, que tocava num grupo de pop-rock. A partir daí quis estudar e aprender. Não fazia ideia do que era o jazz até ter a primeira aula de bateria, no Taller de Música de Banyoles, quando o professor me passou cassetes e me falou de jazz. Foi assim que descobri o jazz.

 

E quem são as tuas maiores referências no jazz, em geral, e na bateria, em particular?

Essa é uma pergunta difícil, porque são tantas… Don Cherry, sem dúvida. O solo que faz em "Tomorrow is the Question!" é um dos que me tocaram profundamente. Gosto muito. Na verdade, cada músico traz-me alguma coisa. Eu não compreendia nada das músicas que o meu professor me dava, mas quanto mais ouvia mais gostava do que ouvia. Em primeiro lugar da bateria, porque era o meu instrumento. Depois fascinou-me o piano - lembro-me que, na altura, ouvi um trio de Kenny Clark e quis saber mais, fui comprar discos dele. Depois começas a interessar-te pelos músicos que tocam com Kenny Clark e assim vais descobrindo os discos. Sempre me interessaram todos os bateristas e todos me influenciaram de alguma forma, desde Tony Williams a Elvin Jones, Papa Jo Jones… Paul Motian é dos meus favoritos. Quando fui a Nova Iorque pela primeira vez, fui porque era a única maneira de o conhecer.

 

Chegaste a falar com ele?

Sim, mas sempre em situações em que só pudemos trocar duas palavras, por assim dizer. Mas a energia das pessoas fica connosco. Como quando fui ver Elvin Jones. Um dia destes pensei que ambos já morreram, mas tive a oportunidade de os ver… porque a memória que temos dos discos não é a mesma que guardamos dos concertos. O "ao vivo" traz sempre mais e esse contacto é muito importante, na minha opinião. Entre os contemporâneos, creio que os que mais me influenciam são Marcus Gilmore, Tyshawn Sorey e Dan Weiss. São aqueles que mais sigo com atenção.

 

Um dos teus vários discos recentes é "Breakin the Lab!" (Discordian Records), com Agustí Fernández e Mats Gustafsson. Como é que se desenvolveu este trabalho?

O Agustí teve uma residência de um mês no Jamboree Jazz Club, de Barcelona, e um dos concertos era com o Mats. Perguntou-me se queria tocar e eu disse logo que sim. Não conhecia o Mats pessoalmente, mas durante o concerto percebi que eles os dois se entendiam muito bem. O Mats é um grande músico, é impressionante. Depois do concerto fomos jantar e demo-nos muito bem. Foi tudo muito fácil, em todos os sentidos. Na relação pessoal como na musical. Há uma energia muito clara, no que ele quer, no que está a comunicar. Nunca há dúvidas. Mas, ao mesmo tempo, o Mats é muito receptivo e atento ao que se está a passar a cada momento. E a verdade é que é uma combinação muito difícil, ser capaz de comunicar claramente o que se quer e escutar com atenção o que se passa em volta. Ele consegue-o, sem criar dúvidas. Tem um som enorme, mas essas duas facetas foram as que mais me marcaram: a clareza e a concentração.

 

É difícil tocar com ele?

Para mim foi muito fácil. Tive a sensação de estar sempre ligado a ele durante o concerto. E com o Agustí. Às vezes temos de lutar um pouco para nos ligarmos e nesse dia foi tudo muito fluído. Talvez pelo facto de termos jantado, de termos estado juntos e de nos termos conhecido… Tornou tudo muito fácil. 

Existe uma comunidade

 

Com Agustí Fernández gravaste também um outro disco, "Primer Dia I Última Nit" (Sirulita Records), com o seu Liquid Trio, incluindo o saxofonista Albert Cirera…

Bem, o Albert e eu temos o Duot e já tocamos juntos há muito tempo. Durante três anos tocámos uma vez por semana no clube Robadors 23, em Barcelona. Uma vez por mês tínhamos um convidado e na primeira temporada tivemos o Agustí. Depois dessa experiência continuámos a tocar juntos em casa, a fazer sessões em estúdio e foi assim que surgiu o disco. Creio que o Agustí queria transmitir a sua experiência, os seus conhecimentos, e a proposta foi a de gravarmos um disco.

 

Numa entrevista que já publicámos, Agustí Fernández disse-nos que quer tocar com pessoas que levem a música a sério. Achas que o facto de se propor tocar com músicos menos conhecidos é uma reacção aos grandes circuitos de nomes famosos?

Creio que sim, sem dúvida. Penso que o Agustí começou sozinho, aqui em Barcelona, numa altura em que havia pouco mais de meia-dúzia de músicos de jazz. Ele teve de procurar parceiros no estrangeiro. E agora que existe finalmente uma comunidade, locais de concertos, músicos, é uma grande satisfação para ele, certamente, poder tocar com músicos locais e contribuir com a sua experiência.

 

Que comunidade é essa que existe agora?

É uma comunidade que tem uma editora como a Discordian Records, por exemplo. Que organiza concertos no Soul Kitchen e no Robadors 23. Agora há muitos músicos a tocar em Barcelona. Há 10 anos este movimento não existia. Creio que é consequência da luta de pessoas mais velhas, pessoas como Agustí Fernández.

 

Como é trabalhar com Agustí? Quem é ele?

Creio que falo por mim e pelo Albert, que gravámos com o Agustí no Liquid Trio. O que posso dizer é que nos sentimos realmente como um trio, que ele se abre totalmente a cada um de nós, de forma sincera. Ao mesmo tempo ajuda-nos a crescer, mas não de uma maneira paternalista. Quando ele toca faz-nos dar o melhor de nós. É através da música que nos ajuda a crescer, não através da atitude. É humilde, coloca-se ao nível dos outros músicos - não, como podia fazer sendo a figura que é, mundialmente conhecido, num patamar superior. Não é uma estrela.

 

Dedicas-te a vários projectos, que não são conhecidos em Portugal. Que podes dizer sobre o Solot, por exemplo?

O Solot é um projecto de bateria a solo, com o qual toco a partir da primeira ideia que me ocorre. O objectivo do Solot é desenvolver essa ideia, conduzi-la, observá-la minuciosamente de diferentes ângulos e tentar perceber como é que essa ideia se transforma ao longo do solo. É um formato longo, ou seja, não há canções nem solos curtos, é uma longa exploração. Mas nunca gravei o Solot. Isto é, fiz uma gravação para mim mas para poder analisar a música e ver o que posso melhorar. Não quero que as pessoas tenham acesso a essa gravação porque o que me interessa trabalhar no Solot é a memória que fica do concerto. Um concerto é diferente de um disco. Com o passar do tempo a memória do concerto vai-se transformando, tal como a música a que assistes ao vivo…

 

É, portanto, a ideia da improvisação como um momento irrepetível…

Exactamente. É um momento único, a uma determinada hora e num certo local, mas também um momento único na vida daquela pessoa. Cada pessoa tem uma percepção sua do que se tocou ali. Todos nós temos filtros e no momento em que eu toco, se houver 30 pessoas na sala, haverá 30 Solots diferentes, porque cada pessoa ouve à sua maneira. E com o tempo, da mesma forma, cada um transforma esse Solot à sua maneira… Uns lembram-se de uma ideia, outros de uma frase, outros ainda não se lembram de nada… Isso tudo é o Solot. 

Explorar a improvisação

 

O Duot é um duo teu com o saxofonista Albert Cirera, que está a viver em Lisboa…

Foi o meu primeiro grupo de improvisação e com ele aprendi um pouco do que é a improvisação. Conheci o Albert, percebemos que gostávamos do mesmo e procurávamos ideias musicais semelhantes, e não havia ninguém com quem pudéssemos tocar. Então decidimos tocar juntos. Dentro dos conceitos académicos pode dizer-se que é um projecto dedicado à improvisação livre. Era o que procurávamos, nessa altura. E não havia ninguém a tocar assim à nossa volta. O Agustí ouviu-nos, incentivou-nos e acabámos por tocar imensas horas… A compor temas, a explorar a improvisação livre. Tocámos um pouco de tudo para encontrarmos o nosso modo de estar na música. E aí fizemos o nosso primeiro disco. Entretanto, já gravámos o segundo álbum, editado no início de 2015, e passaram aqueles três anos de que te falei há pouco, com as sessões regulares no Trobadors 23. Em Novembro vamos tocar a Lisboa.

 

E o Ramon Prats Quartet, como é que surgiu?

O quarteto surgiu no Verão de 2013 mas não é um grupo de improvisação livre. Na verdade é difícil definir a música que fazemos… Para mim, o importante na dinâmica deste quarteto é o silêncio, tanto como o som que tem. O timbre, a energia, a capacidade melódica que tem, tudo isso é importante neste grupo. É um jogo tímbrico entre o violoncelo (Sandrine Robiliard), o trompete (Julián Sánchez), o contrabaixo (Martín Leiton) e a bateria. Gostei do som dos instrumentos e tentei compor temas para o quarteto com base no timbre de cada um, sem dar mais preponderância a um ou a outro.

 

E o Movin'Wes, que música faz?

O Movin' Wes é um trio de jazz mais “mainstream”, por assim dizer, com órgão, guitarra e bateria. Tocamos regularmente e estivemos uma temporada a tocar o "Takin' Off" de Herbie Hancock, que depois gravámos em disco. Não é um álbum que ambicione conseguir digressões ou algo assim. É um grupo regular, tocamos todas as semanas. É como um divertimento, para mim, mas também me agrada ter um pé no jazz mais clássico. É um tributo a Wes Montgomery, que tocámos, para além de John Scofield e de temas originais nossos. Funciona um pouco como uma escola, para nós. Em cada temporada tocamos algo de diferente e tentamos aprender com os discos dos grandes músicos.

 

Ainda tens o Sindicato Ornette…

(Risos) Sim, o Sindicato Ornette também já existe há algum tempo. É um quarteto, com Paco Weth no contrabaixo, Julián Sánchez no trompete e Ernesto Aurignac no saxofone alto. É um grupo que se junta para fazer digressões. Concentramos todos os concertos numa semana e de cada vez que nos encontramos tentamos ter um objectivo definido. Pensamos num conceito e tocamos.

 

Como é que caracterizas a cena jazz de Barcelona?

Em geral? Creio que há uma grande qualidade musical, muitos músicos que levam a coisa a sério, que lutam e fazem coisas muito interessantes, surpreendentes mesmo. Nesse sentido está muito bem. Mas, não sei porquê, parece-me que falta o público. Não sei qual é o problema, se é da falta de comunicação ou da cultura do país… O certo é que faltam pessoas a assistir. Talvez seja uma questão financeira.

 

Mas havia público, antes?

Não, a questão é que, da mesma maneira que cresceram os músicos e a qualidade musical, editoras e tudo, a nível da recepção esperar-se-ia mais. Ou melhor, sim, há mais público, mas não na mesma proporção em que aumentou a qualidade e a quantidade de músicos. Não sei, não tenho uma resposta. Penso que é assim em todas as áreas. Na improvisação passa-se o mesmo e é até mais acentuado, porque é uma música que tem menos público. Mas é preciso ser um pouco optimista e a solução, por exemplo, do Robadors 23, com concertos regulares, traz mais público. Aumentou pouco, mas aumentou. Se se optar por uma solução dessas, creio que o público irá crescer cada vez mais. Espero.

 

Qual é, para ti, a importância de uma editora como a catalã Discordian Records?

É muito importante. Um dia destes, a falar com El Pricto, fundador da Discordian, dizíamos que há mais gente a ouvir discos no “site” desde que foi lançado o disco "Breakin the Lab!" de Mats Gustafsson, em 2013… É preciso agradecer a pessoas como o Mats e o Agustí, porque a partir desse disco as pessoas têm ido à procura de outros na editora… Creio que, da mesma maneira que as sessões semanais do Duot trouxeram mais público a esta música, também o trabalho da Discordian contribui para isso. Oxalá continuem assim, porque é incrível o nível dos discos que têm lançado em tão pouco tempo de existência.

 

Para saber mais

http://www.ramonprats.cat/