Mats Gustafsson, 21 de Julho de 2015

Mystery man

texto Rui Eduardo Paes

Músico-mistério? Sim, porque Mats Gustafsson acredita que a música, aquela a que se dedica de corpo e alma, é uma arte misteriosa. Vamos vê-lo e ouvi-lo no Jazz em Agosto com a Fire! Orchestra (31 de Julho) e com os Swedish Azz (2 de Agosto), no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian. Bons motivos para conversar com ele sobre o que vai acontecer…

 

Em termos de materiais, de resultados, o que muda do Fire! Trio, que já tocou numa edição passada do Jazz em Agosto, para a Fire! Orchestra? Claro que nesta última há uma maior massa sonora, mas o trio já é especialmente denso. O que me conduz a uma questão complementar: o que permanece igual?

O que muda são as linguagens pessoais dos músicos que se juntam ao trio na versão orquestral. A música muda porque acedemos a múltiplos instrumentos e cores. A variedade é imensa. É completamente diferente trabalhar com as possibilidades permitidas por um conceito de grande orquestra, mas o trio continua a ser o núcleo. Será sempre assim e nada mudará isso. É, de qualquer modo, um desafio incrível tocar com a orquestra, lidar com as fricções e as energias da música, com as plataformas comuns. A química deste grupo é fantástica! Não há nada igual.

Fora isso, a fórmula é a mesma para ambas as formações. Baseia-se ela numa diversidade de “riffs” e “grooves”, com secções livres e de ruído puro, de beleza. Com a orquestra apenas há mais pessoas a fazê-lo ao mesmo tempo. Para controlar um bocadinho a besta precisamos de ferramentas um tudo-nada diferentes, como partituras gráficas, peças com instruções e conduções instantâneas. Só assim podemos mergulhar fundo no mistério.

 

Tal como o trio, a Fire! Orchestra lida muito com repetições de motivos. Há a ideia de que a música não existe sem repetição, mas como sabes repetir é um tabu na livre-improvisação, uma área que frequentas. Sei que achas essa regra uma cretinice…

(risos) Disseste tudo, Rui! As regras são sempre estúpidas. Existem para ser contrariadas ou transformadas. E sim, na cena da improvisação e do free jazz há muitas regras. É uma contradição: música livre com regras. No nosso caso, marimbamo-nos para as regras e procuramos o que nos dá mais fricção e energia. É a partir daí que partimos. Vamos o mais fundo que pudermos e desenvolvemos o que houver a desenvolver, seja com o trio ou com a orquestra.

As regras fizeram-se para serem destruídas. A atitude geral dos dois grupos é quebrar quaisquer regras idiotas que estejam estabelecidas, sempre que quisermos. Fazêmo-lo simplesmente. Tem tudo a ver com a ideia de “fazer”, com o DIY (“do it yourself”). Qualquer utensílio que nos permita fazer música criativa ou interessante vale a pena, seja repetir ou evitar a repetição. Temos de tomar essa decisão quando o momento nos malha.

 

Ainda quanto à questão dos “riffs” – logo desde o arranque dos The Thing, tens abordado o free rock como abordas o free jazz. Isso é porque há uma semelhança de atitude nas duas tendências ou é outro a explicação? 

Procuro desafios. E quando os encontro, exploro-os. Ainda assim, com The Thing depressa largamos os “riffs” e improvisamos outras coisas. Não escolhemos conscientemente onde olhar e que género musical apropriar. Acontece por acaso, seja por influência de alguém que ouvimos ou não. Roubamos e destruímos música dos mais diversos idiomas e estilos, o que é uma forma agradável de socializarmos e de criarmos música, no palco e fora dele. Se The Thing decide atacar a música de Duke Ellington, vamos a isso, e se for algo dos Loop também é o que acontece. Está tudo à mão de semear.

Muita da música que existe pode tornar-se música dos The Thing. Podemos fazer tudo, é apenas um empréstimo. O que resulta é sempre The Thing. Se deixarmos de ser curiosos relativamente à música, e à arte em geral, é melhor ficarmos em casa. A vida tornar-se-ia demasiado aborrecida. Somos pessoas curiosas e há muita música nova com que podemos fazer amor. Em qualquer lado onde coloquemos as nossas mentes e os nossos rabos. 

Caos estruturado

 

Há uma componente de canção na Fire! Orchestra, tal como havia com a Sun Ra Arkestra e em poucos mais exemplos deste tipo. Regra geral, quando há uma “big band” de jazz o foco vai para os instrumentos. Na versão que vem ao Jazz em Agosto, a orquestra tem duas cantoras. Porquê essa opção?

Sim, Sofia Jernberg e Mariam Wallentin vão estar em Lisboa. Elas são fabulosas. Movem-se livremente na orquestra. Têm muitas oportunidades para improvisar dentro de uma peça e até para se atirarem a situações mais abstractas. São sempre um exemplo do que está em causa: liberdade controlada, caos estruturado, chama-lhe o que entenderes. Seja como for, a nossa música tem um formato de canção. A abordagem é mais rock do que jazz. Mas afinal… o que é uma “jazz band”? Algo que tem um cheiro esquisito, como dizia o Zappa? Algo que se possa comer?

Estamos a usar novos textos, uns escritos por mim e outros pelo já desaparecido poeta sueco Erik Lindegren. Esses textos são tratados pela Sofia e pela Mariam, que os transformam em refrões, coros, canções. Tudo é possível, mesmo usando a forma da canção. Foi assim, de resto, que nasceu a nossa nova peça, “Ritual”, que vamos tocar na Gulbenkian.

 

Na Fire! Orchestra funcionas sobretudo como condutor. Que técnicas de condução utilizas – as tuas próprias, as definidas por figuras como Butch Morris ou John Zorn?

Em “Ritual”, a tal nova composição para esta versão da orquestra, toco imenso o meu saxofone barítono. Ultimamente tem havido cada vez menos conduções. Ou melhor: o seu grau de utilização varia de concerto para concerto. Há muitos aspectos nesta peça que não estão pré-decididos. Defini as minhas próprias técnicas de condução, tal como o fizeram Butch e Zorn, mas baseiam-se todos nos mesmos princípios. São como que dialectos umas das outras. Tal como com a minha linguagem pessoal no instrumento que toco, tento desenvolver um sistema de condução que seja meu. É um processo em construção, tal como a vida. Uma pesquisa sem fim…

 

Disseste-me há pouco que a orquestra utiliza partituras gráficas. Isso é surpreendente, dados os padrões rítmicos muito concretos…

E porque não (risos)? Bom, usamos aquilo que precisamos, para controlar os fluxos e para inocular mais mistério na mistura. Tudo o que for útil e que funcione em benefício da música deve ser usado. Não há “riffs” apenas, pelo que outras técnicas têm de ser aplicadas. Além de que as partituras gráficas têm melhor aparência do que as escritas com notação convencional – podem ser emolduradas e penduradas na parede (risos)… Em “Ritual” não haverá grafismos, no entanto – a peça baseia-se em instruções escritas, formas e condução.

 

A Fire! Orchestra integra elementos e instrumentistas de muitos diferentes tipos de música para além do jazz e do rock. Sentes que ainda estás a lidar com as coordenadas do jazz de fusão dos anos 1970 e da música de colagem dos 90 ou o facto explica-se pela presente era meta-modernista, em que tudo está ao alcance e já não existem géneros musicais exclusivistas?

Bolas, etiquetas não. Isso é algo que tentamos evitar. Procuramos não rotular a nossa música ou os músicos, de maneira a que o ouvinte possa aderir à música com abertura e liberdade. Isso é muitíssimo importante. Decididamente, não tencionamos fazer nada que tenha a ver com o que chamam de “fusão” (risos). Estamos no ano 2015 e devemos recorrer ao que está à nossa volta. Devemos explorar tudo. Fazer música com a experiência do passado, mas colocar isso num “mix” contemporâneo. O termo “fusão” é terrível. Dá-me vontade de vomitar…

Trabalhamos com músicos muito específicos e o que eles têm de comum é uma linguagem bastante pessoal, com todos os 19 tendo preferências e gostos distintos. É aí que está a beleza da coisa e isso reflecte-se nos resultados. Os 19 músicos foram escolhidos muito cuidadosamente. Estes 19 soam apenas como estes 19. 

Projecto impossível

 

O que significa ter uma orquestra com estas dimensões num período em que as circunstâncias económicas determinam a morte do conceito “big band”? É uma resistência ao miserabilismo instalado das políticas culturais?

Agora somos 19; já fomos 30. Somos 19 por razões musicais e económicas. Mas fomos nós, NÓS, que escolhemos os 19, não “eles”. Sim, o que estamos a fazer é algo de impossível. É um pesadelo logístico. E financeiro. Mas adoramos, porque se trata de correr riscos, porque é um desafio. Fricção e mistério são factores importantes na música e na vida e fazemos isto porque TEMOS de fazer isto. Não há outro modo. Os media falam sempre sobre a morte do jazz, a morte das “big bands”, a morte disto e daquilo. Estamo-nos nas tintas.

É fundamental que nestes tempos de controlo mediático extremo e de estupidez económica se realizem projectos “impossíveis” e que não deviam existir. É da maneira que mostramos o que se pode fazer quando realmente acreditamos. Trata-se de uma questão de convicções e de confiança. É preciso partilhar. Partilhar o mistério e partilhar a música.

 

Vais igualmente trazer a Lisboa o grupo Swedish Azz, que tem como propósito reviver a história do jazz sueco. Sei que tens um grande respeito pela história, contradizendo todos aqueles que pensam que um “vanguardista” é alguém que desdenha a tradição…

(sorriso) A história é tudo. Necessitamos da história para entender, é tão simples quanto isso. Aprendemos com a história. Aprendemos com os erros do passado e errando de novo. Os Swedish Azz não pretendem propriamente “reviver” a história. O que fazemos é tentar refazer certos temas e tradições que existiam durante a chamada “idade de ouro” do jazz sueco, nos anos 1950 e 60. Os temas são decompostos, desconstruídos e destruídos, sempre com muito respeito e amor. Estamos numa cruzada. Queremos espalhar o conhecimento da história do jazz na Suécia. É um legado que admiramos. Às vezes usamos apenas alguns elementos de um tema, ou certos parâmetros, mas o coração desse tema está lá, de uma maneira ou de outra. A história é necessária. Como haveríamos de aprender, se não fosse assim? E precisamos de mistério. Sem este, porque haveríamos sequer de continuar?

 

Tenho reparado que estás a fazer muitos concertos a solo. Combinar um grande ensemble com situações solitárias é como ir de um extremo ao outro?

Só assim se torna desafiante. Só assim disponho de várias plataformas para a improvisação. É preciso saber onde estão as fronteiras, para tentar transpô-las e destruí-las, de modo a encontrar algo que seja novo. O solo é muito exigente, pois não estou a interagir com alguém. É completamente diferente e de certa forma exige de mim um maior nível de composição. Eu preciso de ambas, improvisação e composição. Alimentam-se uma da outra.

 

Tiveste no início de Julho uma “première” no Festival de Ljubljana: tocaste em duo com o pianista Craig Taborn. Foi uma “one night stand” ou marcou o início de uma colaboração que terá novos episódios? Que tal correu?

One night stand (risos)? Foi um lindo primeiro encontro, uma óptima combinação. O Craig é um músico formidável e uma pessoa extraordinária. Adorei tocar com ele. É um dos grandes mestres e estou ansioso por repetir. Foi outro desafio, outra situação em que não se sabia o que podia acontecer. Foi como um pontapé no cu. Arranjem-me mais encontros e desafios como este para eu manter a minha sanidade!

 

O teu nome começou a crescer nos meios do jazz com a banda Gush. Depois de uns anos de quase desaparecimento, sei que há um disco novo. Estão de regresso?

Sim, o novo disco, “The March”, saiu há um mês. Celebrámos 25 anos de existência há um par de anos, com uma digressão europeia para assinalar a efeméride. Recentemente, gravámos um novo álbum num estúdio de Malmo. Adoro este grupo. Foi um dos meus dois primeiros (o outro era o AALY Trio) e muito significam o Sten Sandell e o Raymond Strid para mim, do ponto de vista musical e como pessoas. São assombrosos tanto como músicos e como seres humanos. Aprendi muito com eles e devo-lhes imenso. Estão a trabalhar com o mistério da melhor maneira possível, expondo os essenciais. Gush é Gush.

 

Para saber mais

http://matsgus.com/

 

Discografia seleccionada

Mats Gustafsson: “Needs!” (Dancing Wayang, 2010)

Barry Guy New Orchestra (small formations): “Mad Dogs” (Not Two Records, 2010)

Mats Gustafsson: “Café Oto/London” (Sonore, 2011)

The Thing & Barry Guy: “Metal!” (NoBusiness, 2011)

Peter Brotzmann: “Long Story Short” (Trost, 2011)

Peter Brotzmann Chicago Tentet: “Concert for Fukushima: Wels 2011” (Trost, 2011)

Mats Gustafsson / John Russell / Raymond Strid: “Birds” (dEN Records, 2011)

Correction & Mats Gustafsson: “Shfit” (NoBusiness, 2012)

The Ex & Brass Unbound: “Enormous Door” (Ex, 2012)

Fire! Orchestra: “Exit!” (Rune Grammofon, 2012)

Barry Guy New orchestra (small formations): “Mad Dogs on the Loose” ( Not Two Records, 2012)

The Ex & Guests: “Live at Café Oto – And So Say All of Us” (Ex, 2012)

Barry Guy New Orchestra: “Amphi – Radio Rondo” (Intakt, 2013)

Fake the Facts: “Soundtrack” (Trost, 2013)

The Thing & Thurston Moore: “Live” (The Thing Records, 2013)

The Thing: “Boot” (The Thing Records, 2013)

Fire! Orchestra: “Enter” (Rune Grammofon, 2014)

Gush: “The March” (Konvoj Records, 2015)