Joana Sá, 18 de Outubro de 2013

Por vezes, acha-se o mar

texto Nuno Catarino fotografia Nuno Martins

“Elogio da Desordem”: assim se intitula o novo “opus” de uma jovem pianista vinda da música erudita contemporânea que abraçou a técnica e a estética da improvisação e muito tem dado que falar nestes últimos anos. Com esta nova e graficamente belíssima edição da Shhpuma mais motivos se adicionam para que o nome de Joana Sá se consagre definitivamente como um emblema de criatividade e engenho. A jazz.pt falou com ela…

 

Antes de mais, porquê o piano? Como nasceu e como foi evoluindo essa ligação com o instrumento? A tua formação passou por Lisboa, Paris, Castelo Branco e Colónia. O que terá sido mais importante nela?

Não há nenhuma explicação poética para a nascença desta ligação: tinha um piano muito antigo em casa de uma bisavó. Comecei a estudar com cerca de 10 anos com uma outra bisavó que tinha feito o Conservatório com Viana da Motta. Entretanto, estudei em vários sítios e aprendi com muitos mestres, dos quais destaco os pianistas brasileiros Paulo Álvares e Caio Pagano. Para além de me terem ensinado muito, deram-me a oportunidade de procurar o meu caminho na música e de descobrir uma linguagem pessoal no nicho onde me sentia melhor, o da música contemporânea.

 

Tens uma ligação à Shhpuma, subsidiária da Clean Feed. Como aconteceu isso?

Conheci a tropa amiga da Trem Azul faz agora uns anitos... Quando saiu o meu trabalho “Through This Looking Glass” eles ajudaram-me e apoiaram a minha “causa” de várias formas e fiquei com vontade de fazer coisas com eles. Entretanto, surgiu a Shhpuma, editora onde a minha música poderia encaixar. Avancei para a edição, primeiro com a estreia em disco do duo “Almost a Song”, com Luís José Martins, e agora com o novo solo, “Elogio da Desordem”.

 

Como ouvinte, qual a tua relação com o jazz e a música improvisada?

Tenho uma relação com a música que considero ser bastante ecléctica. Mais do que uma relação com géneros musicais, há uma relação com autores e intérpretes de vários géneros ou linguagens. São relações de empatia musical, de perceber que há urgência e pertinência num discurso musical e de que algo de valioso pode ser “dito” por um autor, intérprete, improvisador...

 

Qual o papel da improvisação na tua música?

A improvisação tem um papel muito importante na minha música, tanto na procura de materiais musicais para as peças, como nas estruturas finais. Estas estruturas são normalmente formas abertas, com materiais específicos, regras de relacionamento entre eles e um espaço que só é preenchido na altura da performance – este espaço, mais ou menos restrito, consoante os casos, é delegado à improvisação. 

 

Com a edição de “Through This Looking Glass” a tua música chegou a mais gente. Foi um passo importante, este disco?

Foi um passo muito, muito importante. Algo difícil, porque os meus projectos a solo acabam em megaproduções (risos), e tal aconteceu neste caso com um filme de Daniel Costa Neves, mas foi absolutamente necessário para a definição da direcção musical e artística que queria seguir. E sim, consegui partilhar este trabalho com mais pessoas, o que acaba por dar muito mais sentido a todo o trabalho que se faz... 

Monólogo interior

 

O que representou para ti a edição de “Almost a Song”, a tua primeira gravação editada na Shhpuma?

É um disco de que gosto muito, um disco de afinidades musicais, de generosidade e de poesia. Gosto muito de tocar com o Luís. Tocamos juntos há cerca de 12 anos e este é o primeiro registo em CD com música original nossa. Espero que reflicta aquilo que procuramos: surpreender-nos de cada vez que nos propomos criar qualquer coisa.

 

Que novidades traz este novo disco, “Elogio da Desordem”? Que ideias pretendes transmitir?

O “Elogio da Desordem” traz uma abordagem musical diferente, novos desafios e novas experiências. É concebido como um monólogo interior para piano semi-preparado, instalação de campainhas e sirenes, voz, “toy piano”, caixas de ruído, etc., etc. É pensado como uma representação pessoal de um discurso interior no qual a palavra surge, em segundo plano, como resultado de processos interiores vários que surgem aqui representados pela música.

A propósito da palavra, surgem no disco excertos de textos de Gonçalo M. Tavares, escritor e pensador que tanto admiro. E a palavra surge ocasionalmente na voz que roubei (risos) à actriz Rosinda Costa, palavra e voz estas tratadas plasticamente na procura de limites entre som e percepção de significado.

Com as ideias que tinha para este disco, achei que fazia sentido fazer um objecto diferente. Uma amiga pianista, Joana Gama, tinha-me falado já diversas vezes de uma associação que fazia tipografia à antiga. Nesta altura lembrei-me da tal associação – O Homem do Saco – e fui falar com os seus responsáveis. Luís Henriques e Mariana Pinto dos Santos ficaram muito entusiasmados com o projecto e juntaram-se à minha loucura... Fizeram um disco-livro lindo em tipografia manual (grande parte), capa com um papel lindíssimo e caracteres em relevo, cozido à mão. Ficou muito, muito bonito...

 

Participas nos grupos Powertrio (com Eduardo Raon e Luís José Martins) e Máquina Lírica (com Marco Franco). O teu trabalho musical nestes contextos difere da tua produção a solo?

Quando feito por pessoas que se compreendem musicalmente, o trabalho em conjunto é uma felicidade e uma sorte. A cumplicidade musical alivia qualquer dificuldade. A solo sou mais complicada comigo mesma. Porém, quando se insiste e se prossegue, por vezes, como dizia o poeta Ramos Rosa, acha-se o mar.

 

Além destes, em que outros projectos estás envolvida?

Não sou uma rapariga de muitos projectos em simultâneo. Os que tenho, gosto de os trabalhar intensamente! E, para além dos meus, tenho tido várias participações em projectos muito diferentes, musicais e de outras áreas artísticas... São situações pontuais que me dão também muito gozo e com as quais se aprende muito. Os meus solos fazem parte de um projecto maior – um doutoramento em música, variante Performance, que estou a fazer na Universidade de Aveiro, uma experiência que me está também a fazer crescer!

 

A tua música integrou o filme “Tabu” de Miguel Gomes, que acabou por ser um surpreendente fenómeno mundial. Como foi isso?

É uma ligação que vem de há muitos anos... Participei nas primeiras curtas-metragens do Miguel e temos mantido uma relação de amizade desde então.

 

Interessa-te fazer música para cinema? Será uma experiência a continuar?

A mim interessa-me pensar a música sempre com ligação a outras artes. É isso que faço nos meus trabalhos, especialmente a solo. No que diz respeito à relação com o cinema, noto que o meu primeiro trabalho a solo, “Through This Looking Glass”, é um filme. Por ter várias componentes cénicas e performativas que achava da maior importância para o entendimento da obra, decidi trabalhá-la com um realizador. E claro que as boas experiências são sempre para continuar!

 

Quais são os teus planos para o futuro?

Deitar abaixo o Governo!!!

 

Para saber mais

http://joana-sa.com/

 

Discografia

Joana Sá: “Elogio da Desordem” (Shhpuma, 2013)

Joana Sá / Luís José Martins: “Almost a Song” (Shhpuma, 2012)

Joana Sá: “Through This Looking Glass” (Blinker, 2010)

Powertrio: “What Do We Think When We Walk and What Do We Walk While Thinking” (Creative Sources, 2008)

Powertrio: “Four Improvisations” (CENTA, 2008)