Jazz em Agosto, 14 de Outubro de 2016

Jazz em Agosto

Jazz em Desgosto

texto Vítor Rua

Polémico como sempre, o membro dos extintos Telectu escreve nas linhas que se seguem sobre o festival da Fundação Gulbenkian e sobre o seu programador, Rui Neves. Esta é uma crónica de opinião e como tal não reflecte as posições da jazz.pt, sendo de exclusiva responsabilidade do seu autor.

O Villas-Boas dizia que «o jazz em Portugal é como as croissanterias», para referir que, se dantes quase não existia, a determinada altura, nos finais de 1980, começaram os festivais de jazz, disseminando-se como um vírus (a referência às croissanterias diz respeito ao seu surgimento em massa nesses mesmos anos 1980).

Nunca se falou tanto de jazz como na actualidade e do Jazz em Agosto em particular.  Embora eu não seja “habitué” deste evento (fui e vou somente para assistir a concertos muito especiais: Sun Ra, Cecil Taylor, Paul Motian ou Paul Bley, eu sabia antes de toda a gente quem ia participar na próxima edição, porque Rui Neves passava o tempo na casa de Jorge Lima Barreto - estúdio dos Telectu -, onde eu residia, e via-os aos dois a falarem dos músicos que ali iriam tocar cada ano. O Jorge dava a ouvir ao Neves coisas novas e extraordinárias e era dessas audições e conversas que o Jorge lhe dizia quem deveria vir ao próximo JeA.

Era depois ainda o Jorge quem escrevia os textos sobre os músicos que lá iam tocar, ou pequenas sinopses para o programa do festival. Ao Neves cabia depois a tarefa de contactar e estruturar o evento (embora muitas das vezes o Jorge dava já o evento todo estruturado, com a ordem, os dias e as horas em que os músicos deveriam tocar). Assim, tive a sorte de ter conhecido e de ter estado com muitos destes geniais músicos estrangeiros, no nosso estúdio, onde com eles ouvíamos música, conversávamos, comíamos, víamos vídeos ou simplesmente brincávamos com os nossos gatos siameses.

Sobre o assunto que é o motivo deste meu texto pretendo apenas que este traga uma nova luz sobre esta matéria, sobre a qual muito foi dito e escrito, mas que, quanto a mim, não se tratou ainda do principal: o que é, ou o que deve ser um festival de jazz internacional, como este do JeA? Ora, este festival teve desde o início uma ambição: trazer a Portugal nomes cimeiros do jazz internacional e, de preferência, que não coincidissem com os nomes “mainstream” que iam surgindo pelos diversos e cada vez mais variegados festivais de jazz que iam surgindo pelo mundo fora, e ainda menos no panorama português.

Permitam-me aqui um parêntesis para dizer que sempre senti que a Gulbenkian deveria ter, já há anos, um idêntico festival a este, só que dedicado ao rock, um Rock em Julho ou algo semelhante, que nos tivesse trazido os maiores nomes do rock internacional: Frank Zappa, King Crimson,  Capitain Beefheart ou Scott Walker. Dir-se-á que o rock não necessita de mais festivais, pois já existem suficientes por esse País fora. Ora, a pensarmos assim, também o que não faltam mais “por esse País fora” são festivais de jazz e, no entanto, existe este JeA, certo? O que teria era de ser diferente dos outros, trazendo - tal como inicialmente o JeA - bandas que de outra forma não se poderiam escutar em Portugal. Num festival destes, eu não queria assistir a nenhum concerto de Madonna, Metallica ou dos Radiohead e muito menos dos Xutos, UHF, GNR ou Delfins! Sou ateu, mas por amor de Deus, mais disso não! Já nos bastam os festivais de cervejas e telecomunicações que por aí proliferam como as tais croissanterias de que falava o Villas-Boas.

Dignidade e respeito

Rui Neves 

Mas voltando ao assunto deste meu texto e à questão “polémica” de saber se os músicos de jazz portugueses deveriam ou não estar presentes neste festival com mais frequência e regularidade? Em primeiro lugar, e antes de analisarmos a dita “frequência” ou “direito” a participar neste festival, deveríamos talvez falar da “dignidade” e do “respeito” com que é tratada a maioria dos músicos portugueses que nesse festival colaboram. Com a excepção de raros nomes do jazz português (Carlos Barretto, António Pinho Vargas, Maria João, Mário Laginha e poucos outros), os músicos portugueses tocaram e participaram nesse festival em espaços como o Teatro do Bairro, Hot Clube ou ZDB e nunca no auditório ao ar livre (e não “de ar livre” como se pode ler na tabuleta), excepção feita desde há dois anos, onde após uma polémica entrevista do programador Rui Neves - em que dizia muito mal dos músicos portugueses, alegando que estes não tinham “cabimento” e “qualidade” num festival desta dimensão -, deve ter levado “um puxão de orelhas” da Direcção da Gulbenkian, e foi “obrigado” a passar a pôr músicos portugueses no palco principal.

De referir também que para este facto deve ter contribuído um ensaio de Rui Eduardo Paes sobre esta matéria, e posteriormente um artigo assinado por Gonçalo Falcão, em que ambos tinham como enfoque a dita “polémica” e “infeliz” entrevista do dito programador do Festival do JeA. Mas isso não fez com que não continuasse a pagar “cachets” principescos aos músicos estrangeiros que cá vêm tocar, e a recebê-los com altíssimo luxo, ficando em suítes de luxuosos hotéis e com direito a “motorista” (alguns deles, como Joe Morris, dizem até que nunca receberam tanto dinheiro na vida por um concerto, e tantos outros que são já “habitués” deste festival, como John Zorn ou Evan Parker - que mais parece um músico residente do festival -, estão sempre dispostos a regressarem, tal é o tratamento VIP e o dinheiro que recebem), e, por outro lado, continuar a pagar “fees” quase vergonhosos de tão baixos, aos músicos portugueses que lá vão, como se fosse “um favor” o facto de ele - Rui Neves - lhes “dar a oportunidade” de irem tocar ao JeA.

E isso é muito estranho, pois lembro-me das conversas acaloradas entre o Jorge, eu próprio e Rui Neves sobre a injustiça com que a Gulbenkian tratava, por exemplo, Jorge Peixinho nos Encontros de Música Contemporânea, em que o punha sempre a tocar fora da Gulbenkian - do Grande Auditório -, numa tenda de um qualquer “teatro próximo de si”. As frases ouvidas e proferidas sobre essa matéria nessas alturas eram: «Põem estrangeiros que não têm a qualidade do Peixinho no auditório principal e depois metem o Peixinho a tocar numa tenda.» Não pretendo – que fique bem claro! – desvalorizar os espaços referidos onde os músicos portugueses acabam por actuar. Só refiro o facto de eles não actuarem no auditório principal dedicado a esse festival! Mas é curioso que alguém, como o Neves, que sempre lutou contra essa injustiça (quanto ao assunto do Peixinho ou de outros músicos portugueses como Filipe Pires ou Cândido Lima nos ditos Encontros), se encontre agora a agir exactamente da forma como procediam aqueles que ele contestava. Terá mudado de opinião com o tempo? É um direito que se lhe assiste, mas que “empobrece” o seu carácter!

Um dos “problemas” que eu detecto nas respostas ou análises a essa entrevista ao Neves (as do REP e do GF), é o facto de os intervenientes citarem uma “lista” de supostos “nomes” que deveriam “por direito” entrar nesse festival (de salientar que essa lista foi adiantada pelo próprio Rui Neves, mas que se viu "perpetuada" nos respectivos ensaios, ainda que sob a forma de "citação"). Para mim, as “listas” trazem-me logo problemas de “digestão”, pois quase sempre, na sua tentativa de serem “abrangentes”, pecam por não servirem o “objectivo” pretendido.

Contra as listas

Evan Parker 

Por exemplo (e irei referir apenas este exemplo que considero paradigmático), onde é que o David Maranha foi alguma vez, ou é, músico de jazz, ou mesmo sequer um improvisador da improvisação total? Por isso sou contra este tipo de “listas”, que acabam por ter um efeito contrário ao pretendido! Numa “lista” deste tipo, teríamos também de pôr, então, os nomes de uma Maria João Pires ou de Sequeira Costa, pois são “reconhecidos internacionalmente”, têm “virtuosismo” e são “criativos”… Só não são é jazz!

Dito isto, em vez de listar aqui nomes ou “pretendentes ao trono”, prefiro ver a coisa por outro ângulo: «Será que Rui Neves só traz músicos de jazz a este festival?», e a resposta a esta questão é «não», ele traz músicos de outras áreas musicais, em especial da tipologia da dita “improvisação total”, mas também - a partir do momento em que Jorge Lima Barreto deixou de “contribuir” para a elaboração deste festival, em meados dos anos 2000 -, de um rock mais “alternativo”, do hip-hop ou seja lá o que for que lhe quisermos chamar. Outra questão a levantar então é: «e esses músicos de outras áreas musicais são representativos e significativos das mesmas, ou seja, são músicos com uma qualidade incontestável?». A resposta é que o são por vezes (raramente) e não o são noutras (e estes segundos constituem a grande maioria!).

Têm essa qualidade e são do jazz ou da improvisação total quando falamos de nomes como Sun Ra, Cecil Taylor, John Zorn ou Fred Frith. Não o são, quando se trata de “grupos-ou-músicos-que-nem-sei-dizer-o-nome-de-países-nórdicos-ou-outros-e-que-são-tão-fraquinhos-e-nada-têm-a-ver-com-jazz-ou-improvisada-que-nem-os-vou-comentar”! Assim, e uma vez que participam no festival músicos estrangeiros que nada têm a ver com o jazz ou com a improvisação total e que ainda por cima são de fraca qualidade, porque é que não podem participar músicos portugueses dessas mesmas áreas alheias ao jazz, mas que possuem qualidades para estarem presentes num evento assim delineado?

Será que o Toral é “inferior” a um DJ idiota nórdico que - para infelicidade minha -, ouvi tocar por uns instantes num desses JeA “pós-Barreto”, antes de me retirar do anfiteatro? Será Sei Miguel “inferior” a um grande número de “trompetistas-vulgares-e-que-só-sabem-imitar-nomes-do-passado-e-mal” que têm passado pelo JeA? Mas voltando ao assunto de “levar ou não levar músicos portugueses ao JeA”, gostava de reforçar a ideia de que sou contra qualquer tipo de coisa similar a “quotas”! Acredito que as pessoas devem estar nos lugares pela sua competência e não porque são homens ou mulheres, pretos ou amarelos, homossexuais ou lésbicas.

Dessa forma acredito que, se o JeA leva músicos de – e como diz o Neves – «elevada técnica e virtuosismo, de renome internacional, com um trabalho original e com imaginação», será muito fácil, na actualidade, a integração de músicos portugueses, sejam da área do jazz ou de outras tipologias musicais, pois de ano para ano surgem cada vez mais nomes com estas características e que são reconhecidos internacionalmente, que tocam, gravam e editam com as melhores figuras destas tipologias musicais e que participam em festivais de renome internacional.

Neste contexto actual, onde além de observarmos claramente que o JeA não é um festival “exclusivo” para músicos do jazz, e onde também parece não importar a “qualidade” desses tais “músicos-fora-do-jazz”, não vemos motivo absolutamente nenhum para a não inclusão, cada vez maior, de portugueses a participarem no dito festival. Mas, como digo, este argumento de se “ter de levar músicos portugueses ao JeA” é, para mim, um “falso argumento”. Deve-se levar ao JeA, músicos com qualidade, criatividade e originalidade, que tragam algo de novo, e que este festival não seja mais uma “réplica”, ou se limite a ser um “clone”, de festivais estrangeiros a que o Neves vai pago pela Gulbenkian anualmente para “consulta”, com os programadores desses festivais a “impingirem-lhe” (e por tabela a nós todos, portugueses ou não) os mesmos músicos e as mesmas ”formações”, que se podem ver/ouvir em dezenas de outros festivais por esse mundo fora, contrariando aquilo que o JeA foi quando era Jorge Lima Barreto a sugerir nomes e a criar, por vezes, formações inexistentes nessa época, juntando por vezes músicos que nunca teriam tocado juntos, como faz - na actualidade - o programador e editor da editora Clean Feed, Pedro Costa, que eu e muitas outras pessoas, incluindo músicos, programadores ou amadores do jazz, acham que deveria ser o novo programador do JeA, por estar mais actualizado e avalizado para o fazer com maior qualidade e originalidade do que o “ultrapassado” e “conservador” Neves.

Disse no início que o objectivo deste ensaio era dar a conhecer, para mim, o principal busílis da questão, e este é que o JeA deixou de ser o “festival de prestígio” que já foi - na tal era em que Jorge Lima Barreto teve uma preponderância que sempre foi “escondida” e “escamoteada” pelo Neves (que assim “subiu” e se “consagrou”, dentro da Instituição Gulbenkian, como o grande “mentor” de um festival em que ele inicialmente se limitava a ser um “produtor executivo”) -, para ser agora a tal “réplica” de centenas de festivais “mainstream” que existem por esse mundo fora, nos quais o Neves está presente, certamente a falar com os programadores desses mesmos festivais, a jantar opiparamente com os críticos internacionais, trazendo-os cá depois para ficarem a dormir em belíssimos hotéis, com os tais músicos a quem paga excelsos “cachets” (dizem-me certos organizadores de outros festivais de jazz que o Neves chega a oferecer o dobro do que os próprios músicos costumam pedir, inflacionando os preços para que os outros festivais que se realizam no nosso país se vejam quase impossibilitados de os contratarem).

Concluo este meu artigo dizendo que o Jazz em Agosto é, na actualidade, uma “sombra” daquilo que já foi, vivendo o Neves da glória de um passado que a ele não pertenceu, e seja agora apenas e somente um mero “jazz em Desgosto”!