Análise, 12 de Agosto de 2016

Análise

As nuvens sónicas de Sei Miguel

texto Vítor Rua

Um dos nossos maiores músicos, Vítor Rua, escreve sobre outro gigante da música que se faz em Portugal, Sei Miguel, salientando a sua importância no contexto da Música Improvisada Total e analisando os procedimentos que o compositor e trompetista vem aplicando na sua obra. Um texto histórico.

Se tivéssemos de explicar a um extraterrestre onde vivemos, teríamos de lhe dizer que, em determinada galáxia, vivemos num específico sistema solar. Esse Sistema Solar compreende o conjunto constituído pelo Sol e todos os corpos celestes  que estão sob seu domínio gravitacional.  Ora, se quisermos falar de uma determinada geração de improvisadores portugueses - uma geração posterior à de Carlos “Zíngaro”, Jorge Lima Barreto ou Carlos Bechegas -, podemos fazê-lo referindo-nos unicamente ao "Sol", omitindo falar de todos os "Planetas" e "Planetas  Anões" que orbitam à sua volta.

Assim, é-nos possível abordar o panorama da Improvisação Total em Portugal durante quase  30 anos, referindo unicamente o nome de um músico: Sei Miguel. Sei Miguel é um "Sol" em torno do qual giram resmas de "Planetas" e "Planetas Anões". São muitos os músicos que idolatram Sei Miguel, que adoram a sua obra, que estudam a sua música ou que tiveram o prazer de com ele conviver, tocar ou gravar.

Se tivesse de resumir numa palavra a obra musical do Sei Miguel escolheria o termo "rigor". "Rigor"  no  acto  de  compor;  "rigor"  nas  suas  criativas,  originais  e  imaginativas  notações musicais; rigor na escolha dos instrumentos das suas obras (timbre); "rigor" na escolha dos músicos que o acompanham; "rigor" nos ensaios com esses músicos; "rigor" nas gravações das suas obras; "rigor" na escolha da editora para os seus discos; "rigor" nas capas dos seus discos, e por aí fora. "Rigor" é o mínimo múltiplo comum, em Sei Miguel.

Mas... O que "é" Sei Miguel? Sei Miguel é um compositor! Todo e qualquer exercício de tentarmos meter a obra de Sei Miguel num "estilo" musical é uma tarefa condenada ao insucesso, e todo e qualquer exercício de tentarmos explicar como é  que  um  compositor  influencia  e  é um  ícone paradigmático de  uma  tipologia  musical  (a Improvisação Total), que “aparentemente” é antagónica à música escrita, só é explicável pelo facto de Sei Miguel “frequentar” (dando concertos), em festivais e locais, a maior parte deles, dedicados à improvisação. Mas a música de Sei Miguel podia, e devia, ser interpretada em espaços como a Gulbenkian (no  Jazz  em  Agosto,  por  exemplo,  onde  já  se  torna  quase  um  “crime”  a  sua  não  presença nestas três décadas de Festival) ou a Casa da Música, por exemplo.

Um tempo virtual

A música de Sei Miguel debruça-se sobre isoladas “experiências sónicas” – onde cada som é auto-suficiente e independente dos outros. Imaginem uma  música  que  não  tem  início – apenas  começa – e  não  tem fim – somente pára;  sem  clímax ou  qualquer  intenção  de  atingir  um  fim;  uma  música  que  não  crie expectativas, sem movimento ou direcção definidos; uma música onde os eventos musicais existem por eles mesmos em vez de participarem em qualquer progressão. O objectivo é o de, a um “módulo musical”, acrescentar um outro, depois outro e ainda outro e por aí contiguamente, sem qualquer relação aparente entre eles, excepto o puro encanto de construir um abstracto encadeamento sonoro.

Se os eventos musicais numa determinada peça de Sei Miguel se “colam” aos outros numa ordem em particular, então é porque essa ordem terá, obviamente, de influenciar ou mesmo constituir  o  sentido  da  própria  obra: abstrações  sónicas,  movendo-se,  criando  tempo –tornando audível e visível o tempo! O “tempo” na obra musical de Sei Miguel é um “tempo virtual”; por contraste, a sequência de actuais e concretos acontecimentos é um tempo  absoluto. Assim, o  “tempo”,  torna-se  no componente essencial para a compreensão da sua obra e o veículo pelo qual a sua música faz um contacto profundo com o espírito humano. Por conseguinte, os eventos musicais que formam as suas composições, tornam-se num fluxo e não no “tempo” e a composição transforma-se numa encadeada série de eventos que contêm em si não só o “tempo” como o “modelam” lentamente.

As composições de Sei Miguel devem ser entendidas como sucessões de “momentos” sem -aparentemente - direcção ou movimento definidos. Mas será realmente que podemos falar de “movimento” na música de Sei Miguel? Não será isso apenas uma metáfora? A única coisa que realmente se “move” é a vibração dos instrumentos e as moléculas de som que chegam até aos nossos ouvidos.

Escutar a música de Sei Miguel é como observarmos as nuvens no céu: viramos a cabeça para o céu, olhamos as nuvens e baixamos a cabeça e quando depois olhamos de novo, passados uns tempos, parece-nos tudo igual: as nuvens parecem não se ter movido. Mas a realidade  é  outra. Embora nos pareçam  iguais,  as  nuvens  são  diferentes. O mesmo se passa com a música de Sei Miguel: se ouvirmos "desatentamente" a sua música, parece-nos - muitas das vezes -, que os seus intérpretes se limitam a "repetir" as mesmas frases, eternamente, mas se escutarmos atentamente, observamos que, tal como as nuvens, as frases  musicais  são  "repetidas"  de  forma  "irregular"  e  "caótica",  com  "rugosidades"  e "assimetrias". 

Micro/macro

 

Nada é igual! Tudo é diferente! Para se analisar a obra de Sei Miguel temos de olhar o "micro" para podermos contemplar o "macro". Cada  obra  de  Sei  Miguel  é  meticulosamente  construída,  estruturada,  interpretada  e composta, fazendo parte de um "puzzle" que constitui o "todo" que é a sua Vida. Arte é Vida e Vida é Arte em Sei Miguel.

Se quisermos "escalpelizar" a sua obra e "resumi-la" em um parágrafo - tarefa impossível! -, diríamos que, sobre estruturas com pulsação rítmica assimétrica, Sei Miguel cria interjeições curtas com o seu trompete, alternadas com sons de maior duração, emitidos com variegadas intensidades e com um timbre que lhe é idiossincrático. Questionado sobre o facto de a sua música agradar apenas a um número muito reduzido de pessoas, o compositor Pierre Boulez respondeu: ~Eu não dirijo nenhum restaurante!»  A obra de Sei Miguel não pretende “agradar”! Pelo contrário, “incomoda” (não é “mainstream”)! Mas ao  mesmo  tempo é  lírica  e  bela  (o  excelente  uso  de  técnicas  como  a “klangfarbenmelodie” ou o “pontilhismo”, por exemplo).

As  composições  de  Sei  Miguel ora  estabelecem  uma  sinestesia  com os  intérpretes (sublinhando  ou  ampliando  a  peça  musical  escrita),  ora  se  antagonizam  com  a  acção interpretativa (distorcendo ou contrariando o que pareceria ser a forma “normal” de se tocarum instrumento). O  facto  de,  muitas  vezes, se  retirar a  obra  de  Sei  Miguel do  comportamento  ritualista  que caracteriza as salas de concerto leva a que o espectador altere a forma descontinua de ver essa mesma obra.

Numa era em que predomina a passividade, o receio de uma tomada de consciência e em que  o  simples  pensar  é  um  luxo, Sei  Miguel obriga-nos  a  uma  reflexão  obsessiva  sobre o mundo real, através de alusões metafóricas a situações de um mundo banalizado, monótono, iconoclasta, dromológico; um mundo de poderes, de guerras e ódios. Certa terminologia (paz, amor, amizade, alegria), é vista por toda uma série de pseudo-chiques intelectuais  como  “démodé”  e  banal,  habituados  a  todo  um  mundo  Prozac,  drogado  em pensamentos de auto-realização, interessados em que tudo faça sentido – o seu sentido – e habituados a verem os artistas num papel simultaneamente de salvadores e sacrificados.

Presente infinito

A obra de Sei Miguel não pretende “comunicar”! Mas é exactamente com isso que joga Sei Miguel: o sonho de extirpar do pensamento todo o sortilégio  e  de  eliminar  todo  o  principio  do  mal  é  tão  absurdo  como  o  de  eliminar  toda  a concupiscência… mesmo em sonho. Não existe uma moral ou uma lição a tirar na criação musical de Sei Miguel, mas se houvesse, creio que seria a de nos recordar que o nosso maior crime é a heresia das aparências e que toda a  veleidade – por  muito  racional  que  seja – de  a  tentar  eliminar  é  o  sintoma  de  um  erro fantástico da vontade – uma aberração do desejo.

Bertrand Russell diz-nos num dos seus mais conhecidos paradoxos que o mundo teria sido criado apenas  há  alguns  minutos,  mas  está dotado  de  uma  humanidade  que  se  lembra  de  um passado ilusório. É isto que sinto ao escutar Sei Miguel, uma sensação de presente infinito… A sua obra grita-nos para que vivamos a nossa vida e que não a vivamos sentados em frente  de um ecrã. Pede-nos para que pensemos e façamos a nossa revolução em tempo real. Obriga-nos a sentirmos o nosso corpo, o nosso sangue, as nossas vísceras, e a vivermos a nossas paixões amorosas em tempo real.

Ideias toda a gente tem, e por vezes mais do que é preciso. O que conta é a singularidade poética da escolha. Nunca haverá solução para a contradição das ideias se não for na energia e na felicidade da vida. Na criação musical de Sei Miguel não encontramos nem passado nem futuro – só presente.