Lisbon Freedom Unit, 9 de Novembro de 2015

Lisbon Freedom Unit

Elogio da loucura

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Um novo supergrupo que reúne a nata da música improvisada e do free jazz nacionais vem com “Praise of Our Folly” lembrar um dos factores definitórios da arte contemporânea: a mimetização da demência. Esteve no estúdio e fez dois concertos de apresentação. A ver, agora, o que se segue…

Há umas semanas, recebi a solicitação de elaborar um texto que definisse o conceito por detrás da formação de um novo grupo e do projecto que este pretendia estrear nos palcos e levar para estúdio. É algo que faço com alguma frequência, mas neste caso tive uma particular satisfação, e por dois motivos. O primeiro é o facto de a dita formação reunir nove dos mais importantes improvisadores do nosso país – a saber, Luís Lopes, Rodrigo Amado, Pedro Sousa, José Bruno Parrinha, Ricardo Jacinto, Rodrigo Pinheiro, Pedro Lopes, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini. Imaginá-los a tocar juntos, só por si, gerou-me as maiores expectativas.

Em segundo lugar, este supergrupo pretendia aplicar na música, frontalmente, o princípio da loucura (designação genérica dada às alterações mentais caracterizadas pelo afastamento dos modos habituais de pensar, sentir e agir) como fonte criativa, algo que só podia suscitar a minha curiosidade.

Pois o arranque está feito. A Lisbon Freedom Unit esteve dois dias no Namouche Estúdio a gravar, na perspectiva da edição futura de um disco, e daí resultaram quatro horas de registos. Logo de seguida, “Praise of Our Folly” foi apresentado ao público na ZDB e na SMUP. O concerto de estreia em Lisboa foi eléctrico, figurativa e literalmente: a música ganhou uma extrema intensidade, combinando o quase caos com inesperadas harmonizações dos sopros, e à guitarra e aos gira-discos dos dois Lopes juntou-se o Fender Rhodes com pedal de distorção de Pinheiro, pedal esse que também Faustino aplicou ao contrabaixo. Na Parede já houve mais espaços, mas também mais contrastes nas combinações entre elementos: imaginem o “Ascension” de Coltrane com o piano a introduzir motivos não-lineares, à maneira de um Morton Feldman ou dos AMM. Ou o mesmo piano em elaborações ligetianas procurando contrastar o saxofone alto melódico-lírico de Amado. 

Lembrando Erasmus

 

Foi isto o que escrevi para a apresentação desta Unit que se coloca entre as tradições da música livremente improvisada, do free jazz e da electroacústica experimental, tendo circulado pela Internet e pelas redes sociais…

«Digam-me, há alguém que seja mais feliz do que aquela classe de homens a quem normalmente chamamos loucos, idiotas, imbecis ou simples – nomes que em minha opinião são de uma refinada beleza?» A pergunta vem de um clássico da filosofia que data de 1509, “O Elogio da Loucura”, de Desiderius Erasmus. Nele se inspira o projecto de estreia de uma nova formação que reúne a nata do jazz criativo e da música improvisada da capital portuguesa, Lisbon Freedom Unit – chama-se esse projecto Praise of Our Folly. O “Our” acrescentado ao título em Inglês do livro para designar este grupo, um noneto, mais realça o espírito colectivo que se pretende para o mesmo, apesar de ser uma iniciativa de Luís Lopes, o guitarrista. A loucura de Erasmus é partilhada e assumida, tornando-se no próprio “leitmotiv” da música que se vai ouvir.

A “folly” sobre a qual Erasmus escreveu é aquela que define a vida dos mortais que somos, no desempenho desta «comédia em que os actores, disfarçados com vestimentas e máscaras, se movimentam e representam os seus papéis». Isso se propõe fazer a LFU, teatralizando por meio dos sons a nossa comum existência, mas se o teólogo e crítico social que viveu na passagem do século XV para o XVI admitia que poderá haver um director de cena (Deus?) que nos «expulse do palco», o propósito é que ninguém, nem líder nem entidade divina, cale a loucura musical que se verificar. A não ser que seja o público, outro colectivo, a interromper o ritual. O que não é, de todo, improvável que aconteça…

Ao contrário do ensaio de Erasmus, a livre-pensadora LFU não tem uma agenda religiosa, mas os seus membros estão bem cientes de outro juízo do rebelde padre de Roterdão: «Se tivermos de escolher entre a loucura e um sacramento, deveremos sempre escolher a loucura – porque sabemos que um sacramento não nos aproximará de Deus e há a possibilidade de que a loucura o consiga.»

Outros factores há, no entanto, a referir. A ideia de Luís Lopes em fundamentar a música da Lisbon Freedom Unit na demência criativa do instante não é extemporânea. Tem origem no propósito das primeiras vanguardas do século XX (algo que aconteceu logo nas duas primeiras décadas) de utilizar na pintura, na escultura, no teatro, na poesia e na música a “arte dos loucos”, a “arte dos selvagens” e a “arte das crianças”. Foi o que fizeram desde então futuristas, dadaístas, surrealistas, o movimento Fluxus e o que mais veio a seguir sob sua directa ou indirecta influência, reproduzindo, mimetizando ou adaptando o que vinha dos manicómios, dos registos etnográficos dos pigmeus africanos e das escolas. Foi, aliás, por isso que o jazz original tanto entusiasmou os frequentadores dos salões culturais e das galerias de arte da Europa: tinha um tipo de imediatismo e, inclusive, de primarismo expressivo que a música erudita desconhecia ou ignorava. O piano preparado de John Cage foi uma de muitas consequências. A improvisação dita “não-idiomática”, outra. 

Improvisar é um processo

 

Como não podia deixar de ser, isso gerou alguns equívocos. Acreditou-se entre detractores e partidários que, sendo essas as referências, tudo podia passar por arte, dispensando técnica e forma. A loucura de Lopes e dos seus parceiros neste empreendimento é, no entanto, metódica. O guitarrista transmitiu ao ensemble algumas regras de funcionamento. Por exemplo, tudo deve acontecer em contraponto e os participantes devem sair das suas pessoais zonas de conforto. Outra fundamental: no noneto não podem existir os convencionais naipes de instrumentos nem as habituais hierarquizações de papéis – não há secção rítmica ou frente solista, ainda que possa haver um “groove” implícito ou que algum músico se destaque e construa um fraseado “lógico”, ou seja, tipologicamente estabelecido. Num contexto de loucura, o “normal” é mais um parâmetro da geral esquizofrenia.

Quem não conhece ou não compreende a improvisação musical tende a argumentar que aquilo que ouve é cada um a tocar para o seu lado. Não é verdade. Improvisar é um processo. Como refere um dos mais importantes improvisadores da actualidade, Joe Morris, quem escolhe esta via pode «aprender a técnica existente o mais que pode», mas o que o caracteriza é «criar ele próprio a técnica de que necessita para dizer o que pretende». Foi isso o que, na sua opinião, fizeram Charlie Parker, John Coltrane, Ornette Coleman e Eric Dolphy: «Foram eles que criaram a técnica que os define e diferencia. Praticaram a sua própria criação técnica.»

Só assim, aliás, se pode evitar o que ficou tão bem retratado no filme “Os Idiotas”, de Lars von Trier: de tanto se fingirem loucas as personagens quase passam definitivamente para o outro lado. Sabemos, também, que os psiquiatras em contacto permanente com doentes mentais precisam de ser periodicamente analisados pelos seus colegas: a loucura é contagiosa. O método permite, na música improvisada, que não se perca o controlo às situações, ou pelo menos que se consiga controlar o descontrolo. A improvisação é uma linguagem e esta treina-se, domina-se. Na ZDB e na SMUP estiveram músicos que dominam plenamente o que fazem.

«Não há acções ao acaso na improvisação», insiste Joe Morris. «Há repetição, prática e preparação, nada acontecendo aleatoriamente. Tocar livremente requer um método ou uma quantidade de métodos que permitam a organização musical. Esses métodos focam-se no modo como o grupo interage, como cria e processa as estruturas melódicas, como se relaciona com o ritmo ou o afirma. A improvisação não é uma música de repertório, quanto muito é um repertório de abordagens, não tanto o que eu toco mas como toco e porque toco.»

Todos os improvisadores sustentam que a sua “loucura metódica” lhes permite uma ligação sem mediações ao som e à expressão musical. Era ver e ouvir como Parrinha se perdia nas malhas produzidas pelo seu saxofone soprano, ou como Pedro Lopes se entregava fisicamente à manipulação de discos e “pickups”. Ou como o outro Lopes, Luís, permanecia longos momentos parado, inebriado pelas nuvens de timbres que o rodeavam. “Praise of Our Folly" veio finalmente anunciar, preto no branco, o que está em causa na contemporaneidade da arte e na música improvisada em particular, sendo até por isso um investimento único.