O público, 7 de Março de 2015

O público

O jazz em Portugal (Parte 4)

texto Nuno Marinho (www.nunomarinhomusic.wix.com/jazz)

Última crónica da série de reflexões que vimos publicando sobre o estado do jazz no nosso país. Em foco, desta vez, a audiência desta música (ou falta dela) e o que o guitarrista e compositor Nuno Marinho considera que é preciso fazer para a manter e aumentar, ultrapassando a «bicefalite “mainstream” / free» (imagem acima de Leonid Afremov).

«São necessários dois para descobrir a verdade: um para enunciá-la, o outro para entendê-la» – Khalil Gibran. O clube de jazz mais antigo da Europa tem mais de 60 anos e está localizado em Portugal. Ainda assim, não há público no nosso país. Não há mercado, não há interesse, não há procura, não há consumo. Este limita-se, fatalmente, aos músicos.

As faces visíveis do jazz em Portugal foram-se construindo com base em interesses (musicais) comuns, mas também na gestação de movimentos que, ora por qualidade ora por persistência, pegaram e/ou perduraram. Daí o fenómeno bicéfalo do “mainstream” e do free no nosso país.

Esta bipolarização (que é sempre redutora – exclui a multiplicidade de subgéneros estilísticos dentro do jazz) tem a agravante de trazer à baila discussões desinteressantes e indiferentes para o público em geral. O foco de quem está no jazz – ou noutra qualquer forma de arte, caminho, negócio ou programa – poderia ser melhor redireccionado para os 10 MILHÕES de pessoas que não fazem a mais pequena ideia do que é o jazz.

Os ideais de crescimento só têm margem de manobra se expandirmos o nosso raio de acção. Constantes degladiações de poder, mérito ou prestígio são alheias para quem está de fora. É como ver uma rusga às portas de uma casa nocturna. Não sabemos bem o que se passa por ali, muito menos as causas que provocaram os acontecimentos, mas o certo é que não queremos ter nada a ver com o assunto e o melhor mesmo é mudar de passeio e seguir o nosso caminho.

Gostos não se discutem. O jazz não é só uma coisa. É um fenómeno vastíssimo. Tão largo e abrangente que está em todo o lado e toda a gente tem contacto com ele, mesmo não sabendo (num filme, num anúncio, num centro comercial, na rua, na Internet, num bailado, numa galeria de arte...)

Actualmente é impossível dizer que se gosta ou ouve jazz sem se perguntar “qual jazz?”. Que tipo? Os próprios artistas de topo mundial definiram a sua carreira através da diversidade. É muito pouco elucidativo dizer-se que se gosta ou não gosta de Miles Davis, Pat Metheny ou Herbie Hancock. Gosta de Miles? Qual deles? O do bebop dos anos 1940, o do cool dos anos 50, o modal dos anos 60, o eléctrico dos anos 70...? Gosta (ou não gosta) de Pat Metheny, mas qual? Trio, Group, Orquestrion...? E o Herbie Hancock de que falamos, será que é o do jazz ou o da cultura “pop”? E essa estética “pop” é a dos Headhunters de 1973 (aka: jazz -funk) ou já estamos a falar das parcerias com Christina Aguilera e outros no Séc. XXI?

O jazz vive da personalidade e da identidade de cada músico, projecto ou trabalho. É esse carácter que o distingue. É a presença desse carácter. Aí está o poder da aderência que transforma a música numa mensagem que fica gravada na memória de quem a escuta. 

Action figures 

Dennis Rodman, cinco vezes campeão da NBA, não foi o mais importante jogador de basquete da história, todos concordaremos. Ainda assim, é das personalidades mais conhecidas no mundo do desporto e não só. Limitou-se a exprimir a sua individualidade. Pintava o cabelo e as unhas, escusava-se de lançar ao cesto, ganhava 20 ressaltos por jogo e mostrava a toda a gente quem ele era (para quem desconhece este fenómeno, lembremo-nos, à escala e em alternativa, do nosso futebolista português, negro de cabelo loiro, Abel Xavier).

As pessoas querem isto. Querem heróis, “action figures”, personagens. Foi isso que Miles Davis viu acontecer há mais de 40 anos, ao deslumbrar-se com um concerto de Jimi Hendrix, e foi por isso que mudou a sua estética e se aproximou do contexto performativo do rock.

Numa sociedade global onde todos parecem querer ser iguais, pertencer e integrar-se, vence quem é completamente diferente e o assume. Neste contexto, que interesse poderá ter uma “criança” de 18 anos que toca extraordinariamente bem o seu instrumento? Só tem interesse pela sua imberbe idade. Se tivesse 48 anos, pouco ou nenhum interesse teria. Mas mesmo tendo apenas 18 anos, o interesse que esses jovens têm advém da surpresa e do espanto de uma comunidade ou povo. Este acaba por idolatrar crianças que cresceram em ambientes excepcionais que, por sua vez, lhes permitiram alcançar resultados óptimos em pouco tempo.

Hoje em dia já não surpreende (não pode surpreender) o rápido domínio de expressividade dos nossos mais jovens. O que pode surpreender é a falta de ocorrência de um fenómeno generalizado de maximização de resultados. De forma mais explícita, nós, em sociedade, não podemos continuar maravilhados com a produção de um ou dois fenómenos exemplares que enaltecem o orgulho de uma classe. Deveríamos, ao invés, ficar indignados pelo facto de só termos conseguido produzir um ou dois “performers” de topo.

Há quem fique muito contente por termos o melhor jogador de futebol do mundo – Cristiano Ronaldo. Mas só produzimos um. Se produzíssemos 11 talvez tivéssemos uma Selecção Nacional competitiva. E no dia em que conseguirmos produzir o 101º jogador de topo em cada vez mais curtos intervalos de tempo poderemos afirmar-nos como um país de referência em determinada arte ou no desporto (veja-se o caso da Espanha e os massivos resultados desportivos alcançados na última década – Fernando Alonso na F1; Rafael Nadal no ténis; Pau Gasol no basquetebol– só para citar o mais bem sucedido entre uma dezena de atletas espanhóis a jogar na NBA –, Andreas Iniesta e a seleção espanhola de futebol, entre tantos outros exemplos). 

Para lá do aceitável

 

Mas não há público para o jazz... E aqueles curiosos que até vêm de boa vontade, ingénuos e inocentes, maravilhados e esperançosos, rapidamente são empurrados para lá do aceitável pelas famílias do jazz “mainstream” ou do free, simplesmente pelo facto de não pautarem pela mesma cartilha. São esses que deixam as escolas de jazz, perdem o interesse em ir aos concertos e deixam de espalhar a melhor das mensagens junto de quem lhes está mais próximo.

Essa mensagem (que tarda em ser manifestada) é muito simples: No dia em que as pessoas entenderem as experiências que o jazz proporciona; no dia em que as pessoas descobrirem o SEU mais alto entendimento da forma como o jazz lhes toca pessoalmente, esse é o momento da Luz.

Tudo se resume, então, a criar condições e soluções que aproximem as pessoas do jazz, mantendo-as. Assim como não se constrói uma casa pelo telhado ou se começa por adorar quadros abstraccionistas, também não contribuímos social e culturalmente da melhor forma ao apresentarmos formas do jazz que se encontram nos antípodas do que o público conhece e aceita.

Se queremos aproximar o jazz do público temos de o saber “servir”. Será que queremos? Invariavelmente se fala de aborrecimento, desinteresse ou desilusão de um determinado espetáculo, concerto ou performance. A todos os níveis, músicos e não músicos, leigos e peritos, jazzistas e pop/roqueiros manifestam um certo desagrado. A crítica especializada tem ido até mais longe, colocando a questão: «Como é que músicos tão bons conseguem fazer música tão má?»

Esse mesmo público já não se escusa de perguntar se aqueles músicos de tão elevada consideração e estima se comprometeram a realizar um bom espetáculo. «Será que eles acreditam mesmo que aquilo é boa música?»; «Será que encaram o concerto realizado “na santa terrinha” como um mero “cumprir de calendário”?»; «Será que eles vão lá por simpatia ao amigo músico que escreveu os temas?» (estas são citações reais extraídas de múltiplas conversas com pessoas extremamente atentas ao fenómeno social aqui desenvolvido).

A indignação está presente, mas é dual. Não é só o facto de haver bons músicos a fazer má música. Também é o facto (algo inexplicável, a bem dizer) de haver maus músicos a fazer algo que é considerado por uns quantos como boa música. Mas tudo isto não passa de ilusões provocadas pela bicefalite “mainstream” Vs. free. O que realmente acontece é a tentativa inconsciente de predomínio de um sobre o outro, como se a coexistência não fosse possível. Em nada se beneficia o todo com a conflituosidade das partes (e dos pares). Talvez esta seja uma mensagem política, mas a verdade é que sem “maioria absoluta” (algo ditatorial, a bem dizer) pouco ou nada se faz. «Em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.»

Quando grupos de pessoas se juntam por um interesse em comum, a natural tendência é celebrar, entusiasticamente, a fonte da sua associação. Abrem-se clubes, fazem-se revistas, inauguram-se bares, contribui-se para um blogue, criam-se eventos, partilham-se grupos do Facebook ou páginas sociais. É normal. Quem gosta de um certo tipo de teatro junta-se e forma a sua sociedade, a sua companhia.

Enquanto esse conjunto de sócios – unidos pelos seus interesses – se mantém pequeno e restrito não lhes advém nenhuma vantagem ou “know how” no sentido de se expandir para uma verdadeira comunidade. É que enquanto uma sociedade se une por interesses semelhantes (do latim inter est, o que está entre), uma comunidade forma-se com base naquilo que é comum aos seus elementos.

Se estivermos de acordo com uma visão algo provinciana da realidade, sustentada na crença de que o jazz nunca devia ter saído dos bares, então devemos adoptar medidas para restringir o acesso do público (digamos) não qualificado a essa forma de arte. É provável que rapidamente definhe, mas nesse caso cada um tem a responsabilidade de guardar na sua intimidade o prazer que carrega ou coloca entre as pernas. 

Uma verdadeira comunidade 

Se, no entanto, formos mais conscientes da realidade que nos circunda, veremos que o mérito de Luís Villas-Boas, o pai do jazz português, está na formação de uma verdadeira comunidade à volta do jazz. Em vida cumpriu um dever cívico, social e cultural de inestimável valor para o País: juntou pessoas à volta do jazz. Fez, portanto, o que mais nenhum homem ou mulher fizeram até hoje e, desde então, fomentando o interesse do jazz junto do público em geral.

Luís Villas-Boas era um homem bem relacionado e inteligente. Beneficiava de posições profissionais e sociais vantajosas que lhe permitiram estabelecer uma ponte aérea entre os EUA e Portugal. Era um comunicador nato, influente e perspicaz. Trouxe músicos a Portugal, construiu festivais e ajudou músicos portugueses – também fora do jazz – na gestão das suas carreiras. E fê-lo orientado por um aguçado sentido de utilidade sociocultural.

Eis a diferença entre um Especialista e um Perito. O Especialista fala daquilo que gosta enquanto o Perito age por vontade de ajudar. Villas-Boas era um Perito. Actualmente temos alguns Especialistas que se limitam a falar do que gostam. Mas não temos um Perito reconhecido que o faça em prol de um bem social maior, a necessidade de educação e culturalização do País e do povo. O grande contributo de Villas-Boas está no seu poder de comunicação. Levou o jazz a muitos sob a forma embrionária do que hoje poderíamos apelidar de “epidemia social”. Ligou o jazz a Portugal e Portugal ao jazz. Apresentou-nos músicos e revelou o País aos músicos de fora.

Hoje em dia, para além da falta de Peritos, não temos no jazz quem consiga participar em diferentes mundos, subculturas e nichos. É um fenómeno dramático e preocupante. Tudo o que se passa dentro desta pequeníssima bolha musical parece direccionado para dentro. O jazz em Portugal é um aquário. E quem está dentro dele pensa que não existem outros aquários onde nadar.

Há uns anos, ao discursar na grande reunião anual da Festa do Jazz do São Luís, Mário Laginha disse-o com uma pitada de ironia: «O meio do jazz é tão pequeno... e, no entanto, damo-nos todos bem, não é?!» Ora, a vantagem de conhecer ou pertencer a vários outros aquários que não o do jazz é – precisamente – a de poder chamar novos públicos para a nossa amada arte. É que se não o fizermos não vamos alcançar mais do que uma promíscua festa de “swing” privada, sabe-se lá com que conteúdo!

Se o objectivo – por razões de segurança ou medo – é fechar o jazz a uns quantos, então promiscuam-se no sossego dos lares. Se, por outro lado, tomarmos consciência de que o caminho tem, necessariamente, de passar por tornar esta forma de arte mais apelativa e interessante para o público em geral, então temos de tomar atitudes mais altruístas e menos elitistas.

Temos de deixar de ser Especialistas para nos tornarmos Peritos, “mavens” (=trusted experts), personagens activas, motivadas socialmente, que ajudam o mercado, ajudam o público, contribuem para a formação e a informação de muitos através de uma opinião pessoal desinteressada e especializada que seja escutada pelos demais. Tal passo pode ser iniciado, em primeiro lugar, se a própria comunidade jazzística não for tão rápida a premir o gatilho do reparo fácil, da crítica desdenhosa, da picuinhice desnecessária. Neste mundo louco das redes sociais torna-se muito fácil julgar – crucificar até – trabalhos, projectos e ideias plenamente válidas e justificáveis através de comportamentos muito pouco solidários ou respeitosos.

A chico-espertice impera nesse tal aquário. O que leva, por outro lado,  a sentimentos de falta de reconhecimento do seu trabalho, injustiças, raivas e ódios de estimação. Vários são os músicos de topo do panorama nacional que mais ou menos sonoramente revelam esses sintomas. E sistemáticas são as suspeitas de desequilíbrios e até suicídios dentro da comunidade. A solidariedade e o respeito puro favorecem mais o elogiador do que o elogiado. Da mesma forma, «quando Pedro fala de Paulo, fico a saber mais de Pedro do que de Paulo».

Foquemos, pois, a nossa atenção nas coisas úteis e produtivas para podermos – em conjunto – criar uma comunidade mais forte e saudável. Haja espaço para os Especialistas transmitirem as suas opiniões pessoais. Mas, sobretudo, que floresçam verdadeiros Peritos e comunicadores, que nem Villas-Boas, para que se cruzem novos mundos com o mundo do jazz em Portugal. Centros de investigação, conversas, diálogos, trocas de ideias, tudo é bem-vindo. Mas nada é mais importante do que uma boa consciencialização das coisas, bom humor, uma intenção mais comunitária do que interesseira ou individualista e boa vontade. Fazer o bem pelo bem, sem dramas, sem acusações, sem desrespeitos.

Façamos as pazes, primeiro connosco próprios, e trabalhemos juntos para que o jazz assuma um papel importante nas nossas vidas e nas vidas de quem nos está próximo. «E quem nunca pecou que atire a primeira pedra.»