O espaço performativo, 6 de Março de 2015

O espaço performativo

O jazz em Portugal (Parte 3)

texto Nuno Marinho (www.nunomarinhomusic.wix.com/jazz)

Quando faltam espaços para tocar, as entidades de protecção dos direitos dos músicos não protegem, os portugueses não se entendem e impera o «hoje há tudo, amanhã já não». Mais uma reflexão sobre o estado do jazz no nosso país (imagem acima de Debra Hurd)…

A pergunta lógica que se impõe é, obrigatoriamente, “onde” é que posso ouvir jazz? Se, num primeiro momento, precisamos de músicos que toquem a música, num segundo momento precisamos de espaços de música ao vivo. Concertos, bares, associações, festivais, entidades promotoras, enfim, uma rede de investidores culturais e sociais – como fora o pai do jazz português, Luís Villas-Boas – que permitam o acesso destas formas de jazz ao público.

«Bem-vindo a Portugal. Se gosta de música ao vivo, jazz em particular, só pode optar pelo “mainstream” ou pelo free. Escolha ir a uma “jam session”, veja músicos egóicos a tocar “standards” ou então prefira ruídos experimentais e abusivos vindos de instrumentos que tão bem conhece!»

Faltam espaços em Portugal. Se é verdade que até há muita música a acontecer, em locais nocturnos, muitas vezes “underground” (ou “underrated”?), o que se passa é que não há condução ou fomento lógico dessas actividades. Pode acontecer como pode não acontecer. Hoje há tudo, amanhã já não. O jazz em Portugal (salvo uma ou outra excepção) acontece por esguichos. É como se o cabo da mangueira estivesse furado em vários sítios. Vamos vendo alguns focos de água, aqui e ali, desconcertadamente, sem lógica ou sem motivo. Mas não vemos corpo, consistência, abundância, naturalidade ou força. É tudo pontual.

Mais uma vez volta a estar em causa a intenção mais profunda que faz agir o Homem. E para os gerentes dos estabelecimentos comerciais que ainda vão tendo música, a intenção é – invariavelmente, com raríssimas excepções – o negócio. Não o negócio cultural ou o negócio da música, mas sim o negócio da “casa cheia”. 

Traz um amigo também 

O motivo mais comum para se aceitar música ao vivo em determinada casa é a ideia de que os músicos trazem os amigos para beberem uns copos. Ou seja, os bares procuram músicos e bandas para que estas tragam o seu público. É uma espécie de acordo tácito: «Eu deixo-vos tocar no clube se vocês encherem a casa.»

Sucede que nestes moldes não há margem de sucesso... Os melhores espaços nocturnos são os que têm identidade própria, um conceito seu, e revelam o seu carácter. Não estão à espera que sejam os músicos a fazer milagres. Os músicos só tocam. E se têm a felicidade de tocar duas ou três vezes por semana é impossível arrastarem os amigos para assistirem a todos os seus concertos.

O drama é este. Os estabelecimentos comerciais não sabem qual é a sua identidade. Experimentam músicos durante uns tempos, para ver se melhoram o negócio, mas acabam por se limitar a só reconhecer (tacita e inconscientemente) utilidade a bandas de iniciantes e inexperientes. Estes podem fazer um concerto por ano, mas reúnem dezenas de amigos baseados na raridade do evento. Este é o lado amador da música. A face simples e sem preconceitos típica de um evento familiar, ao qual as pessoas aderem por simpatia e graça. O prisma profissional e constante do jazz implica mais actuações – porque são sempre diferentes –, mais dinâmica, mais interacção. É um ambiente mais espontâneo de que resultam, sempre, experiências diferentes.

O concerto de hoje não vai ser igual ao de amanhã. Nunca é. O jazz permite ao seu público o contacto directo e imediato à tela de um pintor com a possibilidade de o ver, “in loco”, a dar forma à sua visão. Pode ser uma caricatura ou um retrato, uma paisagem ou uma natureza morta, um lince ou um pavão.

Convenhamos que uma sala de espectáculos não é um bar. E os bares não podem querer ser salas de espectáculos. Nem os músicos podem ter a pretensão (ou arrogância) em exigir do público certo tipo de comportamento como silêncio, atenção, aplausos ou até interesse, quando tudo parece estar fora do seu contexto – músicos, música, palco e público. A verdade é que um estabelecimento comercial, se tem o seu conceito e o seu produto bem definidos, só pode ganhar em acrescentar músicos. Os outros enganam-se a si próprios. 

Uma mercearia chamada Pavilhão Atlântico

 

Manter uma programação não se resume a ir colocando uns nomes nos cartazes, para transmitir a ideia de que se está a fazer alguma coisa. Ou os espaços performativos têm interesse para além da música, tornando esta numa “cereja em cima do bolo”, ou então estamos a gerir mercearias como se se tratasse do Pavilhão Atlântico.

Outro fenómeno associado à existência da música ao vivo prende-se com o papel que as entidades de protecção dos direitos dos músicos desempenham. Estas cobram aos bares licenças sem fim... Licença de música ao vivo, licença de ruído, licença de televisão, licença de emissões radiofónicas... Tudo em nome do músico, do artista, do autor, que “a posteriori” receberá o seu apropriado quinhão.

Escusado será dizer que nada disto funciona devidamente, já que os bares não cumprem a legalidade e os próprios músicos não reclamam os seus direitos. E não o fazem pelo simples, mas dramático, facto de que essas entidades procedem às suas cobranças, em nome dos músicos, para lhes entregar quantias irrisórias e mesmo humilhantes. Será que as entidades em causa estão, realmente, a proteger o interesse dos músicos? Ou são só formas legais de constituir negócio, lucro e investimento à custa do nome e do trabalho dos músicos?

O discurso dos donos dos bares em relação à música ao vivo repete-se, “ad nauseam”, lamentando o facto de não poderem subir os “cachets” por causa das elevadas taxas e sobretaxas cobradas por aquelas instituições de “defesa” dos interesses dos artistas.

Será que o excesso de regulação e proteccionismo favorece os músicos? Será que favorece a execução de música ao vivo? Será que contribui para a proliferação de um verdadeiro mercado do jazz ao serviço do público? Se a consequência passa por fechar ainda mais espaços de música ao vivo e/ou reduzir os pagamentos dos músicos, estarão as entidades de protecção dos direitos dos músicos realmente a proteger esses direitos? Ou estão a contribuir para que haja menos possibilidades de trabalho na área da música? 

O português esquiva-se 

Por outro lado, o caminho para o “booking” de concertos e espectáculos ao vivo desvela-se, múltiplas vezes, em caminhos tortuosos e contraprodutivos. O português é, reconhecidamente, um povo afável, não há quem o negue. Mas também é altamente improdutivo e desorganizado. Qualquer pessoa que já tenha comunicado e trabalhado com estrangeiros sabe da facilidade com que se entendem diferentes povos, em contraposição com a dificuldade que existe na comunicação com os nativos da sua própria língua.

Não é só o facto de a língua portuguesa ser traiçoeira. É, sobretudo, o facto de o povo português ter dificuldades e limitações na sua expressão. Demasiado temor reverencial, falta de preparação para a suplantação de dificuldades, adversidades ou desafios, desresponsabilização total pelos seus actos, limitações na transmissão directa e honesta do que se quer e do que se pensa (estes casos já estão documentados na literatura internacional que compara diferenças sociais e culturais entre povos).

No fundo, o português adia, protela, esquiva-se. Não assume as suas preferências ou tendências. Espera que o outro desespere e desista, por cansaço ou irritação. Tem telefone para fazer tudo, excepto atender chamadas. Tem “email”, mas não o usa, não responde, não demonstra bom trato, consideração ou respeito. É que a falta de organização, método e boa gestão do tempo e do espaço discorrem em desleixo, excesso de trabalho e atabalhoamento.

Marcar concertos em Portugal pode levar um ano em negociações. Desde o primeiro contacto até ao dia do pagamento final, o processo pode ser extremamente moroso e sem explicação plausível. Se considerarmos o modo como alguns gerentes tratam os músicos chegamos a situações limite em que se cancelam concertos pontuais ou contratos duradouros da noite para o dia, sem a devolução da mínima palavra de apreço ou justificação pela mudança de orientação.

O cúmulo deste marasmo encontra-se na protelação negocial e na incapacidade para fechar datas, assumindo compromissos. Projectos de altíssima qualidade ficam três anos à espera de uma data. Inúmeros outros não chegam, sequer, a ser apresentados condignamente nas salas e nos bares mais conceituados de Lisboa.

Mas o jazz é, por natureza, volátil. Predominam os encontros musicais de vão de escada – juntam-se hoje e amanhã já têm uma banda – e deixam-se cair projectos de inestimável valor social, programados, pensados, geridos por longos anos até que algo aconteça. Nas palavras de Carlos Bica, um dos nomes portugueses mais sonantes do jazz lá fora: «No início ninguém se interessava pelo que nós estávamos a fazer, e depois já toda a gente queria ouvir.» A falta de um mercado e de uma orientação específicos leva ao desnorte conceptual e ao aproveitamento de agentes que pouco ou nada favorecem o jazz nacional.

Em Portugal temos a “Agenda Cultural de Lisboa”, de inestimável conteúdo e valor dinamizador da vida da cidade. Em Paris encontramos a “Agenda Jazz” do Paris Jazz Club, que descreve mensalmente concertos diários (às vezes a partir das 11 horas da manhã), localização de bares e restaurantes, tipo de jazz praticado (se é vocal, manouche, contemporâneo, etc.), preços praticados, consumo obrigatório ou não, entre outras informações.

Não faltam sugestões nem caminhos para melhorar o trato, o negócio, a actividade gerida e, principalmente, o nosso próprio contributo sociocultural em prole do jazz. As sugestões e soluções estão aí. Basta procurar e trocar ideias.