O artista, 5 de Março de 2015

O artista

O jazz em Portugal (Parte 2)

texto Nuno Marinho (www.nunomarinhomusic.wix.com/jazz)

Nesta secção da sua série de crónicas, Nuno Marinho reflecte sobre as características e o comportamento do músico português de jazz. Colocando vários dedos na ferida…

Em Portugal, e com o advento da educação como negócio lucrativo, também o jazz floresce em número e qualidade de jovens músicos. Estes, desde cedo, têm a oportunidade de aperfeiçoar técnicas e conhecimentos ao ingressarem em escolas particulares ou superiores. O número de licenciados em jazz no nosso país tem tendência a subir. Até os músicos já estabelecidos no mercado de trabalho correm para os bancos universitários à procura do seu diploma.

O músico de jazz também quer ser doutor. Não daqueles que salvam vidas, mas doutor. E a verdade é que hoje em dia qualquer pessoa tira uma licenciatura de jazz em Portugal ou no estrangeiro. Qualquer uma. Mesmo quem apresenta deficiências graves no domínio da língua portuguesa consegue entrar num curso superior e progredir para mestrados. Haja dinheiro.

Louve-se o acesso ao ensino superior e a crescente educação e formação em demanda. Estejamos, porém, atentos a ofertas tendenciosas ou ilegítimas no mercado de trabalho, apenas e só justificadas por causa da obtenção do diploma.

Se é óptimo ver uma comunidade de músicos a crescer ao mesmo tempo que o nível de educação se eleva, já não será tão positivo observar a que custo. O excesso de diplomacia leva à natural perda de importância da obtenção do canudo. À saturação do mercado de trabalho segue-se a inconsequente procura de consumidores: público que assista a concertos e compre discos e alunos que queiram ter aulas.

O fenómeno já remonta aos anos 1990 e é incompreensível que certas faculdades e politécnicos não aprendam com os erros e as falhas dos seus congéneres. E não aprendem – ninguém aprende – porque não há interesse. A partir do momento em que uma pessoa se estabelece numa universidade passa a “ganhar o seu”, que vem do Estado. É dinheiro “limpo” e constitui uma segurança para a vida. As consequências sociais ou pedagógicas, bem como a utilidade comunitária, são problemas deixados para outros lidarem no futuro. 

Onde estão eles?           

A comunidade cresce tanto que rapidamente esquecemos do que é feito das centenas de ex-alunos das escolas de jazz que não estão ligados a esta estética. É que se o jazz tem sido – por todo o mundo – uma forma de arte “especializada”, isto é, tendencialmente dirigida de músicos para outros músicos, não seria do interesse desta comunidade manter o máximo de alunos, estudantes, aprendizes, iniciados e curiosos dentro da “família do jazz”, fazendo crescê-la? Dito de outra forma, mais impressionista, se quem consome jazz são – maioritariamente – estudantes, não seria aconselhável absorver esses alunos para dentro do jazz em vez de os desmotivar, fazendo-os sentir que isto, afinal, não é para todos?

Estudos na área do desporto de alta competição e psicologia têm deixado claro o grave erro que se comete quando quem está na posição de educador é diferenciador junto dos seus educandos. Os exemplos de mestria pedagógica chegam-nos no sentido oposto: ser imparcial na abordagem e na relação com o educando e tratar todos – sem excepção – como atletas e profissionais com o mesmo tipo de potencial. Ora, a menos que quem ocupe lugares de decisão sinta a “concorrência”, a “variedade” ou a “diversidade” como factores de ameaça, é algo impensável que a expansão e o fortalecimento de uma classe tenha pontos negativos na psique dos seus responsáveis.

Conta-se que uma senhora perguntou a Louis Armstrong o que era isso do jazz. Louis retorquiu perguntando-lhe a sua idade:

- Tenho 40 anos, meu filho.

- 40 anos? – disse Armstrong – então deixe lá o jazz, pois nunca vai chegar a entender o que isso é.

Felizmente, o jazz transformou-se num fenómeno global, não circunscrito às especificidades culturais americanas que o viram nascer. O jazz europeu, em particular, desenvolveu-se sobre outras luzes e preceitos, assumindo um carácter bem distinto de todos os outros. E o jazz cresceu e afirmou-se como evolução, liberdade de expressão e divertimento. Jazz é o que nós quisermos que ele seja. Se no tempo de Louis Armstrong o jazz era uma só coisa, bem definida e identificável, 80 anos depois a multiplicidade, o desdobramento e a fusão deste estilo levam-nos a identificar tantos subtipos de jazz quantos nós quisermos.

Assim como a tecnologia evoluiu mais nos últimos 30 anos do que no resto de todo o decurso da humanidade, também o jazz evoluiu enormemente por todo o mundo. Sendo uma forma de arte extremamente ligada à personalidade individual e à capacidade emocional e expressiva de cada intérprete, pode assumir várias formas e apresentar-se em contínua mutação. 

Para além da imaginação

Albert Gleizes, 1915 

Em pouco mais de 100 anos de história, o mundo já teve oportunidade de conhecer as tendências new orleans, dixie, swing, manouche, bebop, cool, hard-bop, “avant-garde”, free, latin, fusion, jazz-funk, west coast, experimental, “mainstream”, nu-jazz, post-bop, jazz modal, smooth jazz, acid jazz... A lista vai para além da imaginação.

Para que um músico ou uma vertente artística ganhem forma, precisam de criar um produto, uma identidade, uma moeda de troca, um valor, uma mais-valia. Stan Getz afirmou que, no seu tempo, os músicos não gravavam discos para os venderem. Faziam-no para se documentarem a eles próprios. Eis a forma de expressão mais forte e impressiva: o processo criativo carece de prova da sua existência. E com o advento do acesso fácil a estúdios de gravação, os músicos acorrem a esses mesmos alimentadores de sonhos que mais não fazem senão captar o som e, talvez, misturar o produto final para edição em CD.

O músico-artista precisa hoje de ser muito mais do que músico. Precisa de ser agente, promotor, divulgador, distribuidor, “performer”, intérprete, gestor, editor, técnico de som, “designer”, “cameraman”... E, já agora, compositor e executante. Hoje em dia, qualquer pessoa pode ser músico, assim como qualquer músico pode ser qualquer outra pessoa. Já não há fronteiras socioprofissionais bem delimitadas. Isto leva a que o “ruído” comunicacional seja gigantesco. Toda a gente publica conteúdos, toda a gente se arroga ao direito de ter 15 minutos de fama, toda a gente procura o que tanto escasseia nesta era da informação: ATENÇÃO.

Todos nós precisamos de atenção. É uma necessidade emocional básica do ser humano. Dar e receber atenção é uma forma de amor, carinho, cuidado e/ou preocupação. Quando o grau de realização profissional desse mesmo ser humano passa a consistir no grau de atenção que consegue gerar e angariar para si ou à sua volta, surgem problemas. Será que conseguimos imaginar as figuras de Miles Davis, Jimi Hendrix ou Madonna se pouca ou nenhuma atenção lhes tivesse sido dirigida?

Ter conteúdos tornou-se imperativo à escala global. O músico deve ter obra feita, deve ter vídeos, gravações, trabalhos editados, discos, composições... “Curriculum vitae”. Mas mais importante do que isso, a sua mensagem – a sua música – tem de ser aderente, tem de permanecer na memória das pessoas.

Mas será que é o músico que beneficia da utilização de um estúdio de gravação só para poder ter um cartão-de-visita com que se apresentar? Será que o disco é uma mensagem aderente por si só? O negócio desses estúdios é a gravação do trabalho. Nada mais. Não há risco. Muitas vezes nem sequer há a noção do trabalho que se está a gravar ou editar. Não interessa. É trabalho. É rendimento. É o negócio e é o que faz ganhar dinheiro ao gerente do estúdio e seus consórcios. O poder da aderência faz parte de outro negócio, o “marketing”.

Quando procura o seu nicho de mercado, os seus compadres, um músico deseja que haja quem acredite no projecto, quem ali veja validade, soluções, mérito, gosto, interesse. Um músico não procura trabalhar com mentes robóticas que se limitem a cumprir o seu horário de trabalho, como se estivessem a lidar com uma cadeia de produção em série. E quanto menos envolvência houver nesse processo, menos aderência se transmite ao projecto. «Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante»(Saint-Exupéry em “O Principezinho”). 

Cada um por si 

Há, inclusive, quem pergunte: «Mas o que é que estes músicos têm para me dar?»... O que é que o músico tem para dar aos donos de um estúdio senão um projecto que vá de encontro à própria personalidade e às convicções de quem tem por função gravar trabalhos dos verdadeiros artistas que acrescentam valor ao panorama musical e sem os quais não haveria necessidade de estúdios de gravação?

A consequência natural de todo este contexto é evidente. Cada músico segue o seu caminho, mantém o controlo do que faz como forma de manter o gosto e a saúde do seu trabalho. As edições de autor multiplicam-se a cada dia e as próprias editoras e estúdios de gravação também. Cada um faz por si. John McLaughlin disse-o sinteticamente: «Tive de criar a minha própria editora, pois senão não teria álbuns no mercado.»

Em Portugal acontece um fenómeno ainda mais curioso. Fecham-se editoras sem expressividade no mercado ao mesmo tempo que surgem novas na tentativa de subsistência. O fenómeno da música grátis não tem precedentes, provavelmente, no resto do mundo, como tem entre nós. As “Net labels” são algo que está na moda. Disponibilizam-se conteúdos grátis a troco de donativos.

O verdadeiro mérito destas plataformas consiste na abertura de um catálogo facilmente acessível a todos. No caso de novos artistas, procura-se alguma exposição mediática (a aderência?) ou a simples inclusão do seu nome no catálogo. Parece bastante válido e eficaz. Um catálogo não é mais do que isso: é um convite à entrada na loja para conhecer os produtos disponíveis e consequente celebração de um contrato (de compra e venda ou doação). Mas quando artistas já sedimentados no mercado de trabalho, no mundo da música, na família do jazz vêem como única alternativa o recurso ao “grátis”, devemos pensar duas vezes.

Em relação às editoras, basta um pequeno crescimento para se começar a falar de patrocínios e o despertar do interesse de alguém com dinheiro para investir. E aquilo que começou como um fresco grito de Ipiranga, facilmente encarrila para os mesmos patamares tendenciosos da censura e do preconceito. Tudo em nome do capital.

O músico de jazz tem um infeliz rótulo de músico barato ou mesmo gratuito. Tal remonta à primeira “jam session”, fórmula privilegiada para a reunião de músicos em palco, que se juntam e interpretam temas pela noite fora. O músico de “jam session” não recebe mais do que a oportunidade ou a permissão para ir para cima de um palco no intuito de mostrar (ou provar) que é o próximo macho alfa do rebanho. Foi assim desde os tempos de Charlie Parker. Eram filas de saxofonistas que se alinhavam para entrar no próximo tema. A “jam session” é gratuita, potencialmente egóica e baseada no conceito de música instantânea (uma espécie de “fast food” dos tempos antigos). Os músicos não ensaiam, podem nem se conhecer, mas isso não interessa, porque o jazz é isso mesmo. 

Tocar de graça 

Apesar de gratuita, o seu preço acaba por ser bastante elevado. É estigmatizante. Nas palavras do pai do rock português: «O músico de jazz junta uns colegas hoje e amanhã já diz que tem uma banda. Isso não é nada.» Então, qual a melhor coisa que se pode oferecer a quem se desespera para ter uma oportunidade para tocar? Um palco.

Eis o estereótipo: se toca de graça e coloca o seu trabalho à disposição de donativos, então está de parabéns, é músico de jazz. Há muitos advogados, engenheiros e dentistas no País, mas não os vemos a oferecer os seus serviços de borla. Numa análise mais profunda, que envolva conceitos de “marketing” ligados ao funcionamento psicológico do homem, até podemos ir mais longe. Neste contexto, nada do que é gratuito ou barato é muito bom. Entre o barato e o grátis, as pessoas vão sempre preferir o grátis. Mas entre a qualidade e o bom senso versus a desconfiança e o oportunismo, as pessoas vão sempre – sempre – escolher a garantia que o preço proporciona. Se é mais caro é porque é bom, é porque é melhor.

O preço transmite confiança e faz muito mais do que isso. Transmite responsabilidade. Um CD oferecido facilmente fica esquecido no fundo do armário. Já um artigo adquirido carrega o peso da responsabilidade e da escolha feita por quem optou por aquele item em vez de qualquer outro.