Walter Smetak, 8 de Outubro de 2013

Walter Smetak

Música experiência: interregno

texto Marco Scarassatti

Na primeira de várias crónicas para a jazz.pt, o músico e investigador brasileiro Marco Scarassatti fala-nos da improvisação tal como a entendia o seu mestre de origem suíça. Saibam o que são os “violões microtonizados”, e mais…

Interregno é, originalmente, o intervalo de tempo entre dois reinados, seja pela morte ou mesmo por deposição. Pode significar também o tempo entre dois tempos, a suspensão temporal, o intervalo entre dois fatos.

Na ideia de intervalo, quero subentender uma ideia de espaço, espaço de movimentação entre dois pontos. A se considerar a música como uma arte do tempo, seu princípio e seu fim determinam um intervalo de espaço e tempo.

Na música improvisada coletiva, o ponto que principia a constituição desse espaço-tempo é o silêncio estabelecido como ante-gesto musical, acordado entre os músicos participantes. Um tempo de latência musical, que precede a ação de improvisar. Não precisa durar muito; esse tempo de espera gesta o som que irromperá do silêncio e inaugurará a ocupação, ou o preenchimento desse espaço-tempo que emerge do silêncio. E se o primeiro gesto for um silêncio? Nesse caso improvisa-se os silêncios como sons inaudíveis.

Na música improvisada, esse primeiro ponto que baliza o princípio não vislumbra o segundo, que determina o fim. Os músicos se jogam e jogam nesse espaço-tempo, sem saber ao certo a sua dimensão a priori.

É evidente esse modo de ocupação do espaço-tempo tangencia o pensamento de Boulez acerca do espaço “liso”, pois é um espaço a ser preenchido sem a contabilização da sua dimensão. A dimensão, ou mesmo o sentido de forma, se constitui na medida em que os gestos musicais potencializam-se como forças que a definem. 

Tempo improvisado

 

“Interregno” é também o nome do último LP gravado em vida pelo suíço naturalizado brasileiro Anton Walter Smetak (1913-1984), cujo centenário de nascimento é comemorado este ano. Em 1979, Smetak  entrou no estúdio com a participação do seu Conjunto de Microtons. O grupo estava há cinco anos num trabalho regular de improvisação e ali se puseram para uma imersão no universo criativo. «Até o tempo improvisou-se!», disse o compositor.

Smetak foi figura marcante no cenário musical brasileiro, principalmente entre 1960 e 1984. De exímio violoncelista, transmutou-se em profeta de uma multimídia desplugada, construindo a música com as mãos, através de objetos relacionais situados entre o plástico e o sonoro, instrumentos musicais para uma nova era em que a intuição sobrepujaria a razão.

Essas Plásticas Sonoras criadas por ele são instrumentos singulares e obrigam o músico ao desafio da exploração na procura dos sons.  Porém, nos últimos anos que precederam a gravação do “Interregno”, Smetak deixou suas plásticas sonoras de lado para se dedicar à improvisação microtonal, utilizando-se do que chamarei de um “meta-violão”, o seu conjunto de violões microtonais.

Meta-violão porque cada um dos seis violões representava cada uma das cordas do instrumento: um violão com as seis cordas E grave, outro com as seis cordas A, outro D, outro G, outro B, outro E aguda. A afinação entre a primeira e a última corda de cada instrumento era de um semitom e o objetivo era que os seis instrumentos tocassem como se fossem um. Esse trabalho realça sua idéia de criação coletiva a partir da improvisação.

No disco, o grupo com os seis violões tornou-se um grande instrumento coletivo, composto por seis violões e seis singularidades, músicos excepcionais que se dedicaram à prática de improvisação por, pelo menos, cinco anos. Thomas Gruetz, Baltazar Schawabe, Hans Ludwing, Samuel da Mota, Élcio Sá e Antônio Sarkis empunharam os violões microtonais e se juntaram a Smetak e também ao flautista Tuzé de Abreu na imersão para a construção do disco. 

Universo microtonal

 

Os violões “microtonizados”, como chamava Smetak, ofereciam a abertura para um painel sonoro interessante, mas não davam ao suíço os sons longos que ele pretendia, por isso fez uso de um órgão elétrico. Juntaram-se ainda, ao conjunto de violões, outros instrumentos também por ele inventados. Interregno é também, nesse caso, o universo microtonal entre uma nota e outra.

O disco em questão apresenta sete proposições de preenchimento de ocupação do espaço-tempo configurado pela ação dos músicos. Em sua diversidade timbrística, o grupo partilha um lugar, entrelaçado e complexo, mas comum nos modos de perceber e atuar na improvisação. Há movimentos contrastantes nas transições, há um transcorrer com alterações de densidade e timbres. Há, sobretudo, a pulsão de um organismo vivo, que se movimenta, transcorre como um rio que esculpe seu leito enquanto passa.

O que há de se lamentar são os cortes que interrompem, determinando os pontos de finalização das faixas, que seguramente não coincidem com o ponto que interrompe o interregno.

Durante as gravações do LP, Smetak gravou ainda duas músicas intituladas “Fachos de Luz” que não foram incluídas no disco. Esta «síntese de todas as experiências adquiridas no trabalho anterior»,como ele próprio disse,está guardada silenciosamente, inaudível para o público. Tempo de latência.

Destaco aqui alguns pontos para reflexão sobre o pensamento do Smetak acerca da improvisação a partir dessa experiência. São pontos que complementam de alguma forma a ideia inicial do texto do silêncio que precede a improvisação, do espaço liso que se constitui na medida em que se improvisa e desse preenchimento como gesto criativo e transformador. 

Canal de comunicação

 

Para Smetak, a prática da improvisação desenvolve a intuição. E esta é o canal de comunicação entre os músicos no ato coletivo do improvisar.

Improvisação como forma livre de composição, em que as mentes estariam em atuação simultânea no preenchimento de um fundo de tela, o silêncio ancestral. E, preexistente no silêncio, o som seria conseqüência do seu adensamento.

Ainda dizia ele que cada improvisador é um solitário na multidão, com o compromisso de estar em alerta na construção de uma obra no espaço mental temporário.

A boa improvisação seria então repentina, uma ação intelectual inspirada na própria ocasião em que se valem as intensidades do pensamento, as memórias dos participantes - tanto individuais quanto coletivas -, um domínio do fluxo temporal em relação aos acontecimentos musicais e a confiança em uma direção superior que conduz o seu destino.

O sentido da improvisação no gesto criativo ultrapassa a sessão musical; para ele, os atos da vida cotidiana são impulsionados pela força da imprevisibilidade e, sobre ela, deve-se transbordar a força da improvisação acumulada na preparação. Quem improvisa não deve se limitar, deve «improvisar os silêncios, as palavras e os sons». A criação é como fluxo contínuo, a experiência é como a totalidade da existência e da transcendência.

Interregno, nesse caso, é um regime de alteridade entre os dois pontos que determinam a vida. Nesse caso, a vida é exceção.