The Keith Tippett Group, 10 de Maio de 2013

The Keith Tippett Group

Entre dois mundos

texto Rui Miguel Abreu

A Esoteric acaba de reeditar “You Are Here… I am There” e “Dedicated to You, But You Weren’t Listening”, dois álbuns assinados por um colectivo que, no arranque da década de 70, personificou da melhor forma em Inglaterra o derrube de barreiras entre os universos do rock e do jazz.

A Centipede nasceu como uma «experiência excitante», para usar uma expressão de David Bowie que os descrevia assim ao grande Charles Shaar Murray em 1973, e uma espécie de extensão do que já se sentia borbulhar no Keith Tippett Group. Aquela grande orquestra liderada por Tippett incluía membros dos Soft Machine, dos Nucleus e dos King Crimson, além de estudantes da London School of Music.

De certa forma, o lado “experimental” a que Bowie aludia na sua entrevista procurava lidar com uma certa noção de democracia entre gerações, estéticas e até níveis técnicos individuais. Keith Tippett era, nesta época, um mediador, um eixo por onde passavam energias muito diferentes que ajudaram a transformar a cena britânica num ecossistema muito próprio onde o diálogo entre diferentes linguagens era uma natural ocorrência.

A Centipede foi uma consequência da visão que já se sentia nos dois discos inaugurais da sua discografia como líder: “You Are Here… I am There” (1970) e “Dedicated to You, But You Weren’t Listening”(1971), dois trabalhos que a britânica Esoteric acaba de recuperar apresentando-os no que afirma serem «edições remasterizadas definitivas».

Que a Esoteric seja um selo muito comprometido com o lado mais prog do rock só acrescenta validade à inclusão da música do Keith Tippett Group numa coluna que trata de pontes entre o jazz e outras linguagens.

Era um romântico

Keith Tippett mudou-se de Bristol para Londres no final dos anos 1960 em busca de um sonho. «Eu era tão romântico», confessa o pianista nas notas de capa da reedição de “You Are Here…”, «pensei que bastava sair do comboio em Londres e ir ter com Ronnie Scott ou alguém assim para começar a tocar em grupos de jazz». A história, no entanto, foi bastante diferente.

O primeiro passo foi a resposta a um anúncio do Melody Maker que o colocou em contacto com Pat Evans, saxofonista. Logo depois veio um curso de Verão financiado pelo sindicato dos músicos de Londres, no qual teve a oportunidade de conhecer Nick Evans, trombonista que viria a integrar o seu grupo. Foi nesse contexto que conheceu Elton Dean, saxofone alto, e Mark Charig, corneta (ambos haveriam de integrar os Soft Machine).

Desse curso saiu um sexteto liderado por Tippett que haveria de angariar aplausos de músicos mais experientes como Ian Carr e Graham Collier, o que lhes permitiu começar a frequentar o circuito dos clubes de jazz, palcos onde a visão de Tippett foi então colocada à prova. Os aplausos levaram a uma bolsa do Arts Council em 1968, feito notável para um músico de apenas 20 anos e o impulso que Tippett necessitava para compor o material que haveria de transformar-se no seu álbum de estreia, “You are Here…”, lançado pela Polydor em 1970.

Nas notas originais de capa, Mike Charig começou por explicar que «se poderia argumentar que um novo tipo de músico está a aparecer». O cornetista não se referia tanto a eventuais capacidades técnicas acima da média, mas a uma natural habilidade para dialogar com diferentes culturas.

Christopher Bird, o autor das notas de capa originais, incluídas igualmente na reedição, sublinha isso mesmo ao explicar que os músicos, todos com menos de 25 anos, cresceram na era do rock, «uma influência inescapável». O Keith Tippett Group usufruía assim, logo em You Are Here…, de uma notória sintonia com avanços no jazz, com Miles Davis à cabeça, que procuravam beber na energia elétrica do rock para erguer uma linguagem mais contemporânea. 

Uma verdadeira antena

Keith Tippett por William Ellis 

Sob esse aspecto, “Dedicated to You…” foi ainda mais claro nas suas credenciais prog: editou-o a respeitadíssima Vertigo, incluía uma ilustração de Roger Dean, o “designer oficial” do rock progressivo, e tinha uma série de ligações à então vibrante cena de Canterbury liderada pelos Soft Machine, banda que por esta altura já se socorria dos sopros so grupo de Tippett: não só há o tema título escrito por Hugh Hopper, baixista da Máquina Mole, como se sente a bateria de Robert Wyatt num par de temas.

Musicalmente, Tippett demonstra ser uma verdadeira antena, capaz de captar os avanços do jazz na era pós-Coltrane como também a vibração mais livre do rock, sentindo-se por aqui ecos de gente como Frank Zappa, uma influência notória nos músicos deste terreno misto à entrada da década 70.

À revista Mojo, em 1997, Hugh Hopper confessava a influência de Zappa, sobretudo dos álbuns “Uncle Meat” e “Hot Rats”, e valorizava a música em que se combinava uma «real estranheza e boas composições», ou seja, os improvisos mais aventureiros e as balizas impostas pelo compositor.

“Dedicated to You…” tem ambas as vertentes, uma real química telepática entre músicos carregados de vontade exploratória e a força das composições de Keith Tippett que os anos haveriam de afirmar como uma das mais sólidas assinaturas do jazz britânico.

As experiências de sincretismo conduzidas por Tippett haveriam de se revelar frutuosas, pois vários dos músicos do seu grupo emprestariam os seus talentos aos King Crimson em trabalhos como “Lizard”e “Islands”. O próprio Tippett haveria de tocar nesses álbuns, recrutando depois os talentos de Robert Fripp para a produção de “Septober Energy”, dos Centipede.

Fripp produziria ainda outros trabalhos de Keith Tippett (com os projectos Blueprint e Ovary Lodge) depois do desmantelamento do grupo que gravou estes dois álbuns, em 1971. Com os anos, este pianista acumulou uma larga experiência, trabalhando com diversos grupos e contextos ao mesmo tempo que aprofundava a sua veia composicional, levando o seu jazzismo a viajar entre os terrenos da composição e da liberdade pura, como aconteceu, por exemplo, com os seus Mujician.

 

Para saber mais

www.mindyourownmusic.co.uk/keith-tippett.htm