, 27 de Março de 2017

Jazz em Agosto anuncia programa de peso

Já está anunciado o cartaz da edição de 2017 do Jazz em Agosto, e com o melhor dos arranques: o grupo Sélébéyone de Steve Lehman (foto acima) vai dar o tom ao festival da Fundação Calouste Gulbenkian, este ano com um conjunto de propostas particularmente aliciante. Na intersecção do jazz com o hip-hop, a música que o saxofonista e compositor norte-americano traz consigo será servida a 28 de Julho, no Anfiteatro ao Ar Livre, por dois “rappers” (HPrizm dos Antipop Consortium e Gaston Bandimi, uma estrela do Senegal por cá em revelação absoluta), um segundo saxofone (o soprano de Maciek Lassere) e um trio rítmico formado pelo teclista Carlos Homs, o baixista eléctrico Chris Tordini (o disco debutante do grupo, saído no final do ano passado, inclui Drew Gress) e o baterista Damion Reid. Lehman terá ainda oportunidade, no final da tarde seguinte e tendo como cenário intimista a sala polivalente do Museu de Arte Moderna, de se apresentar a solo com o seu saxofone alto e processamento electrónico em tempo real.

A noite de 29 de Julho estará entregue ao projecto Sun of Goldfinger de David Torn, com dois nomes grandes da cena de Nova Iorque, Tim Berne e Ches Smith,  na companhia do guitarrista escolhido por David Bowie para o seu penúltimo disco. Neste caso, é a influência do rock que se faz sentir. A matiné de domingo dia 30 faz-se com outro guitarrista, Julien Desprez, no formato solo de Acapulco Redux, o mesmo que, à noite, estará integrado na Coax Orchestra de Yann Joussein, formação francesa sustentada no cruzamento referencial dos Prime Time de Ornette Coleman e nos Naked City de John Zorn, a eles juntando elementos vindos do rock progressivo.

O serão de 31 de Julho, segunda-feira, será protagonizado pelo duo improvável de Peter Brotzmann e Heather Leigh, com a sua guitarra “pedal steel”. Se o saxofonista alemão é conhecido pelo seu estilo abrasivo e possante, neste contexto iremos encontrá-lo em situações mais introspectivas e com ressonâncias “folky”. No dia 1 de Agosto é a banda escandinava da portuense Susana Santos Silva que actua, Neste prestação ao vivo de “Life and Other Transient Storms” acompanham a trompetista figuras sonantes do jazz e da música improvisada do Norte europeu como Lotte Anker, Sten Sandell, Torbjorn Zetterberg e Jon Falt. Em celebração da transitoriedade e da efemeridade da própria vida, não serão utilizadas composições escritas.

A 2 de Agosto, Joelle Léandre volta ao Anfiteatro ao Ar Livre com um grupo que ainda não tinha trazido a Portugal, o Sudo Quartet, formado com o violinista Carlos “Zíngaro”, o trombonista Sebi Tramontana e o baterista Paul Lovens, mais uma vez no festival em registo de improvisação livre. Na quinta-feira seguinte, vez para o quarteto escandinavo de Jamie Saft, músico que trabalha habitualmente com John Zorn. Os Starlite Motel têm-no a tocar órgão Hammond na companhia de Kristoffer Alberts, Ingebrigt Haker Flaten e Gard Nilssen, com o jazz a atravessar pontes com o rock e a soul.

Na sexta 4 de Agosto volta a haver um fim de tarde musical no Museu Calouste Gulbenkian, com um solo do contrabaixista Pascal Niggenkemper, um dos mais inventivos da actualidade. À noite, o músico franco-alemão estará entre os elementos dos Fictive Five de Larry Ochs, membro dos muito prestigiados Rova, um super-quinteto que integra ainda o trompetista Nate Wooley, o contrabaixista Ken Filiano e o baterista Harris Eisenstadt. A construção de paisagens imaginárias está no propósito, com inspiração no artista visual William Kentridge e nos cineastas Wim Wenders e Kelly Reichardt.

A matiné de sábado 5 no Museu é nacional, com os Eitr de Pedro Sousa e Pedro Lopes. O primeiro dividir-se-á entre os saxofones tenor e barítono e a electrónica e o segundo tornará os gira-discos num inusitado instrumento de percussão. À noite, sobem ao palco do Anfiteatro os Human Feel de quatro magníficos do jazz americano, Chris Speed, Andrew D’Angelo, Kurt Rosenwinkel e Jim Black. A receita seguida: jazz livre, rock desalinhado e música de câmara contemporânea, num arco de abordagens que pode ir do subtil ao impactante.

O fecho faz-se a 6 de Agosto, domingo, com outra proposta fortíssima: os High Risk do trompetista Dave Douglas, com a electrónica de Shigeto, o baixo eléctrico de Jonathan Maron e a bateria de Ian Chang. Na procura de um caminho próprio no jazz eléctrico, as bases têm-nas o quarteto no Miles Davis do período Bitches Brew / On the Corner e no melhor Jon Hassell. Entre finais de Julho e o início de Agosto, todos os caminhos vão desembocar na Avenida de Berna, em Lisboa.