, 16 de Julho de 2016

Regresso ao tempo dos Plexus e da Anar Band

Na época em que os Plexus introduziam o free jazz em Portugal e a Anar Band dava às novas correntes jazzísticas que sopravam dos Estados Unidos e da Europa um cunho electrónico, havia uma revista de banda desenhada que, tal como a música, veio virar tudo do avesso no nosso país: chamava-se Visão. Não por coincidência, porque nestas coisas da criatividade não há fronteiras, um dos dois nomes maiores da inovação na música da década de 1970, líder do primeiro grupo acima mencionado, teve trabalhos seus naquela publicação, Carlos “Zíngaro”.

Pois acaba de ser editado, pela Chili Com Carne, um livro intitulado “Revisão” que reúne uma selecção de BDs daquela revista histórica, entre as quais algumas de "Zíngaro", ou recuperada de outros suportes, como é o caso de uma prancha apropriada e intervencionada pelo mentor da Anar Band, Jorge Lima Barreto, numa prática então comum entre os artistas e pensadores da Internacional Situacionista. Além deles, constam ainda autores como António Pilar, António Pinho, Bruno Scoriels, Carlos Barradas, Carlos Soares, Fernando Relvas, Gracinda, Isabel Lobinho, J.L. Duarte, João Manuel Barroso, Mário Henrique Leiria, Nuno Amorim, Paralta  & Zé Baganha, Pedro Massano, Pedro Potier, Tito, Zé Paulo (R.I.P.) e Zepe .

Como anuncia a própria editora, este foi o tempo da BD «psicadélica, urbana, cósmica, mórbida, erótica, pessimista, ácida e crítica», tão «yin e yang como foi a década» em que aconteceu o 25 de Abril. Uma coisa é certa: a Visão tinha tudo a ver com o que faziam “Zíngaro” com músicos como Rui Neves (hoje o director artístico dos festivais Jazz em Agosto e Jazz im Goethe Garten), Paulo Gil (agente e programador de festivais, designadamente o Seixal Jazz) e Francisco Trindade (agora conhecido como Monsieur Trinité, percussionista que ouvimos em projectos próprios ou com Sei Miguel e Ernesto Rodrigues) e Barreto com Rui Reininho (depois convertido a vocalista da banda de pop-rock GNR) e, em ocasiões, com Saheb Sarbib (contrabaixista e clarinetista baixo franco-argelino nascido em Portugal e depois naturalizado norte-americano) .

Mais: esta releitura do que foi a Visão ilumina o trajecto posterior de Carlos “Zíngaro”, até se tornar no ícone da música improvisada, da ilustração e da pintura que é actualmente, e o legado que nos deixou o já infelizmente Jorge Lima Barreto, não só musical como também teórico…