Parcerias, 31 de Outubro de 2016

Parcerias

Ver para crer

texto Nuno Catarino

Um novo disco reúne o contrabaixista italiano, residente em Lisboa, Massimo Cavalli e músicos nacionais como Mário Laginha e Ricardo Pinheiro ao histórico Dave Liebman e a Eric Ineke. Aqui se conta como é que isso aconteceu…

São cada vez mais frequentes as parcerias entre músicos portugueses e figuras internacionais de renome. Contudo, não é todos os dias que vemos uma colaboração como esta: Dave Liebman - saxofonista gigante, figura maior da história do jazz - juntou-se a Mário Laginha, Ricardo Pinheiro, Massimo Cavalli e Eric Ineke num inusitado quinteto transnacional. O resultado desta colaboração acaba de ser editado num disco denominado “Is Seeing Believing?”. O contrabaixista Massimo Cavalli, italiano residente em Portugal há largos anos, conta como surgiu o projecto e como se juntaram estes músicos oriundos de mundos diferentes…

«O projecto nasceu depois de uma bela conversa que tivemos eu, Ricardo Pinheiro e Eric Ineke. Eu e o Ricardo somos amigos de longa data e colaboramos em vários projectos; conhecemos o lendário baterista holandês em 2013 na Dinamarca durante o “meeting” da International Association of Schools of Jazz. Com a vinda do Eric à Universidade Lusíada de Lisboa (onde o Ricardo é o coordenador do curso de Jazz e Música Moderna e onde eu lecciono), decidimos que seria uma bela ideia gravarmos juntos.»

A maior surpresa será a presença de David Liebman, saxofonista que integrou o grupo de Miles Davis. O contrabaixista explica como surgiu essa ligação com Liebman: «Pensámos inicialmente gravar em trio, mas depois achámos que faria todo o sentido convidar a fazer parte do projecto o grande David Liebman, director artístico da IASJ, como elo da relação musical e humana que se tem estabelecido e maturado ao longo dos anos entre todos nós.»

Cavalli realça a evolução da sua ligação com David Liebman: «Sempre fui um atento seguidor do seu percurso musical desde os tempos do grupo de Elvin Jones, depois do de Miles Davis e dos Quest e chegando aos seus grupos mais recentes. Sempre gostei muito da linguagem improvisativa pessoal que o Dave desenvolveu, assim como da sua vertente mais estritamente pedagógica, com os inúmeros livros, “masterclasses” e artigos publicados. O meu primeiro contacto pessoal com o Dave foi em 2013 no “meeting” da IASJ e acho que nessa altura criámos uma empatia pessoal e musical que culminou com a gravação deste disco.»

Massimo Cavalli

Dave Liebman

Juntou-se depois o pianista Mário Laginha: «O Ricardo sugeriu a gravação do tema “Beatriz” de Edu Lobo/Chico Buarque e que foi gravado também pela dupla Maria João & Mário Laginha. Assim sendo, também surgiu a ideia de convidar o Mário para a sessão, ele aceitou o convite e assim o quarteto passou a ser um quinteto.»

O alinhamento do disco vai alternando entre originais, clássicos e temas brasileiros. Cavalli explica como chegaram aos temas que compõem o disco: «Pensámos que o repertório deveria conter alguns “standards” do cancioneiro norte-americano, mas também algumas músicas do universo brasileiro - que eu, o Ricardo e o Eric adoramos. Os arranjos foram obra do Ricardo e meus (e alguns fizemos em conjuntos os dois), outros surgiram no dia da gravação (como o “I Remember You”), fruto de ideias de todos os componentes do grupo. Uma vez escolhidos alguns temas que nos agradassem, pensámos na possibilidade de inserir na sessão de gravação alguns originais e assim gravámos o “Is Seeing Believing’” do Dave, o “Ditto” do Ricardo e um tema meu, “Rainy Sunday”. Os temas e o alinhamento do CD ganharam, a meu ver, uma homogeneidade própria, fruto da riqueza artística que se conseguiu criar a partir da interação entre músicos de diferentes nacionalidades e experiências.»

Editado pela holandesa Daybreak, que faz parte do grupo Challenge Records, o disco terá distribuição a nível mundial. Cavalli diz esperar «que haja muitos concertos para divulgar este projecto pelo mundo fora e em Portugal, a fim de ter o privilégio de criar música e partilhar histórias com estes músicos, todos eles incríveis». Agora é ouvir a música e fazer como o desconfiado discípulo Tomé: «Ver para crer.»