Quebra-Jazz, 20 de Setembro de 2016

Quebra-Jazz

Sempre em crescendo

Nuno Catarino

A escadaria que liga a Baixa de Coimbra à zona universitária é palco, todos os anos, de um ciclo de jazz ao ar livre com características sui generis, e isso porque o público se dispõe à frente e atrás dos músicos ou espalha-se pelas varandas e pelas janelas. Aqui se conta como foi a edição deste ano, com palavras do seu programador…

Nas Escadas do Quebra-Costas, no centro histórico de Coimbra, realizou-se este Verão mais uma edição do Quebra-Jazz. Durante todos os fins-de-semana entre 1 de Junho a 3 de Setembro, houve jazz ao ar livre na cidade dos estudantes. Estes ciclos de concertos têm-se realizado desde 2012 e pela edição deste ano passaram nomes grandes do jazz português como Mário Laginha (foto acima, de Márcia Lessa), André Fernandes, Nelson Cascais e Ricardo Toscano.

Miguel Lima, responsável pela iniciativa, revela a origem da ideia: «Desde 2007 que fui organizando concertos nas Escadas do Quebra-Costas com o intuito de dinamizar aquela zona e, gradualmente, fui percebendo que o local tinha uma acústica fantástica e que era um cenário urbano com um grande potencial para este tipo de eventos. Em 2012, em plena fase profunda da crise económica, que se reflectia na redução dos espaços comerciais no local, desafiado pelo meu grande amigo e músico Paulo Bandeira resolvi arriscar e organizar um ciclo de concertos todos os fins-de-semana de Verão.» Desde então, o evento tem-se realizado com regularidade anual, tendo conseguido consolidar as audiências. Para o promotor, o evento tem evoluído ao longo das várias edições «sempre em crescendo, tanto na qualidade da programação como no número crescente de audiência».

Grandes enchentes

Miguel Lima por Henrique Patrício 

A edição de 2016 do Quebra-Jazz arrancou com um trio de veteranos: António Barros Veloso, Bernardo “Binau” Moreira e Manuel Jorge Veloso, um gesto de programação marcado pelo simbolismo. Conta Miguel Lima: «Era algo que ambicionava quase desde do primeiro ano. O simbolismo dos nomes é inegável, pois foi em Coimbra, em 1953, com dois destes grandes senhores - Bernardo “Binau” Moreira e Barros Veloso mais dois músicos brasileiros profissionais –, que se fez a primeira “jam session” fora de Lisboa e foram eles que inauguraram o jazz moderno tocando pela primeira vez o bebop em Portugal.» Em contraponto, esta edição contou também com o quarteto de Ricardo Toscano, altos representantes da mais jovem geração do jazz nacional. Para Lima, «essa é uma das marcas mais importantes da programação, conseguir dar privilégio aos músicos nacionais e conciliar os nomes consagrados com os novos valores que emergem no panorama jazzístico nacional».

Sobre esta edição, Miguel Lima salienta que se assistiram a «grandes enchentes em todos os fins-de-semana, mas devido ao seu mediatismo o trio de Mário Laginha foi o maior sucesso de público» – grupo que vem marcando presença nas Escadas do Quebra-Costas nos últimos três anos de forma consecutiva. O programador salienta também o grande fluxo de público nos concertos de JJBP Quarteto (João Moreira, João Mortágua, Bernardo Moreira e Paulo Bandeira), LiftOff (Jeffery Davis, Óscar Graça, Nelson Cascais e David Pires) e Ricardo Toscano Quarteto. O jovem saxofonista realça que os concertos têm uma magia especial naquela escadaria histórica”». Diz Toscano que «é sempre bom voltar ao Quebra, pois a equipa trata-nos super bem. Um sítio especial numa cidade especial».

Memórias de noites longas

Nuno Costa por Márcia Lessa 

O público também faz parte da festa. Natália Cardoso, jurista, residente em Coimbra, também assistiu ao Quebra-Jazz: «Quando cheguei o concerto já tinha começado, encontrei uma amiga e encaixei-me nas escadas generosas onde cabe sempre mais alguém. Que privilégio ver um concerto na Alta de Coimbra! Um concerto belíssimo no ambiente caloroso e íntimo que as escadas do Quebra-Costas sempre oferecem.»

Márcia Lessa, fotógrafa (e colaboradora pontual da jazz.pt), assistiu a vários concertos do Quebra-Jazz. A sua primeira experiência fez-se com o trio do Mário Laginha: «As escadas transbordavam de gente para os ver e ouvir, quer em frente aos músicos quer por detrás deles. Sim, ali não há um palco convencional, há um patamar entre dois lanços de escadas onde os instrumentos e respectivos músicos se acomodam como podem e onde o público se vai distribuindo, escadas acima e escadas abaixo… mas também pelas soleiras das portas, varandas e janelas!» Lessa acha que foi esse concerto que marcou o início da sua especial relação com o “Quebra”: «Será sempre, para mim, um destino onde irei marcar presença e onde pretendo continuar a construir memórias de noites longas, com boa música, boa companhia e boas conversas.»

Manter a qualidade

Ricardo Toscano por Fernando Nanã Soares 

Na cidade de Coimbra, o Quebra-Jazz convive com o JACC - Jazz ao Centro Clube, que gere o Salão Brazil e promove outras iniciativas ligadas ao jazz (incluindo a jazz.pt). Miguel Lima realça uma «relação de excelência e, acima de tudo, de partilha e articulação»: «O JACC é um elemento de extrema importância para aquilo que é o jazz em Coimbra na actualidade. Criou um caminho e uma programação contínua de música ao vivo que não existia. O Quebra-Jazz nunca pretendeu ser um concorrente, apenas um complemento à divulgação do jazz e dinamização de uma zona da cidade que se presta a este tipo de eventos, com a particularidade de ser em pleno Centro Histórico de Coimbra, recentemente declarado Património Mundial da Humanidade.»

Terá assim a cidade de Coimbra uma boa relação com o jazz? «Coimbra há muitos anos que tem uma programação de jazz assinalável, o que se traduz num cada vez maior número de aficionados deste estilo musical e, inclusive, o surgimento de novos músicos, alguns já com créditos firmados, como é o caso do Luís Figueiredo, João Firmino, João Freitas e novos valores a despontarem, como João Fragoso e Guilherme Melo.» Sobre o público conimbricense, Lima tem apenas uma pequena crítica: «Peca, às vezes, por não fazer o silêncio necessário em alguns momentos para se poder ouvir com atenção, talvez por serem concertos na rua, gratuitos, e não perceberem a qualidade do que lhes é apresentado. Felizmente não é regra, acontece apenas em noites pontuais.»

Para os próximos tempos, Miguel Lima quer continuar a mostrar o que de melhor se vai fazendo no jazz em Portugal. Nas suas palavras: «Elevar ou, pelo menos, manter a grande qualidade na programação, pois a fasquia já está bastante elevada. Sempre que possível, divulgar os nomes emergentes e trazer grandes nomes.» No próximo Verão lá estaremos para confirmar.