Pedro Costa, 14 de Setembro de 2016

Pedro Costa

Pedro, o Louco ou Pedro, o Grande?

texto Vítor Rua

Não é habitual. Um dos nomes maiores da música que, em Portugal, vem recorrendo à improvisação, Vítor Rua, escreve nas linhas abaixo um elogio ao editor que conseguiu o inimaginável – criar uma etiqueta portuguesa dedicada ao jazz que é considerada como uma das mais importantes do mundo, a Clean Feed.

«I may be totally wrong, but I'm a fool, uh!» (Frank Zappa). Que nome dar a alguém que, em pleno século XXI, tivesse a ideia de abrir uma editora de discos (LPs e CDs) em Portugal, numa era em que se escuta música em telemóveis, MP3 ou “laptops”, e em que se obtém essa mesma música gratuitamente na Internet? E como chamaríamos a uma pessoa que, além dessa concretização, também tivesse como objectivo fazer chegar a todos os cantos do mundo música feita por portugueses – muitos deles totalmente desconhecidos fora de Portugal ou mesmo em Portugal?

E se, ao mesmo tempo, quisesse trazer e convencer músicos estrangeiros – de renome internacional ou até então desconhecidos – a colaborarem / tocarem / gravarem com músicos portugueses ou mesmo a criarem bandas “inexistentes”, juntando, num mesmo disco, músicos dos quatro cantos do mundo? Imaginemos que essa pessoa ainda iria mais longe, querendo que a editora se especializasse num jazz mais “experimental” ou na música improvisada total, ou seja, escolhendo uma via logo à partida sabida por todos nós como sendo “não comercial”? Como titularíamos ou caracterizaríamos tal pessoa? Eu creio que a resposta a estas três questões se pode resumir numa só palavra: “louco”!

Só um “louco”, ou alguém aparentemente com uma noção muito “naif” da realidade, se lembraria de abrir uma editora deste tipo, com aquele tipo de música, com aquele género de músicos, quando até as multinacionais estão em crise e todo o negócio de venda de música, seja em suporte físico ou digital, é altamente comercial – tipo “X Factory” –, ou seja, uma música muito populista e comercial, e está numa crise absoluta a nível mundial.

 Ora, essa pessoa existe, é portuguesa, concretizou tudo o que foi dito nos parágrafos anteriores, realizou tudo o que “sonhou”, e com um sucesso internacional excepcional. Rreconhecido pelos seus pares como um dos melhores editores do mundo, de “louco” tem muito pouco. Essa pessoa é Pedro Costa! Tinha um sonho e pô-lo em prática contra tudo e contra todos, lutou, venceu e convenceu.

Império maravilhoso

 

A sua editora, a Clean Feed, é hoje uma referência no jazz / improvisação mundial, os seus discos são vendidos em todo o mundo, com críticas em revistas internacionais de alto prestígio sobre a qualidade das suas edições (sejam de músicos portugueses, estrangeiros ou um misto das duas coisas). Ainda este ano, a Clean Feed foi galardoada como sendo a sexta melhor editora do mundo na especialidade do jazz, pela mais importante das revistas dedicadas ao género, a Downbeat.

Em pouco mais de uma década, Pedro Costa construiu um império maravilhoso de discos – muitos deles construídos à sua maneira, funcionando assim como produtor musical –, discos esses que são feitos por músicos, músicos esses que são de diversas nacionalidades e que, de comum, têm todos a gratidão, por em certa altura das suas vidas, o Pedro ter surgido e lhes ter dado a oportunidade de se projectarem. Seja essa projecção para algo mais do que aquilo que já tenham conquistado, no caso de músicos já com um trajecto musical traçado, ou de os dar a conhecer ao mundo – no caso de músicos em início de carreira ou que, por variegadas razões, ainda não tinham tido a oportunidade de dar a conhecer a sua obra.

Sabendo que, com uma editora com este prestígio por detrás, têm a chance de chegar onde nunca poderiam sem a Clean Feed: a críticos de renome internacional, a revistas internacionais que são um marco deste estilo musical, a músicos de todos os estilos musicais, e, finalmente, a todo o público. Ainda há poucos dias, o meu amigo e grande percussionista Luís San Payo estava em Tóquio, entrou numa das melhores lojas de discos da cidade e lá estavam expostos, com relevo, os discos da Clean Feed!

Músicos de renome internacional agradecem-lhe ao vivo, antes dos seus concertos, a oportunidade que lhes deu! Eu tive o prazer e a honra de ser editado por ele em 2003, com o meu duo Telectu com Jorge Lima Barreto, naquele que viria a ser o nosso último disco. Embora os Telectu já tivessem uma carreira com mais de 20 anos, este disco – talvez o mais importante na carreira Telectu – projectou ainda mais o nosso nome, especialmente no estrangeiro, com críticas em revistas de prestígio e por críticos de qualidade comprovada. Os músicos que o Pedro edita convivem com ele em festivais, na sua casa, nas casas deles, falando de coisas da vida e de música. São seus Amigos! Pedro Costa criou uma Família! Uma “família” que ele “cuida” como se fossem os seus “filhos” ou “pais” e “irmãos”, só que uma família “musical”.

Se há uma coisa que deixa Pedro Costa “irritado” – actualmente já nem tanto, porque já ouviu isso muitas vezes! – é quando lhe dizem que a editora dele é de “free”! Actualmente, já ri e brinca com a situação mas… na realidade, que tipo de música e de músicos escolhe o Pedro para a sua editora?… Em vez de vos responder como musicólogo e especificar uma tipologia musical, prefiro contar-vos uma história que, creio, descreve na perfeição o tipo de música e músicos que o Pedro pretende na sua “Família”.

«Deus falou»

 

A história começa há muito, muito tempo atrás, num templo budista japonês onde todos os anos era organizado um festival de música para flauta. Num desses festivais foi convidado a tocar um mestre flautista de uma província longínqua, que tinha inventado uma nova flauta e criado uma nova técnica de tocar. Um a um, os flautistas foram dando o seu concerto até chegar a vez do mestre. Ele tocou a mais bela melodia que alguém já tinha escutado. No final fez-se silêncio e ouviu-se a voz do monge ancião: "Deus falou.» 


No dia seguinte, os monges reuniram-se para decidir que discípulo iriam enviar para aprender essa nova técnica com o mestre e escolheram um jovem virtuoso, pois assim teria mais tempo para aprender. E partiram os dois para a província do mestre flautista. Na primeira aula, o mestre deu ao discípulo uma melodia muito simples para ele aprender e tocar. O aluno esteve um dia inteiro a praticar e, no dia seguinte, foi a casa do mestre e tocou a música. O mestre disse: «Falta-lhe algo.» O aluno regressou a sua casa e, desta vez, praticou durante uma semana inteira. De novo foi a casa do mestre e voltou a tocar a peça. O mestre disse-lhe: «Falta-lhe algo.»

O pobre jovem ficou muito triste consigo próprio. Não estava a conseguir realizar o que lhe tinha sido pedido. Voltou a praticar mas desta vez durante um mês inteiro, quase sem dormir. Foi a casa do mestre e voltou a tocar-lhe a melodia e de novo o mestre lhe disse: «Falta-lhe algo.» Aí, o aluno desesperou. Meteu-se no saké e tornou-se num bêbado e vagabundo. Tinha perdido a "face". Quando, anos mais tarde, regressou à sua aldeia, foi viver afastado de todos no cimo de uma montanha e lá ficou isolado, envergonhado.


Num certo ano em que se ia organizar mais um concerto, um monge idoso recordou aos outros monges mais novos que ali na montanha vivia um flautista virtuoso e pediu-lhes  para o irem convidar. Este, sem nada mais a perder, aceitou quase instintivamente o pedido, e pegando na primeira flauta que apanhou, partiu para o templo.
Chegado lá, ficou atrás do palco em silêncio e sem falar com ninguém e ninguém ousou também falar com ele. Um a um, os flautistas foram dando os seus concertos, até que chegou a sua vez. Ao subir para o palco, reparou que com a pressa tinha pegado na flauta nova que o mestre lhe tinha oferecido e que ele nunca tinha tocado antes. Pegou na flauta e tocou a melodia que o mestre lhe tinha ensinado.
No final, fez-se um silêncio e o monge mais ancião disse: «Deus falou!»

Serve esta lenda antiga chinesa para exemplificar, por um lado, o que são a “improvisação”, a “intuição” e a “espontaneidade”, produzidas por um restrito número de músicos que se dedicam a criar algo que não nos deixa nunca de surpreender. E, por outro, para referir que quando o Pedro escolhe os músicos e esses músicos fazem música para a sua editora, então, quando depois ouvimos os discos, parece-nos ouvir a voz do monge ancião a sussurrar-nos ao ouvido: «Deus falou!»

Boa onda

 

 E Deus “fala-nos”, também, da “boa onda” que Pedro Costa transmite, que  não é a postura convencional de um editor. O Pedro é tudo menos “mainstream”! O Pedro não é “arrogante” ou “pretensioso” – e bem que o podia ser, por já ter conquistado tanto e em tão pouco tempo! – e está-se a marimbar para o “politicamente correcto” ou para o que os outros – os menos informados ou os mal-intencionados – pensam dele. No seu enorme altruísmo, não se importa de ajudar para que outros festivais de jazz ou de música improvisada se realizem, fazendo trabalhos que ele não necessitava de fazer mas faz, porque conhece bem os músicos com quem tem de lidar e sabe, melhor que todos, a melhor forma de os tratar com dignidade, amizade e respeito.

Os que lhe pedem colaboração só têm de estar gratos por terem uma pessoa com aquela dimensão, rectidão e qualidade a ajudá-los a concretizar os seus objectivos, os quais, sem ele, procurariam atingir em condições deficitárias ou até sem competência. Pedro Costa – que em Portugal podemos ver a colaborar com vários festivais que por cá se realizam – é convidado pelos melhores festivais estrangeiros como programador, como é o caso do Festival de Jazz de Liubliana.

Mas voltemos por momentos ao título deste artigo: “Louco” ou “Grande”? O Pedro é a pessoa mais honesta e simpática que eu conheço no que à música e aos músicos diz respeito! Diz o que pensa e faz o que quer (sempre agindo em prol dos músicos, da música e da sua editora). Ele não é “louco” e não quer ser “grande”!  Ele é – quer queira quer não – uma pessoa generosa, inteligente, com um enorme sentido de humor e, acima de tudo, com altruísmo. Aliás, a palavra “altruísmo” deve ter sido inventada para o caracterizar. Quem se aventura – como ele -- numa viagem por todos considerada de “alto risco”, “uma loucura” ou “uma catástrofe financeira”, só pode ter, dentro de si, uma força e uma capacidade de sonhar acima da média dos demais “colegas” de outras editoras, que não arriscam um décimo do que ele faz.

E quem é que ganha com esta “generosidade altruísta”? Ganha a Música – porque vê serem inscritos na sua história mais nomes de músicos que vão acrescentar uma mais-valia ao cânone estabelecido. Ganham os músicos – que, ou vêem pela primeira vez o seu trabalho editado e reconhecido, ou reforçam a sua obra musical com historial já consagrado. Ganha o público – que pode ver projectos únicos nascidos da mente do Pedro e outros em que os músicos realizam obras quase feitas por encomenda para a sua editora, e cujo público não encontraria, nem encontra, esse tipo de músicos e música noutras propostas editorais. E ganha também, a vontade e o direito que TODOS temos de sonhar, versus a negatividade / mediocridade formatada pelas nossas sociedades altamente capitalistas, direccionadas para o lucro, a competitividade e a ganância. 

De um traço só

 

Para vos explicar melhor em que se tornou o “sonho” do Pedro – a Clean Feed –, recorro de novo a uma história passada na Antiga China, onde um Imperador soube da existência de um excelente pintor chinês e logo quis ter uma pintura dele. Com essa intenção, dirigiu-se com a sua corte a casa do famoso artista e pediu-lhe uma pintura de uma tartaruga, ao que o pintor respondeu: «Preciso de três anos, 100 barras de ouro, 50 mulheres, um palácio e boa comida.» O Imperador acedeu.

Passados três anos, o Imperador foi a casa do pintor para ver a sua pintura. Foi então que o pintor lhe disse que ainda não tinha o quadro pronto e que necessitava de mais três anos, mais ouro, mais comida e mais mulheres. O Imperador, irritado, disse-lhe: «Dou-te isso tudo, mas se daqui a três anos não tiver o quadro, serás morto.» Passado esse tempo, lá voltou o Imperador a casa do pintor. Chegado lá, viu uma tela em branco. Perguntou, zangado, ao pintor: Onde está a  minha tartaruga?"» O pintor pegou no pincel e, de um traço só, desenhou a mais bela tartaruga que alguém alguma vez tinha visto. Perguntou-lhe o Imperador: «Se fizeste essa pintura em segundos, e só de um traço, porque é que me pediste seis anos para a desenhares?» Ao que o pintor respondeu: «Porque, primeiro, precisava de saber o que é uma tartaruga.»

A editora do Pedro foi criada “de um traço só” – tal como a tartaruga –, nele “desenhando” a mais extraordinária editora que alguém alguma vez sonharia  imaginar existir em Portugal! Antes da sua criação, Pedro Costa deve ter estudado o “terreno”, investigado a “história editorial” do mundo inteiro, analisado as obras de inúmeras editoras olhando em pormenor para as capas dos seus discos, os “booklets”, os textos e o grafismo das capas, para poder entender – tal como o virtuoso pintor chinês – “o que éuma editora”! A Clean Feed representa actualmente o que de melhor se faz em Portugal no domínio de certo jazz e de alguma música improvisada, e promove e dignifica a Música e os músicos portugueses de forma exemplar, em Portugal e no resto do mundo, o que deveria fazer dela uma editora com direito a apoios do Estado, por concretizar uma função cultural que deveria ser desempenhada pelo Estado mas que este não realiza – de recordar o fim da Discoteca Básica Nacional.

Pedro não é “louco” nem pretende ser “grande”, é “apenas” um excelente editor / programador, que teimou em sonhar aquilo que poucos ousariam pensar, e com isso deu-nos uma enorme lição: “sonhar que podemos sonhar”.

 

P.S.: Creio ser cada vez mais necessário, importante e urgente que os portugueses dêem valor àquilo que é deles. Desse modo, penso que artigos  como este deveriam multiplicar-se noutros campos e profissões ligadas às artes musicais, pois se é importantíssimo falarmos dos músicos e da sua música, também já é tempo de manifestarmos o nosso apreço pelos melhores promotores, agentes, produtores, críticos, “roadies” e engenheiros de som, pois são todos eles que fazem com que a Música exista!