Percussionistas brasileiros no jazz, 30 de Agosto de 2016

Percussionistas brasileiros no jazz

Vieram para ficar

texto Fabricio Vieira

Não, a presença de dois percussionistas do Brasil na Large Unit de Paal Nilssen-Love (vimo-los e ouvimo-los no recente Jazz em Agosto) não é um caso excepcional. Desde a década de 1970, pelo menos, que o jazz conta com o seu contributo, tal como nesta prosa refere o nosso correspondente em S. Paulo, destacando alguns dos seus nomes maiores…

Quem ouviu “Ana”, último disco da Large Unit, se deparou com novos elementos sonoros adicionados ao grupo comandado por Paal Nilssen-Love. Isso é destacado especialmente na faixa “Rio Fun”, a mais extensa do álbum, que abre com um ritmado som de berimbau. Mas o estranhamento não se restringe a esse instrumento afro-brasileiro tão ligado à cultura popular. Cuíca, caxixi, tamborim e triângulo também surgem, dando um colorido diferente à energia característica da Large Unit. Nos créditos, quem acompanha o universo do percussionista norueguês se deparou com dois nomes provavelmente desconhecidos: Paulinho Bicolor e Celio de Carvalho, dois brasileiros escalados por Nilssen-Love para trazer um colorido diferente a sua nova criação.

Esse tipo de associação, no entanto, não chega a ser novidade: a participação de percussionistas brasileiros no universo do jazz mais criativo data de muito, tendo ganhado relevância na década de 1970. De um modo geral, esses percussionistas trilharam um caminho similar: primeiro, se desenvolveram musicalmente em meio a um (ou mais) dos variados estilos musicais brasileiros (samba, bossa nova, MPB, maracatu, samba-jazz, choro e outros tantos); em busca de novas oportunidades e desafios artísticos, seguiram para o exterior, principalmente os Estados Unidos; com seu arsenal percussivo, mergulharam no universo do jazz, em muitos casos se associando ao free e à fusion.

Com  instrumentos comuns à música popular do Brasil, mas que soavam estranhamente exóticos no exterior – ritmos e sonoridades distintos dos levados pelos percussionistas latino-americanos que haviam adentrado o mundo do jazz décadas antes –, os brasileiros encontraram rapidamente seu espaço naquele cenário: berimbau, cuíca, reco-reco, tamborim, repique, caxixi, triângulo, pandeiro, alfaia, ganzá, agogô, dentre outros instrumentos, compunham as “barracas de percussão” que esses músicos passaram a armar no palco para compartilhar suas habilidades com jazzistas de diferentes perspectivas.

Conta-se que a categoria de melhor percussionista na votação anual dos críticos da revista Down Beat (o famoso “Critics Poll”) foi criada na década de 1970 motivada pela repercussão do trabalho de Airto Moreira (foto acima) à época. E a categoria acabaria, de fato, dominada pelos brasileiros, de sua criação até meados dos anos 90, sendo Airto premiado pela Down Beat por doze vezes, seguido por Naná Vasconcelos, que ganhou o Critcs Poll como melhor percussionista em oito oportunidades; mais recentemente, o destaque fica com Cyro Baptista, que foi eleito “rising star” na percussão em 2003, para depois vencer a categoria principal em 2011 e 2013.

No clássico “The Jazz Book”, de Joachim-Ernst Berendt, podemos ler: «Os ritmos brasileiros são brandos, afetuosos, elásticos, menos agressivos que os cubanos. Por essa razão, os percussionistas brasileiros puderam criar uma integração perfeita entre os ritmos de jazz e a música latina, tão perfeita que é praticamente impossível distinguir o que vem do jazz e o que vem do Brasil.»

Para nunca mais retornar

Airto Moreira 

Foi Airto Moreira quem iniciou o boom de percussionistas brasileiros no jazz. Airto, um baterista que vinha se destacando no Brasil com seus grupos Sambalanço Trio e Quarteto Novo, foi para os Estados Unidos no fim dos anos 1960 junto com sua companheira, a cantora Flora Purim. Diz ele que a intenção era ficar pouco tempo por lá, algumas semanas talvez, mas as coisas foram acontecendo e acabou por nunca mais retornar para viver no Brasil. Depois de um início difícil, com muita dificuldade para arranjar trabalho como baterista, passou a se aproximar aos poucos da cena jazzística, onde foi gradativamente tendo oportunidade de apresentar sua criatividade percussiva.

Sua primeira aparição de destaque nesse meio foi em “From the Hot Afternnon”, de Paul Desmond, disco em que o saxofonista demonstra seu apreço pela música brasileira e no qual Airto toca bateria e percussão. Mas seria outra colaboração na mesma época que definiria seu papel no meio jazzístico: em agosto de 1969, Airto entra em estúdio convidado por Wayne Shorter, que gravava na ocasião “Supernova”. Aqui, Airto deixa a bateria de lado e toca apenas percussão.

Não tardaria para que fosse apresentado a Miles Davis, que buscava um percussionista para adicionar a suas novas experiências no nascente universo fusion. Munido de berimbau, cuíca e outros aparatos percussivos, ele participaria da sessão comandada por Miles em 19 de novembro de 69, em que foram registradas as faixas “Great Expectations” e “Yaphet”, que seriam lançadas um pouco mais à frente como parte do álbum “Big Fun”. O resultado agradou o trompetista, que o integrou a seu grupo, no qual tocou regularmente até 1972, aparecendo em discos como “Live-Evil” e “Black Beauty”.

Um documento interessante da época é o registro em vídeo realizado em agosto de 1970 no Isle of Wight Festival, em que é possível observar bem Airto em ação, já muito confortável explorando sua barraca de percussão ao lado do trompetista. Essa associação com Miles marcaria profundamente o som do percussionista, que participaria de alguns dos projetos mais interessantes ligados à fusion no início dos anos 70, gravando com John McLaughlin (“My Goal’s Beyond”) e fazendo parte das primeiras formações do Weather Report e do Return to Forever, de Chick Corea.

Airto teria ainda a oportunidade de gravar com jazzistas de diferentes perfis, como Frank Foster (“The Loud Minority”), Gato Barbieri (“Under Fire”), Joel Farrell (“Outback”), Freddie Hubbard (“First Light”) e Cannonball Adderley (“The Black Messiah”), sempre adicionando seu amplo aparato percussivo, de colorido único. Sua carreira solista também ganharia relevo nos EUA dos anos 70, quando lançou os elogiados álbuns “Seeds on the Ground” e “Free”. Ainda em atividade, Airto permanece vivendo nos Estados Unidos, gravando esporadicamente (ele diz que prefere os palcos ao estúdio) e apresentando seu universo percussivo mundo afora.

Viajaramo mundo

Naná Vasconcelos

Outro percussionista que chegou aos Estados Unidos ainda nos anos 1960 foi Dom Um Romão (1925-2005). Sua história é um pouco diferente da de Airto Moreira. Vindo do Rio de Janeiro, Romão esteve envolvido com os tempos iniciais da bossa nova, sendo um de seus principais bateristas. Seria exatamente a bossa nova que o levaria aos EUA, onde participou da gravação do clássico álbum “Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim”, registrado em 67. Fazendo parte do conjunto do pianista e arranjador Sergio Mendes, viajou o mundo e aproveitou a fama que a bossa nova ainda gozava naquele tempo. Mas Romão queria outros desafios e foi se envolvendo aos poucos com a cena jazzística e deixando a bossa nova para trás.

Como Airto, se aproximou do pessoal da fusion e passou a dar mais ênfase à percussão do que à bateria. Sua primeira associação importante foi com o Weather Report, com quem excursionou pelo Japão em janeiro de 72 e gravou os álbuns “Sweetnighter” e “Mysterious Traveller”. Depois trabalhou com artistas de perspectivas jazzísticas diversas, a destacar Yusef Lateef (em “The Doctor is In... and Out”), Norman Connors (“Slew Foot”), Anette Peacock (“I’m the One”) e Collin Walcott (“Grazing Dreams”). Também subiu ao palco ao lado de figurões como McCoy Tyner, Donald Byrd e Ron Carter. Romão registrou alguns discos como líder, em que funde suas pesquisas percussivas com elementos jazzísticos e brasilidades, sendo talvez seu principal testemunho o álbum “Spirit of the Times”, editado pela Muse Records em 1975.

Naná Vasconcelos (1944-2016) foi outro percussionista que viveu fortemente as vias mais inventivas do jazz. Natural de Pernambuco, conheceu o saxofonista argentino Gato Barbieri no final dos anos 60 no Rio de Janeiro, sendo convidado por ele para participar de uma turnê na Europa. A viagem o levaria a viver por cerca de duas décadas no exterior, primeiro em Paris e depois em Nova York. Vasconcelos tocava uma série de instrumentos de percussão, mas era mestre indiscutível do berimbau. Esse instrumento tão comum na cultura popular brasileira despertou verdadeiro interesse no exterior, dado seu som único e exótico.

Para o instrumento, Vasconcelos escreveu «um concerto», como ele dizia, singelamente chamado de “O Berimbau”, que aparece no disco “Saudades”, editado pelo ECM em 79. A longa faixa, de quase 20 minutos, traz Naná solando lindamente no berimbau, acompanhado em algumas passagens por membros da Radio Symphony Orchestra de Stuttgart. Os primeiros anos de Vasconcelos no exterior nos anos 70 foram marcados por associações com diferentes músicos criativos, com quem gravou vários álbuns, parte deles nunca reeditados.

Após sua associação com Barbieri, registrada nos discos “Fenix” e “El Pampero”, Vasconcelos gravou com o trompetista Baikida Caroll (“Orange FishTears”), com o cantor Leon Thomas (“Gold Sunrise on Magic Mountain”), com Don Cherry (“Organic Music Society”), Joachim Kuhn (“Hip Elegy”), Perry Robinson (“Kundalini”), Dwight Andrews (“Mmotia, The Little People”) e Mark Helias (“The Current Set”). Especial destaque na sua trajetória foi o projeto Codona. Trio formado em 1978, o Codona trazia Naná Vasconcelos ao lado de Don Cherry e Colin Walcott – da primeira sílaba de seus nomes vinha “Codona”. O trio acabou em 1984, quando Walcott morreu, e deixou três saborosos registros, editados pelo selo ECM, em que demonstram uma sonoridade chamada por alguns de world jazz, em que fundem elementos africanos, orientais e jazzísticos, em uma música por vezes contemplativa e sempre encantatória.

Após mais de duas décadas no exterior, Vasconcelos acabou retornando ao Brasil, onde morreu em março deste ano, deixando também importantes discos solistas, em que a fusão entre ritmos brasileiros e improvisação nunca foi tão bem explorada.

Novos sons

Elson Nascimento com sun Ra 

Guilherme Franco também se fixou nos Estados Unidos nos anos 1970 e se integrou rapidamente à cena jazzística. Vindo de São Paulo, Franco tinha experiências musicais variadas no Brasil, destacando-se as pesquisas feitas com o pioneiro Grupo Experimental de Percussão, que criou ao lado de Zé Eduardo Nazário para explorar elementos percussivos da música contemporânea em simbiose com a cultura tradicional brasileira. Pouco depois de desembarcar em Nova York, em 1972, Franco entrou em estúdio para sua primeira experiência internacional. A sessão era comandada pelo saxofonista Archie Shepp e renderia o álbum “The Cry of My People”. Com seu berimbau, ao lado do percussionista Nene DeFense, Franco participou da faixa “African Drum Set”.

Nos anos seguintes, iniciaria parceria duradoura com dois dos pianistas mais famosos do jazz, McCoy Tyner e Keith Jarrett. Com Tyner, que acompanhou até meados dos anos 80, gravou álbuns como “Focal Point” e “The Greeting”. Com Jarrett, trabalhou entre 73 e 76, integrando seu American Quartet e participando dos discos “Treasure Island”, “Death and the Flower”, “Mysteries” e “Shades”.  Com esse grupo, Franco ampliou ainda mais seu arsenal percussivo, chegando a utilizar também elementos extra-musicais para criar sons novos, como chaves e colheres de pedreiro. Nos anos seguintes, trabalharia ainda com Arthur Blyte (em “Lenox Avenue Breakdown”), Saheb Sarbib (“Aisha”), Lonnie Liston Smith (“Renaissance”), Woody Shaw (“Love Dance”), Carlos Garnett (“Black Love”), Ivo Perelman (“Children of Ibeji”, “Man of the Forest”) e Don Pullen (“Kele Mou Bana”).

Uma outra figura que fez percurso semelhante foi Elson Nascimento, que se juntou a Sun Ra Arkestra em 1987 e permanece com esta até hoje. «Eu saí de São Paulo, Vila Maria, trabalhei por seis anos com grupos brasileiros [nos EUA], até que um dançarino da Arkestra levou Sun Ra e Marshall Allen para ver nosso show. Depois do show fomos conversar com ele, que nos convidou para participar de alguns concertos em grandes festivais, Detroit e Chicago, eu e dois capoeiristas... Nunca tinha ouvido falar em Sun Ra [antes disso]...», conta Elson, especializado em tocar surdo. Apesar de ter conhecido Sun Ra (1914-1993) já no fim de sua vida, teve a oportunidade de trabalhar diretamente com o ícone por algum tempo, gravando a seu lado os álbuns “Blue Delight” e “Purple Night”.   

Atualmente, sem dúvida o percussionista brasileiro de maior destaque é Cyro Baptista. O músico de São Paulo desembarcou nos Estados Unidos no início dos anos 1980, após conseguir uma bolsa para estudar no Creative Music Studio, em Woodstock. Depois dessa experiência, migrou para o Lower East Side, em Nova York, onde sua carreira internacional teria início.

«O Lower East Side é uma área de NY que nos anos 80 era bem favelística, e os músicos que não participavam dos padrões da cena musical daquela época acabaram se mudando para lá, onde os aluguéis eram mais baratos e foi onde e quando se formou esse movimento chamado “downtown music”, encabeçado por John Zorn, Marc Ribot, Laurie Anderson e outros, inclusive eu. Para mim foi uma porta nova que se abriu e, como percussionista brasileiro, não tinha a obrigação de botar um abacaxi e bananas na cabeça toda vez que subia no palco», diz Baptista.

A associação com John Zorn, de quem se aproximou ainda em seus primeiros tempos de Nova York, faria seu nome conhecido no meio da free music. Com o saxofonista, gravou álbuns como “Film Works”, “Cobra” e “Interzone”. Também passou a fazer parte de grupos comandados por Zorn, como o Electric Masada e o Bar Kokhba Sextet. Zorn retribuiria participando do primeiro álbum solo de Baptista, “Vira Loucos” (97), que contou também com Marc Ribot e Greg Cohen. A ligação com Zorn segue até hoje. Um dos últimos registros de Baptista com seu grupo Banquet of the Spirits, “Caym”, é composto apenas por composições de Zorn, por peças que fazem parte da série “Book of Angels”.

Destaque na discografia de Baptista são os dois duos registrados ao lado do guitarrista britânico Derek Bailey. Baptista conheceu Bailey no início de sua trajetória nos EUA e passaram a improvisar juntos sempre que tinham oportunidade, até decidirem gravar algo. A primeira parceria, “Cyro”, data de outubro de 82, tendo sido realizada em Nova York e depois editada pelo selo Incus. O segundo registro, “Derek”, apenas ocorreu duas décadas depois, em abril de 2003, tendo sido captado ao vivo no Tonic, no que seria o último encontro entre os dois músicos. Baptista gravou também com artistas como Laurie Anderson (“Bright Red”), Geri Allen (“Eyes in the Back...”) e James Carter (“Chasin’ the Gypsy”), além de tocar com músicos de outras searas, como Paul Simon e Yo-Yo Ma.

Há ainda o caso particular de Antonio Panda Gianfratti, um dos raros percussionistas do país que se dedica integralmente à improvisação livre. Apesar de viver no Brasil, Gianfratti tem tocado na última década com diferentes nomes da free music internacional, especialmente europeus, como Hans Koch, John Edwards, Veryan Weston e Trevor Watts.

E ainda…

Paulinho Bicolor 

A lista poderia seguir ainda com alguns outros nomes que, de alguma forma, levaram a percussão brasileira para o exterior. Paulinho da Costa, por exemplo, tocou com importantes jazzistas a partir dos anos 70, como Dizzy Gillespie, Milt Jackson e Freddie Hubbard, mas acabou conhecido mesmo por virar um requisitado músico de estúdio em Los Angeles, aparecendo em álbuns de astros pop como Michael Jackson e Madona.

Mais alguns que trabalharam pontualmente com o universo jazzístico internacional, mas que desenvolveram sua música principalmente no país, e merecem ser citados são Duduka da Fonseca, Caíto Marcondes, Armando Marçal, Djalma Correa, Papete, Marcos Suzano, Zé Eduardo Nazário, dentre outros que em algum momento podem aparecer de surpresa em um disco que estejamos ouvindo, como Paulinho Bicolor e Celio de Carvalho...