Sonoscopia, 3 de Fevereiro de 2016

Sonoscopia

Casa aSOMbrada

texto Rui Eduardo Paes

É um caso único a nível nacional, beneficiando da propensão dos portuenses para se juntarem e fazerem coisas em conjunto. Associação porque assim a burocracia obrigou, mas já antes um colectivo, tem residência no nº 33 da Rua da Prelada e a partir daí espalha os seus tentáculos ou... solta balões. A jazz.pt foi visitá-la, para perceber melhor o que ali se passa…

A fachada do prédio e a sua porta verde não permitem adivinhar o que está lá dentro. Subimos umas escadas e, no longo corredor, as entradas dão para vários pequenos estúdios, bem equipados («umas máquinas são nossas, outras foram colocadas aqui pelos próprios músicos», ficamos a saber), e para um escritório. Finda a travessia, há uma cozinha à esquerda e um cubículo à direita onde estão tanto uma serra eléctrica como um frigorífico cheio de cervejas. Adiante, aparece uma sala maior, aquela onde habitualmente se realizam os concertos. Cobrindo uma parede está uma estante onde foram colocados objectos de vária índole que têm como característica produzirem som, desde pedras e molas metálicas a altifalantes e gira-discos. Parece um cemitério de quinquilharia, mas não está morto – é dali que vêm os materiais com que se fazem instrumentos nos “workshops” e que alimentam os arsenais do Srosh Ensemble e da Nova Orquestra Futurista do Porto. No fundo, lá fora, vê-se um enorme pátio, com mesas e cadeiras. Subindo mais um lance de escadas, num segundo andar em jeito de águas-furtadas, encontramos os quartos destinados aos músicos de visita. Estamos na sede da Sonoscopia, um antigo infantário que, curiosamente, se enche volta e meia de crianças.

A Sonoscopia é, porém, mais do que a Sonoscopia que se materializou num prédio. A associação do Porto dedicada às músicas improvisada e experimental começou antes de começar e é mais do que aquilo que acontece nas suas instalações na Rua da Prelada, ao Largo do Carvalhido. De certo modo, já existia antes mesmo de ter início oficial, quando há quatro anos foi necessário legalizá-la para que um projecto pudesse ser apresentado nas Manobras do Porto. A semente estava lá, entre os músicos que se juntavam para tocarem num concerto ou desenvolverem algo de mais ambicioso associando criação de novos instrumentos e formação infantil, recolha de paisagens sonoras e trabalho colectivo. Muito particularmente, a Sonoscopia era já o que fazia o Srosh Ensemble, nos tempos em que este ensaiava na Sala 307 do Stop, reunindo nomes como Henrique Fernandes, Gustavo Costa, Alberto Lopes, João Pais Filipe, André Coelho, João Martins, João Ricardo, Jonathan Uliel Saldanha, Jorge Queijo e mais uns quantos.

Falar da Sonoscopia como um todo acaba por implicar os percursos individuais dos seus membros e dos seus colaboradores, somando estes entre 20 e 30, assim como obriga a referir uma outra célula dinamizadora da Cidade Invicta, a Soopa, porque muitos dos elementos de uma e outra são os mesmos. Supõe referir também o que acontece em outros espaços, sejam neutros ou de recepção, mediante parcerias com a Casa da Música, a Porta-Jazz (Susana Santos Silva pertence “à casa”), as Oficinas do Convento em Montemor-o-Novo ou o Salão Brazil em Coimbra. A Sonoscopia está por estes dias, literalmente, em todo o lado, reflectindo-se na musicação de um espectáculo de teatro, numa tese de doutoramento sobre expressão quando se improvisa com um computador (tema escolhido por Gustavo Costa, o rosto principal deste empreendimento) ou até na produção de uma figura histórica do rock como Alexandre Soares, fundador dos GNR, presença habitual nos estúdios. 

Balões que juntam

 

Há uma história que define muito bem o espírito que vem conduzindo a Sonoscopia, no que este tem de mais agregador. Em 2014, decidiu-se editar de forma inusitada, porque apenas destinada a cinco ouvintes, um registo da actividade da Nova Orquestra Futurista do Porto, iniciativa do Srosh Ensemble em homenagem a Luigi Russolo. Colocou-se uma banda magnética e uma folha com instruções em cinco balões que foram soltos no céu do Porto. No texto, dizia-se a quem encontrasse os ditos que montasse a fita num chassis de cassete. O único conteúdo era um “link” para ouvir a música na Internet. Quatro dos balões perderam-se, mas um foi encontrado uns meses depois numa aldeia do interior de Espanha. A senhora que deu com o balão pendurado numa árvore seguiu as indicações, ouviu a música e contactou a Sonoscopia. Mais tarde, a aldeia foi incluída numa digressão da orquestra: os habitantes receberam os músicos numa festa popular que os deixou pasmados. Juntar, e inclusive juntar o que parece distante, é a palavra-chave para referir o que tem estado a fazer-se.

Onde e quando é que isto tudo teve início? Na década de 1990, quando havia no Porto um festival que mudou consciências e práticas, o Co-Lab. Programado e organizado pelo guitarrista Alberto Lopes, na altura conhecido pelo nome de guerra Albrecht Loops, aquela iniciativa apostou, para além dos concertos, nas oficinas que realizava, todas de acesso grátis. Na do violinista Jon Rose, o currículo de um dos candidatos chamou a atenção de Lopes. Referia uma formação de jazz na ESMAE e a pertença a um grupo de metal entretanto extinto, Genocide. «Este tipo só pode ser interessante», pensou Lopes na altura. E era: tratava-se de Gustavo Costa, e logo na edição seguinte do evento o baterista era um dos elementos de produção da equipa. Mais: Lopes e Costa começaram então a tocar juntos, em vários contextos, e essa parceria mantém-se até hoje. Algo de semelhante aconteceu com Henrique Fernandes, contrabaixista vindo da música clássica, num posterior “workshop” de René Lussier no Co-Lab, e outros músicos tiveram nesse contexto oportunidade de se conhecerem e de trabalharem juntos, os mesmos que agora frequentam o edifício recuperado do Carvalhido.

Apesar de não viver no Porto, mas na Guarda, são cada vez mais longas as temporadas que Alberto Lopes aí passa. Durante os dias em que a jazz.pt esteve na Sonoscopia, vimo-lo a gravar, a montar prateleiras na cozinha, a lavar a casa-de-banho e a esticar cabos de som. Tinha contribuído decisivamente para o nascimento da Sonoscopia quando ainda não era claro que seria esse o desfecho e juntou-se aos demais promotores da associação um mês depois de esta abrir a sua sede, há três anos. «Ainda fui a tempo de vestir roupas de trolha e pôr-me a pintar paredes», comenta a sorrir. Curiosamente, não é sócio: nunca se preocupou com isso, nem de resto mais ninguém. Tem estatuto honorário e chaves próprias para entrar sempre que quiser. «Estamos muito agradecidos ao Beto, pois tudo isto começou no Co-Lab. Ele é uma referência da Sonoscopia», adianta Gustavo Costa. Há outra figura com esse estatuto, Carlos Guedes (irmão de Pedro Guedes, um dos directores da Orquestra Jazz de Matosinhos), professor e investigador de composição especialmente orientado para a electrónica. Também Guedes faz o que pode pela Sonoscopia e não é sócio, nem precisa de ser.

«Desempenhar funções de director técnico em centros culturais e teatros de Aveiro, Guarda e Fundão fez com que me afastasse da música durante uns anos», lembra Lopes. «Quando apareci na Prelada, um bocado à sorte, pensava que o pessoal se tinha esquecido de mim, mas não. Nessa altura houve até o desejo de organizar um Pós-Lab, para assinalar a influência do Co-Lab na Sonoscopia, mas não se pôde concretizar por falta de financiamento. De certa forma, acho que ainda bem, pois esse é um capítulo encerrado. O que eu queria era fazer coisas novas, e isso era o que ocupava esta malta.» Não tardou, o inventor da twintar, guitarra dupla destinada a ser tocada por duas pessoas que é só por si um símbolo, estava de ferro de soldar nas mãos, montando estranhos protótipos instrumentais. 

Do It Yourself

 

Por coincidência ou não, muitos dos habitantes da Sonoscopia vieram do rock ou ainda o praticam. Essa é uma marca distintiva, sabendo-se das origens no jazz, na música erudita e até nas artes plásticas da maioria dos praticantes da improvisação e do experimentalismo. Só Henrique Fernandes não teve tal ponto de partida, e no entanto podemos encontrá-lo hoje em muitas situações conotadas com esse idioma musical. «A Sonoscopia não corresponde, de todo, ao ponto de vista de uma só pessoa», argumenta Costa, acrescentando que, ainda assim, representa uma grande parte de si. «Quis juntar pessoas do rock, da música exploratória, da improvisada, da invenção e construção de instrumentos que tivessem um perfil semelhante ao meu. Até por uma questão de coerência estética, embora este grupo de indivíduos seja muito variado», elucida.

Isso já é intrigante o suficiente, mas Costa e os seus companheiros foram ainda mais longe no impensável: fizeram questão de cruzar a atitude “underground” e muito punk do Do It Yourself com outra de recorte académico. Além do percussionista, a Sonoscopia conta com mais seis músicos que ou terminaram os seus doutoramentos recentemente ou estão a defendê-los, todos eles com percursos de docência. «Essa é a nossa forma de tentar ultrapassar dois dilemas. O facto de haver poucos objectos verdadeiramente interessantes do lado da teoria e o facto igualmente de, no “underground”, existir pouca solidez nos projectos, mesmo quando os resultados convencem. Cruzar estas duas perspectivas tem sido fundamental tanto para mim como para o colectivo», explica.

A desenvoltura de Gustavo Costa nos campos do rock, do jazz, da improvisação, da electroacústica e outras tendências entre os extremos da pop e do noise como que simboliza as características de quem opera na Sonoscopia ou por lá passa regularmente. «Estudei jazz, sim, mas também percussão erudita. Até por grupos grindcore andei, sabendo que o conhecimento de várias linguagens possibilita que se façam outras leituras. Nunca quis estar ligado a uma só corrente. O meu caminho foi sempre passar ao lado, procurando uma identidade própria com todas as coisas que aprendi e experienciei. Não quero ser apenas um “improvisador”. A improvisação é uma componente muito importante da Sonoscopia, mas não é a única. Já com a experimentação temos um outro vínculo. Significa inconstância e significa busca. A improvisação que nos interessa não é a que caiu nos estereótipos da chamada “música livremente improvisada”. Daí o nosso interesse pelo desenvolvimento de novas técnicas de execução e pelo rock experimental», esclarece o músico.

Um dos mais recentes lançamentos da “label” abrigada pela Sonoscopia, distinguindo-se dos restantes até por parecer algo que poderia vir da editora Lovers & Lollypops, é um disco de rock psicadélico dos Lubok. Com o acima referido Alexandre Soares (guitarrista de que Costa admira a vontade de «ir sempre mais longe») estão Alberto Lopes, Henrique Fernandes, Gustavo Costa e a cantora Helena Guerreiro. A particularidade desta música hipnótica que leva Diamanda Galás e Lydia Lunch para territórios não muito distantes da tendência stoner está no facto de todos os temas terem sido totalmente improvisados. A sustentação rítmica, muito baseada em “riffs”, chega a ser obsessiva na sua fixa, não-desenvolvimentista, marcação, lembrando o Miles Davis de “Bitches Brew” ou o krautrock dos Can, e tudo o mais que acontece paira sem rumo definido como numa composição de Morton Feldman. Fosse o homónimo “Lubok” promovido nos canais habituais do rock e esta banda figuraria entre as glórias nacionais Black Bombaim, La La La Resonance e 10 000 Russos. Esse tipo de projecção pública está, no entanto, fora dos desígnios da organização…

«No começo, quando convidei as pessoas a participar neste projecto, senti que podia acontecer alguma incompatibilidade de visões, mas tal nunca se verificou. Não sei porquê. Será que é por nunca termos discutido, à volta de uma mesa, sobre fundamentos e princípios, preferindo atirarmo-nos à prática? O motivo está no facto de termos um responsável em cada criação, com os outros simplesmente a seguirem-no? O certo é que, assim como não impomos nada a ninguém, quem quiser avançar com alguma ideia tem o caminho aberto para o fazer, por automatismo de funcionamento», refere Gustavo Costa.

E ainda que haja o cuidado de não sair para a ribalta, ou não seria a Sonoscopia uma estrutura essencialmente “contracultural” e economicamente sustentável, a verdade é que esta cresceu muito, mais inclusive do que as capacidades humanas existentes. Em três anos, somaram-se cerca de 300 iniciativas, entre a série de concertos Microvolumes, projectos (Phonopticon, Phonambient, PortoSonoro), ciclos regulares (Baammm!!!!, Combustão Espontânea, Sonovision), residências artísticas, acções educativas (a Escola de Verão e os “workshops”), participações em eventos, parcerias. Este frenesim é, no entender de todos, igualmente qualitativo: «Estamos claramente melhores do que antes de ocuparmos este espaço, e temos contado com apoios financeiros e com contratos com grandes instituições culturais. A estética DIY continua, de qualquer modo, a ser-nos fundamental, apesar de por vezes nos associarmos à Fundação de Serralves e à Casa da Música. Aliás, damos tanta importância à ida a um “squat” quanto a um desses sítios.» 

Um frigorífico com cervejas

Phonopticon 

Foto Rui Pinheiro

Foto Rui Pinheiro

Claro que, às vezes, é preciso “cortar”. «Cortamos em tudo menos nos músicos. Vai-se embora a senhora das limpezas e até se vai embora o técnico de som, mas ter os músicos é essencial e estes podem fazer o som e as limpezas. Este crescimento até que foi planeado por mim. Enterrei-me de cabeça na Sonoscopia. Vi isto como um caminho para muito tempo. Está a acontecer o que pretendia, só não esperava que fosse tão rapidamente. Levámos, porém, muitos anos a ruminar uma concepção até termos o frigorífico com as minis», diz Costa, com humor. Ao seu lado esteve sempre Henrique Fernandes. A relação deste com Gustavo Costa começou na ESMAE, ainda que estivessem em cursos diferentes. No Co-Lab, além de Alberto Lopes, conheceu Jonathan Uliel Saldanha e Filipe Silva, da Soopa, assim como Miguel Cardoso, João Martins e José Miguel Pinto. Formou-se um núcleo de trabalho, que não se desfez mesmo quando, por razões burocráticas, também a outra associação nasceu. Momento importante foi o foco na construção de novas “interfaces” criativas, e nisso Fernandes teve, e continua a ter, uma posição-chave. Também ele estava envolvido quando o Microvolumes arrancou, no Artes Múltiplas, passando depois para o Stop.

«Virmos para a Rua da Prelada permitiu-nos tudo o que não era possível até então. Passo aqui a maior parte do meu tempo. Isso não nos fechou – antes pelo contrário, colocou-nos em rede. E ainda outra coisa: com os novos instrumentos percebemos que não basta tocar apenas, que é necessário formar, até por necessidade de incluir mais intervenientes. Algo de tão pessoal quanto a busca de novos timbres tornou-se colectivo. E não, acho que não há uma identificação da Sonoscopia com a dupla Gustavo Costa / Henrique Fernandes. Isto resulta de uma trajectória anterior e esta envolve muito mais gente. De resto, a Sonoscopia é maior do que os músicos que aqui estão. Influenciamo-nos uns aos outros e isso obriga-nos a sair das nossas zonas de conforto», conta Fernandes. Desta atitude beneficia o grupo Mécanosphère, no qual elementos da Sonoscopia e da Soopa se misturam, ao lado de Benjamim Bréjon e outra estrela do rock português, Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta).

Com Gustavo Costa e Henrique Fernandes à frente desta máquina estão ainda os imprescindíveis Patrícia Caveiro e Rodrigo Cardoso. Ela tem a seu cargo a produção executiva da Sonoscopia, ele o trabalho de documentação e o «que vier». Caveiro veio do Ballet Teatro e de uma formação em História de Arte, Cardoso de um rumo como músico (inclui actualmente o Srosh Ensemble e a Nova Orquestra Futurista do Porto) e da defunta editora discográfica Borland, a mesma que lançou Carlos Bica a solo, o primeiro CD de Norberto Lobo e… a estreia electroacústica de Costa sob o nome Most People Have Been Trained to be Bored. «Estou na base do que é feito aqui», adianta a primeira. «O Gustavo e o Henrique precisam de alguém que lhes diga, no início do dia, o que é preciso fazer, e esse alguém sou eu. Também participo na definição de conceitos, estabelecendo uma dupla com o Gustavo. Estamos cá para tudo o que é operacional, ao serviço daquela que é uma grande família. Diz-se que no Porto somos colaborativos e isso é mesmo verdade. Há essa propensão natural. Fazemos de casamenteiros: as pessoas aparecem, estabelecem ligações e estas traduzem-se em arte. É uma sensação óptima, assistir a tudo isso.»

Cardoso chama ao que faz «labor de arquivo», e este tanto diz respeito à gestão da editora da Sonoscopia, que tem agendada para 2016 a publicação de um disco da Nova Orquestra Futurista, como à tarefa que está presentemente a desempenhar: a estruturação de um novo “website” em que estarão disponíveis muitas das infindas horas de registos áudio e vídeo já realizados. «São coisas que não aparecem feitas; é preciso concentração e uma luta permanente. Apetece anda mais desempenhar estas tarefas porque não há regras definidas, apenas um calendário. O grau de desprendimento com que actuamos parece-me, inclusive, altamente revolucionário. Não há exigências de nenhum tipo, e no entanto os associados colaboram o máximo que podem», comenta. Essa base de dados em preparação estará articulada com a plataforma Europeana, o maior arquivo artístico europeu da Internet, sendo o mais difícil «acertar informaticamente as equivalências», pois a colocação de conteúdos será simultânea.

Esta realização surge em consequência do Phonambient, mapa “online” em que a cada uma das cidades incluídas corresponde um x número de recolhas sonoras. A Europeana interessou-se, contactou a Sonoscopia e o resultado do diálogo que se proporcionou está em gestação. Todo o tipo de ambientes sonoros encontra-se presente em http://www.phonambient.com/, desde “reverbs” de igrejas até ao ruído sincopado de um ventilador. Estiveram 12 pessoas a preparar aquele que é um dos mais queridos feitos destes portuenses, algumas delas para escrever código. Um disco complementa o sítio na Net, com uma compilação dos sons encontrados em Braga.

Quanto ao restante catálogo discográfico, a oferta é diversa. Integra “Partials”, do Srosh Ensemble, um muito esperado lançamento de 2015 que foi acompanhado por uma digressão de quatro exaustivas semanas pela Europa, e o excelente “Frogs” da italiana Patrizia Oliva com Gustavo Costa. Lá constam, igualmente, “Ancestral”, produto de um feliz duo entre o saxofonista João Guimarães (Orquestra Jazz de Matosinhos, Fail Better!, Zero) e do percussionista João Pais Filipe (Mécanosphère, HHY & The Macumbas, Fail Better!) e “Cerberus Part II”, da banda luso-austríaca Missing Dog Head, um híbrido de jazz e rock. «Publicamos três discos de uma assentada, sem nos sentirmos obrigados a fazê-lo com uma periodicidade anual. Muitas vezes adiamos os lançamentos até chegarmos à melhor fórmula. Todas as edições são bastante cuidadas, mas não vamos ao ponto de colocar temas no iTunes para chegar a um maior público, nem recorremos aos circuitos convencionais de distribuição. São situações que não nos interessam», explica Rodrigo Cardoso.

Ou seja, «chegar a uma orientação baseada no bom senso exige muita disponibilidade mental»: «Não é fácil ter este modo de funcionamento sem obrigações nem recriminações. Não fazemos reuniões, vamos falando no dia-a-dia, e esse procedimento não é programático, é genético. Se alguém não estava habituado a isso, habituou-se. Até somos formais e específicos, que não propriamente uns anarcas. Digamos que, na nossa geral irresponsabilidade, até conseguimos ser muito responsáveis», acrescenta. 

Queres tocar comigo?

Foto Rui Pinheiro

Ricardo Jacinto - foto Rui Pinheiro 

Foto Rui Pinheiro

Tudo isto é corroborado por João Ricardo, presença habitual nos agrupamentos e actividades da Sonoscopia. Pertence à orquestra noise, toca com as bandas Boiar e Jim and the Galaxy, praticantes de música improvisada e experimental, bem como com a harpista de música contemporânea Angelica V. Salvi no dueto Paisagens Invisíveis. É ainda ocasional parceiro do contrabaixista e compositor de jazz Hugo Carvalhais e o rosto que está por detrás do Operador de Cabina Polivalente, este dedicado ao techno e ao dub. Por coincidência ou não, também ele vem do metal. «Estar aqui é como estar em minha casa. É um espaço que propicia a individualidade de todos. São imensas as oportunidades que vão aparecendo de fazer coisas. A colaboração surge naturalmente, porque se criam empatias. Porquê estes cruzamentos? Porque os músicos querem evoluir. As fronteiras entre géneros esbatem-se, os estilos confundem-se, contaminam-se. É raro haver um local onde se possa dar azo à criatividade, e isso aconteceu-me aqui com José Valente, Luís Vicente, Marcelo dos Reis. Basta perguntar: “Queres tocar comigo?”», afirma o “laptoper” e manipulador de sintetizadores modulares.

Em coincidência com os seus pares, Ricardo tem uma relação diferente com a improvisação e com o experimentalismo. A experimentação é um método, o improviso um conjunto de ferramentas: «Posso usar as rotinas da improvisação ou dispensá-las. Posso improvisar aquilo que experimentei, mas improvisar não é experimentar – improvisa-se já nos blues, no jazz, no rock. O que faço não é uma linguagem em si, porque a experimentação não é uma gramática e um vocabulário específicos, é um processo. Adapto-me. Com o Hugo toco jazz, ainda que eu introduza elementos estranhos ao todo.»

Num dos dias que passámos na Sonoscopia, o Microvolumes teve Ricardo Jacinto como protagonista. O concerto decorreu em linha com as coordenadas que conduzem os anfitriões. Com quatro “pickups” ligados ao violoncelo e um computador para regular apenas panorâmicas e “delays”, Jacinto mergulhou por inteiro na matéria sonora, explorando-lhe o grão até às últimas consequências. Também ele começa a ser uma figura habitual na agenda da associação, e ora porque é chamado pessoalmente a intervir, ora porque existe uma parceria com a estrutura a que o igualmente escultor e instalacionista da Parede pertence, Osso. Como é que se proporcionou o encontro? «A primeira vez que trabalhei com Henrique Fernandes e outro pessoal daqui foi no Serralves em Festa, numa versão que fizemos do “Rain Forest” de David Tudor. Depois, toquei o twintar com Alberto Lopes e desde então tenho colaborado com o Phonopticon. Já há coisas marcadas para 2016.» Jacinto sente que há uma grande proximidade sua com as preocupações e as ideias da Sonoscopia: «É clara a cumplicidade e são sólidas as vontades comuns.»

Quem está em rota de aproximação da Sonoscopia é o violetista José Valente, que recentemente se mudou de Coimbra para o Porto. Também ele teve uma prestação a solo num Microvolumes. No seu caso, a origem é o jazz e isso pareceria, à partida, distanciá-lo do “core” vanguardista e influenciado pelo rock dos locais. Mas, como já acontecera com Susana Santos Silva e outros, assim não se verifica: «O pessoal daqui é bestialmente honesto. Mesmo que não se seja parte activa do meio, recebem-nos de braços abertos. Esta minha aproximação é estética: a música tonal eu já conheço e quem me seduz mais são aqueles que estão fora do “mainstream”. Sinto-me mais em sintonia com quem faz pesquisa de som do que com quem interpreta “standards”. Eles é que me vão dar aquilo que procuro: novidade. Posso não concordar com certas vias, mas acho bem que haja quem tente segui-las. O importante é ir contra a corrente, e esta é uma comunidade de resistência.»

Uma comunidade que não junta apenas artistas. O programador, radialista e agente Júlio Mendes Rodrigo não só é visita regular do nº 33 da Rua da Prelada como ao longo dos anos tem trabalhado com a Sonoscopia e com os seus dirigentes e aderentes, seja na qualidade de curador de eventos como chamando-os ao programa Arranca-Corações da Rádio NFM ou, através da Andrómeda, fazendo “management” de alguns dos músicos referidos neste texto. De temática ocultista, os ciclos e festivais que promoveu ou promove  – Esoterica Audiovisual Gathering, A Memória Inconsciente das Formas Transfiguradas e An Art Aparte são apenas três exemplos – têm contado com a sua (deles) participação. «Tenho boas memórias da homenagem a Jhonn Balance, dos Coil, que organizei e em que Henrique Fernandes entrou, ou o convite que este me fez para realizar uma palestra sobre Russolo e a influência da teosofia nele. Recordo, também, a transmissão radiofónica que fiz de um concerto da Nova Orquestra Futurista do Porto. O campo do ocultismo tem um potencial enorme e os músicos compreendem bem isso», declara. Aliás, foi por aí que seguiram Uliel Saldanha e Silva, os dois Soopas que a Sonoscopia também considera seus, com os HHY & The Macumbas.

Não é o esoterismo, porém, que explica as assombrações do edifício ocupado pela Sonoscopia, mas o som. É uma casa aSOMbrada, esta, uma fábrica de ruído ora intencional, ora provocado, ora aleatório, algumas vezes surgindo melodias, harmonias e ritmos pelo meio. Esta é uma casa «propulsora de energias», como indica Rodrigo, e essas energias são boas e estão por aí, soltas, voando pelo ar até muito longe. Nada, já, poderá contê-las. Haveremos de encontrar mais balões nos ramos das árvores.

 

Para saber mais

http://sonoscopia.pt/