Paulus Schafer no Seixal Jazz, 22 de Outubro de 2015

Paulus Schafer no Seixal Jazz

Um fim-de-semana com a comunidade Sinti

texto Nuno Marinho (www.nunomarinhomusic.wordpress.com)

A 16ª edição do evento do Seixal abriu as portas ao público no dia 16 de Outubro de 2015 com a apresentação, inédita em Portugal, do Paulus Schafer Trio. Aqui fica o testemunho desse encontro com o jazz cigano da Holanda por Nuno Marinho, que organizou a vinda do grupo e tocou na segunda parte do concerto como convidado. 

O público aderiu em grande número ao concerto inaugural de mais uma edição do Seixal Jazz, levando a organização do festival a registar lotação quase esgotada da sala do Auditório Municipal do Seixal.

Há muito tempo que não se via uma enchente assim no Seixal, sobretudo em noite de abertura. Próximo deste registo de afluência apenas vem à memória o concerto de encerramento de Ambrose Akinmusire em 2014. «Vi hoje no jornal a notícia sobre o concerto e quis logo vir assistir. São tão raras as oportunidades de ver Gypsy Jazz em Portugal que temos de aproveitar tudo e mantermo-nos unidos» (anónima, à saída do espectáculo).

Paulus entrou sozinho em palco com a sua guitarra JWC, aplaudido timidamente pelos presentes, que não sabiam bem o que esperar desta actuação. Com o instrumento afinado em “Drop D”, tocou o tema “Costas”, a solo, enchendo a sala com a sua guitarra de tom quente, forte e apaixonado. Este momento inspirador e penetrante, susceptível de criar arrepios na plateia, foi merecedor de uma reacção consistente do público, prolongada com a entrada de Romino Grunholtz (guitarra ritmo) e Noah Schafer (baixo).

A banda começou por tocar o “standard” de jazz “How High The Moon”, que ecoou na memória auditiva de muitos dos presentes. O tempo relaxado com que iniciaram a música fazia lembrar uma brisa suave de Verão que nos embala para uma doce sesta... Seguida de uma entusiasmante e fulgurante execução ao dobro do tempo, reveladora do virtuosismo do solista.

Seguiu-se “Paquito”, de que se destacaram o intenso “groove” da secção rítmica e as longas, infinitas, linhas melódicas de Paulus. A dinâmica do seu fraseado oscilava entre uma intensidade frenética e um progressivo relaxamento que conferia um renovado ânimo ao solo.

«O Paulus teve a arte de incluir dinâmicas e texturas diferentes, conseguindo captar a atenção dos ouvintes durante todo o concerto. Embora o seu Inglês não fosse brilhante, conseguiu comunicar  bem com o público, mostrando sentido de humor e, acima de tudo, humildade» (Alcides Miranda – músico).

Em Festival 48”, a execução da introdução num pedal à mínima, com oitavas, começou por criar tensão expectante na sala. Foi então que o tema explodiu num solo de fraseado absolutamente estonteante, rapidíssimo, com o qual Paulus se elevou tocando tercinas sobre a base rítmica sólida de Romino e Noah.

A música seguinte começou com novo pedal, mas desta feita completamente diferente do anterior. O som da guitarra de Paulus Schafer fez lembrar uma citara. O tempo era rápido e proporcionou o primeiro solo do baixista Noah Schafer. Salientou-se o “groove” deste momento, que proporcionou um forte e merecido aplauso a Noah, a executar um solo ao nível de Jaco Pastorius.

La Roulotte surgiu, neste contexto, como uma balada suave, melodiosa e doce. Precedeu a interpretação do hino do Gypsy Jazz, o tema “Minor Swing”,composto por Django Reinhardt. Paulus homenageou o génio, pai deste género musical, a maior lenda entre os gigantes dos gigantes do jazz, ao interpretar o solo registado na gravação original de 1937. Se dúvidas houvesse acerca da facilidade e destreza de Schafer na improvisação, estas ficaram desfeitas quando ele mostrou como usar o polegar esquerdo para tocar notas graves a meio do solo. Foi então que o ritmo mudou para um tom Gypsy Bossa e deu lugar a novo solo no baixo de Noah Schafer, que arrancou, novamente, fortes aplausos da plateia.

A fechar a primeira parte, a banda tocou “Paulus Waltz”, tema original constante do novo álbum “Letter to Van Gogh”. Neste momento foi perceptível a boa disposição e o humor dos músicos em palco, sempre sorrindo, olhando uns para os outros em jeito cúmplice, revelando naturalidade e alegria rara de se ver nos palcos do jazz. Não havia tensão, apenas naturalidade e bem-estar, como se estivessem a tocar na sua própria casa. Foi bonito de se ver e o público respondeu efusivamente a esta conversa musical.

Havia ainda tempo para ouvir um tema tradicional popularizado por Django em 1947 – “Dark Eyes” (também conhecido como “Black Eyes” ou “Les Yeux Noir”). O “tremolando” inicial suscitou arrepios de surpresa e crescente expectativa nos ouvintes. Paulus irrompeu na execução da melodia e da interpretação do solo original de Reinhardt, seguido do solo de Noah, executado em oitavas no baixo. Paulus ainda voltaria a solar sobre um “stop chorus”, deixando o público completamente rendido e ansioso por mais na segunda parte. 

O convidado especial – Gypsy Jazz português

 

«Congratulations! Excellent concert and excellent surprise guest (comentários entre amigos à porta do festival).Logo na primeira abordagem feita a Paulus Schafer sobre a possibilidade de vir tocar a Portugal o músico lançou-me o desafio:«Hi Nuno, great news!!! October 16th The Paulus Schäfer Trio will be there! Do you want to play with us a few songs at the start of the second set?»

Eu fiquei do outro lado do computador, sem saber bem como reagir ou o que responder. O sentimento de responsabilidade misturava-se com a alegria da eventual possibilidade de me juntar em palco com estes músicos. Ao partilhar a honra que sentia pelo convite, Paulus voltou a sublinhar: «It should be nice to play some songs together!» Aqui está um dos melhores músicos da história do Gypsy Jazz a convidar um desconhecido musical para tocar no Seixal Jazz. Ele não se importou com o meu nível musical, com a minha experiência, com a minha qualidade... Por esta altura, o Paulus nem sabia que eu ainda não tinha uma Gypsy Guitar.

Por volta das 9 horas da manhã, no dia do concerto, logo após apanhar o Paulus e o Romino no aeroporto (o Noah chegaria mais tarde), estávamos sozinhos numa esplanada da Expo a tomar o pequeno-almoço quando o Romino pegou na sua guitarra e disse: «Here, Nuno, play something for us.»

Eu olhei, lentamente, para o gesto de oferta de Romino, estendendo os braços, como que me convidando e aceitando para dentro da sua comunidade musical. Ali estava eu, com uma guitarra dos anos 1950 nas mãos, a tocar para eles. Só aí tive a certeza de que logo à noite estes malucos me iriam pôr a tocar com eles! A facilidade e a naturalidade com que tudo aconteceu foram inspiradoras. Durante o dia, e em conversa com Romino, ele confidenciava-me que toda a gente era convidada a tocar, não interessava o seu nível, a sua destreza técnica ou musicalidade. Não há, sequer, competição entre os músicos da comunidade Sinti porque todos aprendem uns com os outros.

«Se alguém é convidado para tocar e o Paulus vê que não tem tanta facilidade no instrumento, ele não começa a tocar aquelas coisas todas que ele toca, ele não toca super-rápido. Não, ele toca de forma a ajudar quem está ao lado dele. Todos nós fazemos isso» (Romino Grunholtz). Eu sorri, feliz por sentir tanta bondade e consideração entre os músicos Sinti... Lembrando-me, por oposição, de tantos comentários e atitudes depreciativas ocorridas em “jam sessions” de jazz contra músicos menos experientes.

«Adorei o concerto e, evidentemente, a execução musical do nosso português, Nuno Marinho» (Guta de Carvalho – fotógrafo). Para a abertura da segunda parte, os quatro músicos traziam na manga os temas “J’Attendrai” e “Djangology”. O público reagiu muito bem, contagiado pelo elevado sentido de responsabilidade e emoção que o trio transbordava.

Seguiram-se temas de Django Reinhardt como “Coquette” e “Claire de Lune”, com uma introdução a solo de Paulus; uma balada original do último álbum, “Theme for New York”, e “Mimosa”, introduzida pelo “riff” inicial de “Billy Jean”, de Michael Jackson, que deixou toda a gente encantada e derretida pela genuinidade dos rapazes.

A banda voltou, posteriormente, à interpretação de um “standard” de jazz, desta feita com a apresentação de “Summertime”. Paulus executou nova introdução a solo e Romino juntou-se ao líder com um acompanhamento leve e espirituoso em jeito Gypsy Bossa. A dinâmica da melodia era variada e repetida com diferentes interpretações, ora por mudança de oitava, ora com diferente ataque e “feeling“ na execução de cada nota.

Aproximávamo-nos do fim do concerto e Paulus aproveitou o momento para agradecer aos técnicos de luz e som, bem como o seu convidado Nuno. «Todos ficámos surpreendidos quando o Paulus agradeceu o trabalho dos técnicos de som e luz. É raríssimo isto acontecer» (Carlos Garcia – organização).

O concerto fechou com “Starry Night”, o tema de encerramento do novo álbum do trio, que provocou uma imediata e ensurdecedora ovação de pé de todos os presentes. O público pedia mais e os músicos retribuíram com a interpretação extremamente sentida de um dos temas mais incríveis do repertório de Django Reinhardt – “Nuages”. A expressão nas caras dos músicos transparecia coração e emoção, culminando num belíssimo final a solo do Mestre Paulus Schafer.

«Calorosa e disciplinada energia e grande destreza técnica, ao mais alto nível. Fiquei rendida com a grande simplicidade e a calma serena destes grandes profissionais. Estou fã e por isso aguardo o regresso» (Susana, à saída do espectáculo). 

O “workshop”

No dia seguinte, a escola JB Jazz acolheu a realização do “workshop” de Paulus Schafer. Contou com a presença de cerca de 20 praticantes de variados instrumentos e alguns professores. Paulus começou por falar da importância de tocar com sentimento e emoção. Isso é o que é importante e é aí que a nossa atenção se deve focar, não na técnica, não nas notas, mas em tocar com o coração. Para tal, o correcto desenvolvimento da técnica de mão direita é indispensável e Paulus partilhou um exercício, nota a nota, com cada um dos intervenientes.

De seguida tocou uma frase longa a uma velocidade estonteante, perguntando após a sua execução: «Do you want to play that?» Entre suspiros de incredulidade e sorrisos alegres ouviu-se alguém lá atrás a dizer, «mas isso é bué de rápido!». Paulus percebeu a preocupação dos seus discípulos que, com o olhar, pareciam querer dizer que a sugestão era demasiado elaborada e longínqua para o seu nível. Foi assim nos sete exercícios práticos que Paulus partilhou com os participantes. E em todos os sete, parcimonioso, gentil e paciente, Paulus tomou cada um dos participantes “pela mão”, guiou-os nota a nota, e só avançou após garantir que todos estavam em condições de começar a construir velocidade de fraseado.

Para além do exercício técnico, Paulus partilhou – para deleite dos alunos – duas frases típicas do fraseado Gypsy Jazz, acentuações rítmicas para a guitarra de acompanhamento, a dinâmica do tremolando, improvisação com base em acordes e uma intro típica de Django Reinhardt.

«No “workshop”, o Paulus conseguiu pôr toda a gente  à vontade, não fazendo distinção entre os participantes mais experientes e os menos experientes neste estilo musical. Aqui, mais uma vez, a sua simpatia e humildade foram cativantes, bem como o seu encorajamento aos intervenientes  menos confiantes» (Alcides Miranda – músico).

A sessão decorreu com extrema naturalidade e fluidez, ficando ainda mais patente a natureza gentil, amiga, integradora, motivadora, preocupada e fraterna de Paulus Schafer. Acabaria em grande, com Romino a juntar-se ao líder para tocarem “Starry Night” e, a pedido de um dos alunos, “Paquito”, música que causara tremendo impacto na noite do concerto e que voltaria a levantar o espírito dos presentes.

Fechava-se, assim, com chave de ouro, a participação pública de Paulus Schafer, Romino Grunholz e Noah Schafer, músicos que deram tudo o que tinham, de coração aberto, numa demonstração exemplar de humanidade, humildade e gentileza muito própria da comunidade Sinti. «O concerto do Paulus Schafer Trio foi fenomenal e mais fantástico ainda o “workshop”. Foi um dia de grande aprendizagem, pois poder ver de perto toda aquela técnica e clareza com que o Paulus toca é incrível! Conhecemos também o Paulus como pessoa e ele mostrou ser muito humilde. Deu-nos dicas e palavras de incentivo muito importantes. Certamente para repetir» (João Menezes – aluno).

Memórias de uma experiência inesquecível

Romino Grunholtz 

Olhando para trás, e lembrando todos os pequenos passos que foram dados para trazer o Gipsy Jazz a Portugal e para mobilizar as pessoas a construir a nossa própria comunidade, foi um exercício emocionante. Não deverão ser muitos os que vestem a pele de promotor de eventos, músico e divulgador ao mesmo tempo. Mas há já muito tempo que aprendi que ninguém fará o trabalho que só nós queremos e podemos fazer.

O que mais fica na memória desta experiência é o sentimento de união da comunidade Sinti. Um profundo respeito pela música, um sentido de responsabilidade fraterno, um “tomar conta do próximo” constante num espírito de entreajuda. Paulus Schafer não é só um grande músico. É uma grande pessoa. Tem um conhecimento musical diverso e amplo. Vive e respira música a toda a hora. Durante o tempo que me foi permitido acompanhá-lo por Lisboa e Seixal, Paulus cantava, deliciado, temas de Frank Sinatra e Billie Holiday.

Noah Schafer, um miúdo de 24 anos, respira energia e bom humor. A sua postura em palco cativou, completamente, a sala inteira. Veio ter comigo, mostrou-me fotografias do seu filho de três meses e suspirou: «I miss my son.» Na despedida, a sós no aeroporto, falou-me da importância de tocar com os músicos da comunidade. «Nuno, you have the gypsy sound. Now you need to come to our camp in the Netherlands and play with us.»

Antes do início do concerto, enquanto os músicos aproveitavam para fumar – «because it’s good for the heart», dizia Paulus, com sarcasmo –, aproveitei para agarrar a minha APC e tocar um pouco. Passados uns minutos, Noah entrou na sala e começou a falar de uma melhor maneira de executar “La Pompe” no acompanhamento da guitarra ritmo. Um pouco depois, Romino entrou na sala e exemplificou, na minha guitarra, o que Noah estava a falar.

Esta capacidade de entrega e dádiva, em qualquer momento, tem o forte poder de nos tornar humildes. Lá fiquei eu, sozinho, a praticar os novos concelhos que estes gigantes do Gypsy Jazz me acabavam de dar. Estes gestos extremamente atenciosos não me prepararam para o que viria a acontecer de seguida...

Paulus entrou na sala onde eu estava e pediu-me a palheta que tinha na mão. Debruçou-se sobre mim e executou “La Pompe” com a sua mão direita, enquanto eu executava os acordes com a esquerda. Parámos, ao fim de um tempo, e sem trocar palavra, Paulus como que me abraçou, de pé (eu sentado com a guitarra ao colo) e começou a tocar com as suas próprias mãos o ritmo “La Pompe”. Era como se eu estivesse a ser protegido pelos braços de um pai que, carinhosamente, ensina ao seu filho a melhor maneira de tocar. Ali estava o segredo, a um palmo de distância dos meus olhos... o ângulo da palheta, a posição do pulso direito, a pega da mão esquerda. Ali estava eu, entre os braços de um dos músicos que mais admiro, com a minha guitarra ao colo.

São estas as memórias que guardo de três amigos que me vieram mostrar o mais profundo sentido de comunidade e responsabilidade pelo outro que alguma vez tivera oportunidade de experienciar. E neste particular destaco, com especial carinho e atenção, a figura de Romino Grunholz. Um ser humano fantástico. Por detrás daquela figura máscula e imponente reside um homem sempre disposto a ajudar, protector de Paulus, rápido a traduzir ou explicar as barreiras linguísticas que nos separam. Romino era sempre o primeiro a mostrar gratidão e reconhecimento pelo mais pequeno gesto e foi nele que eu identifiquei que a importância desta música não está no virtuosismo, ou no ego ou na vaidade superior. A importância desta música não está no indivíduo, mas sim na comunidade, no todo – Latcho Drom, uma grande viagem. O coração desta música está na guitarra ritmo, na festa, na celebração, na união, no todo e na amizade.

Foi isto que senti quando fiquei uns minutos à porta do quarto do hotel a ouvi-los tocar. Foi isto que senti nos camarins do Seixal, do outro lado da parede, ao ouvi-los tocar um tema que me levou às lágrimas. Foi isto que senti no concerto e na despedida no aeroporto.

No último dia, a caminho do almoço no Restaurante Duetos da Sé, ao subir as escadinhas do Arco de Jesus, Romino começou a correr e a trautear, divertido, a música vitoriosa de Bill Conti, “Gonna Fly Now” (“Theme From Rocky”). Ao escrever as linhas finais deste artigo, deitado na cama, exausto, recordo a cena final do combate entre Rocky e Apollo. Rocky não ganhou, mas saiu vitorioso. Ele não caiu, manteve-se íntegro até ao fim. Não desistiu, persistiu. «He took a beating but he stood there until the end.» Porque o mais importante não são os feitos individuais, é a música. Aquilo que as pessoas guardam no coração não é o solo esmagador, ou o auge da perfeição. As pessoas guardam para si aquilo que a música lhes transmitiu. E é por isso que o Gypsy Jazz é a forma musical improvisada mais seguida e mais querida de sempre.

A abertura do Seixal Jazz não ficou apenas marcada por receber a comunidade Sinti no nosso país. A verdade é outra: foram eles que nos receberam a nós, de braços abertos, oferecendo uma grande lição à nossa comunidade do jazz. Somos todos irmãos: Swing, Bebop, Free, Contemporary, Modal, Gypsy Jazz... filhos da mesma mãe. E todos aprendem com toda a gente.

Talvez em Portugal o jazz cresça, um dia, saudável, com mais compaixão, respeito e colaboração entre os seus intervenientes. É difícil entender a ausência de tantos agentes responsáveis pela dinamização do jazz em Portugal na abertura do Seixal Jazz. É angustiante verificar que as cerca de sete bandas de Gypsy Jazz a actuar regularmente em Portugal não aderiram em massa a esta festa. E é triste observar uma ou outra reacção menos educada de quem tem dificuldade em receber ofertas desinteressadas feitas de coração aberto.

Não é por falta de convites nem apelos que músicos e agentes do jazz faltam, deliberadamente, a eventos que se desejaria serem de adesão global. Mas, felizmente, mesmo sem a sua presença, as salas estão cheias, pois não são eles que compram discos e assistem a concertos ao vivo. É o público. O público é que consome, adere, vive, celebra e rejubila. A grande vitória desta louvável iniciativa protagonizada pelos organizadores do Seixal Jazz não é a sua vitória pessoal. Rocky saiu vitorioso sem ter ganho o combate. O Seixal Jazz, o Paulus Schafer Trio ou o Nuno Marinho apenas trabalharam para que o público saísse vencedor. Registe-se o facto de que as vendas dos álbuns do grupo atingiram um número que há muito não se verificava no Auditório do Seixal Jazz.

«Nós ADORÁMOS!!! Desconhecíamos o Paulos Schäfer Trio, mas ficámos rendidos à magnitude da sua música. Foi uma excelente e agradável surpresa. Uma noite bem passada» (Carlos e Manuela). Este evento teve a feliz capacidade de mobilizar gente de todos os quadrantes. Recebemos espanhóis que voaram propositadamente de Madrid ou da Galiza para assistir ao concerto; recebemos amantes do Gypsy Jazz, ansiosos por todas as oportunidades de ver ao vivo concertos do género; recebemos curiosos do jazz à procura de alargar os seus horizontes para outras sonoridades; recebemos mesmo quem nunca tinha ouvido falar do Gypsy Jazz e que foi aconselhado por amigos ou pela crítica jornalística que anunciou o concerto.

«O concerto foi muito bom! Como não conhecia o género, estava um pouco receoso de que fosse um tipo de jazz que não ia gostar, mas foi mesmo bom! Foi muito agradável de se ouvir. Este é o tipo de música que, sem te aperceberes, estás a bater o pé e a acompanhar o ritmo! Obrigado por terem contribuído para a vinda do Paulus Schafer Trio» (Pedro).

O impacto internacional que este concerto teve também se fez sentir. Mais uma vez, a comunidade do Gypsy Jazz espalhada por todo o mundo é ávida por participar, consumir e estar a par de tudo o que acontece no seu seio. Neste particular, a presença e a participação de Patrus Cassey, um canadiano que viajou, propositadamente, até nós, responsável pela edição e publicação de milhares de vídeos de incontáveis músicos do Gypsy Jazz, não passou despercebida. Em poucas horas, o primeiro vídeo que Patrus disponibilizou gerou 22 000 visualizações. 

Palavras para quê...

Noah Schafer 

No dia seguinte, de volta à realidade, voltei a ligar o telemóvel e o computador. De toda a actividade gerada, um sem-número de notificações e impressões positivas, recebi apenas uma mensagem. Vinha de um dos mais internacionais, respeitados, reconhecidos e estimados músicos da história do Gypsy Jazz, responsável por ensinar esta linguagem a milhares de pessoas por todo o mundo (eu incluído): «Congrats on the festival, Nuno. I’m seeing and hearing great things about it. Great work!» (Robin Nolan).

O balanço final desta aventura é extraordinariamente positivo. Portugal está no mapa do Gypsy Jazz mundial e precisa de toda a força, de energia e colaboração para crescer vigorosamente. Agradeço ao Paulus Schafer, ao Romino Grunholz e ao Noah Schafer a sua disponibilidade para virem a Portugal tocar e ensinar Gypsy Jazz. Agradeço, também, ao Henk Van Beurdenm da Fundação Sinti, pela ajuda na logística e no agenciamento do concerto. Agradeço, profundamente, aos irmãos Lala do Duetos da Sé, Carlos e Eduardo, que nos deixaram completamente apaixonados pela sua comida.

Uma forte palavra de apreço à APC – Instrumentos Musicais, pela excelente guitarra que construíram especialmente para mim. Caloroso agradecimento ao Patrus Cassey pelos videos e por viver connosco, tão intensamente, estes dias em família. E, sobretudo, um agradecimento especial a toda a equipa do Seixal Jazz pelo seu exemplo de profissionalismo e competência.

O trabalho que desenvolvi para trazer este concerto a Portugal é dedicado ao público, aos amantes, praticantes e interessados pelo Gypsy Jazz e, em especial, à Mafalda Corregedor, que – todos os dias – tem de me ouvir, em casa, a praticar este estilo de música que eu adoro. No fim-de-semana de 16 e 17 de Outubro de 2015 conheci uma verdadeira família do (Gypsy) Jazz. É um prazer e uma honra poder servir esta música e os seus intervenientes. Muito obrigado.

«Em nome da equipa o nosso muito obrigado pela forma como tudo se passou nesta noite e pela simpatia dos músicos. Nuno, obrigado por me teres convencido a fazer este espectáculo» (Carlos Garcia – organização).

«We thank the managing board for the invitation, the hospitality and a perfect organization. We thank the great audience at Seixal Jazz and at last we thank Nuno Marinho for his great organizational skills» (Paulus Schafer).