Montra, 22 de Setembro de 2015

Montra

Duo-décimos (1)

texto Rui Eduardo Paes

Primeira parte de uma mostra que incide sobre aquele que é um cada vez mais frequente formato do jazz e da música improvisada na actualidade: o duo e a sua particular arte comunicativa. Dez duos entre outros duo-décimos que virão (foto acima: Daniel Levin e Rob Brown)…

Dez duos, 10 dos muitos duos que vão surgindo nos circuitos do jazz e da música improvisada por estes dias. Outros serão escutados pela jazz.pt e deles daremos conta nestas páginas. Estes são os primeiros. Mas porque são tantas hoje as parcerias a dois nos palcos e em disco? A explicação económica é pertinente: para muitas produtoras e editoras está mais ao alcance ter dois músicos a tocar do que grupos maiores. Essa parece ser, no entanto, uma parte da explicação. Nos domínios da improvisação esta é a fórmula que dará mais perspectivas no que respeita a uma exploração da comunicabilidade e da interacção. O “outro” do acto criativo no momento é só um, o “eu” não se dissolve. Não é uma questão de ego ou da sua preservação, mas de ir mais fundo no vai-e-vem das ideias e das reacções… 

Silke Rollig / Burton Greene: “Space is Still the Place” (Improvising Beings)

 

É justo começar este mergulho na arte do duo por um histórico. Burton Greene é uma das referências maiores do que ficou conhecido como “free jazz”. Muito do que o norte-americano faz na actualidade não caberá nesse âmbito: os caminhos que foi seguindo levaram-no a recuperar fórmulas mais remotas do jazz pianístico, como por exemplo reminiscências do velhinho “stride”. Será, inclusive, um sinal de maturidade, e o certo é que não surgiu do nada. Acontecia já na altura em que tocava com Alan Silva, Marion Brown, Henry Grimes, Sam Rivers, Byard Lancaster, Bill Dixon e outros tantos. Ao contrário do que alguns pensam, o free não fez propriamente tábua rasa do passado, foi a consequências das aberturas providenciadas pelo bebop e pelo hard bop.

A colaboração de Greene com a cantora Silke Rollig, consideravelmente mais nova, conta com 11 anos, mas esta é a primeira vez que ouvimos um registo do par sem outras intervenções – a não ser as que surgem em “Cancer” e “Gemini”, temas retirados da “Zodiac Suite” de Rollig. No primeiro entra a flauta de Tatjana Ranzen e no segundo o saxofone soprano de Heke Rollig. Mas são um solo e outro duo, entre Greene e o saxofonista, repetindo a tónica de intimismo procurada.

O título do CD é o de uma das suas faixas, “Space is Still the Place”, uma homenagem a Sun Ra e ao simbolismo conquistado pelo seu “Space is the Place”. A orientação genérica da música vai para o free bop, numa combinação das liberdades do free com as estruturas e a sonoridade do bop, e os títulos das faixas manifestam essa mesma intenção, como “Freebop the 1st”, “Freeboparoony” ou “Freebop the 4th”. Curiosamente, não há “standards” no alinhamento. Uma excepção apenas surge entre as composições de Burton Greene, Silke Rollig ou de ambos e é a que menos se poderia esperar: uma versão de “Something in the Way”, escrita por Kurt Cobain para os Nirvana, numa exponenciação dos factores “bluesy” da canção.

Mais do que para o guru da Arkestra, é para Albert Ayler que o que aqui vem nos remete, e designadamente o gosto deste pelas melopeias e as marchas como motivos para os voos espiritualistas, mas tipicamente intensos, que realizava e que levou um crítico a escrever que era como se gritasse um “fuck you” em plena missa do sétimo dia. Greene e Rollig têm dirigido “workshops” para crianças e muito desse material foi reunido nesta apresentação. Ou seja, o que ouvimos é divertido, desconcertante e muitas vezes surpreendente. 

Neil Metcalfe / Daniel Thompson: “Eight Improvisations” (Creative Sources)

 

Tão natural quanto o duo de voz e piano é a parceria entre uma flauta e uma guitarra. Em “Eight Improvisations” voltamos a testemunhar o encontro de duas gerações de músicos. O flautista é o veterano Neil Metcalfe, membro do Spontaneous Music Ensemble de John Stevens no período final deste grupo seminal da livre-improvisação britânica, e o guitarrista o jovem Daniel Thompson, um antigo aluno de John Russell, o que, de resto, se nota na abordagem às seis cordas.

Os dois intervenientes não podiam ter “backgrounds” e orientações mais diferenciados. Metcalfe tem feito um notável percurso na música antiga e na ópera, incidindo os seus esforços no ensino musical, e Thompson é, essencialmente, um autodidacta. O primeiro tem uma sonoridade lírica e uma intervenção estruturante e até estratégica, sempre seguro do que introduz (e não introduz) nas tramas, e o segundo é um instrumentista nervoso e que funciona por ímpetos, saltos em frente. Tal distinção é o que os torna tão complementares.

O que intriga neste disco é a perspectiva de descoberta, com tudo o que esta tem de infantil, pelo que os resultados não distam muito dos de “Space is Still the Place”. Cada improvisação surge como um jogo, incentivado pela curiosidade e pelo prazer das soluções que se vão encontrando. Um jogo sem enquadramento especialmente definido – se em Neil Metcalfe se identificam alguns fundamentos clássicos e de jazz, Daniel Thompson é uma carta fora do baralho. As suas referências estão na própria música improvisada, que não no jazz, no rock ou qualquer outro idioma musical. 

Kontrabassduo Studer-Frey: “Zwirn” (Creative Sources)

Matthias Muller / Matthias Muche: “MM Squared Session” (Creative Sources)

 

Os duos com o mesmo instrumento continuam a ser duos. Ainda que, às tantas, não se perceba quem produz que som. São os timbristas, não os timbres, que mais importam. Assim acontece com “Zwirn”, do Kontrabassduo. Daniel Studer e Peter K. Frey, suíços respectivamente de Zurique e de Baden, têm um trajecto muito semelhante – especializaram-se na improvisação livre e vão pesquisando novas formas de combinação do improvisado com o composto, além de trabalharem com outras disciplinas artísticas, designadamente a dança, a performance, o instalacionismo e a vídeo-arte. São como que almas gémeas, mas souberam individualizar as suas personalidades musicais. Studer é mais mercuriano (o que talvez explique as suas associações com Lester Bowie, Gerry Hemingway, Joelle Léandre e Evan Parker) e Frey mais metódico (não estranhando que coordene um curso de pós-graduação em música de câmara).

Para eles o contrabaixo não é apenas as quatro cordas que o percorrem de alto a baixo. Usam a totalidade do cordofone, numa manipulação que não raro o transforma numa ferramenta percussiva. Utilizam todo um léxico de técnicas extensivas, umas universais na área da música experimental, improvisada ou não, e outras desenvolvidas por cada um deles. Por vezes, não parece estarmos a ouvir dois contrabaixos, mas algo que numas ocasiões se desdobra e noutras se mescla como plasticina, preferindo sempre um mundo de pormenores sónicos e pequeníssimos elementos que contraria as dimensões do instrumento mais grave da família do violino.

Algo de equivalente se pode afirmar relativamente ao encontro de trombones ouvido em “MM Squared Session”, juntando Matthias Muller e Matthias Muche. Por maior força de razão: estes dois trombonistas alemães partilham o mesmo primeiro nome, as mesmas iniciais e os apelidos até se assemelham. Aliás, acontece-lhes serem confundidos um com o outro. Reunirem-se para tocar acaba por ser a única hipótese para afirmar que se trata de duas pessoas e não uma só. Na distância que percorrem entre os mais primários dos burburismos e complicados multifónicos que quase parecem de produção electrónica (como se um estivesse a processar o outro em tempo real) afirmam-se duas visões concomitantes.

A música é espessa, com ressonâncias de caverna, ora compactando uma profusão de materiais ora deixando um sopro em suspenso, como uma gota de água que se transforma em estalactite. Tudo é improvisado, mas os caminhos que se percorrem lembram as músicas escritas de Sciarrino e Lachenmann, nomes da contemporaneidade erudita. É o som, a investigação das propriedades internas do som, não a forma, que predomina. 

Benjamin Duboc / Alexandra Grimal: “Le Retour d’Ulysse (Promenade)” (Improvising Beings)

 

Com o dueto de Benjamin Duboc e Alexandra Grimal, e com o duplo “Le Retour d’Ulysse (Promenade)”, voltamos a um ambiente categorizável como jazz e a um terreno improvisacional bem mais familiar. E cá está o tema “After the Rain”, de John Coltrane, para o confirmar. Trata-se, de novo, de um “tête-à-tête” entre um consagrado, o contrabaixista, e um valor em ascensão, a saxofonista, ambos saídos da cena francesa. As peças surgem como uma sequência de apontamentos de viagem, inacabadas impressões de circunstância, aludindo às andanças de Ulisses pela Grécia antiga.

O Duboc que aqui ouvimos é mais introspectivo do que lhe é habitual, mas já Grimal se distingue bastante do outro duo recente em que esteve envolvida, com Giovanni Di Domenico, soando mais expansiva e livre. A música vai-se construindo pela soma das partes, e depressa se nota que tem uma direcção e que os desvios introduzidos são, de facto, derivações. Numa altura em que muitos procuram neutralizar o que há na música improvisada de narrativo, estes dois apostam tudo na intenção de contar histórias.

E fazem-no, assumidamente, dentro das convenções estabelecidas. As do lirismo jazz logo para começar, mediante a combinação de uma abordagem requintada, poética mesmo, a de Benjamin Duboc (sobretudo quando toca com arco), e de uma crueza expressiva que se diria contradizer todas as noções (ou preconceitos) existentes sobre a criação de música no feminino, a de Alexandra Grimal. Em consequência, encontramos um painel sobre os equilíbrios e desequilíbrios entre uma perspectiva clássica, “grega”, da beleza e outra acentuadamente orgânica, com cheiro a terra. 

Elisabeth Harnik / Udo Schindler: “Empty Pigenhole” (Creative Sources)

Frank Gratkowski / Udo Schindler: “Sounding Dialectics” (Creative Sources)

 

Agora, dois duos com a participação de Udo Schindler, multi-instrumentista germânico que vem dando particular atenção às variantes baixo e contrabaixo do clarinete, mas também utiliza o saxofone soprano e, em “Empty Pigenhole”, a corneta. No primeiro caso, o do disco referido, ouvimo-lo com a pianista Elisabeth Harnik e no segundo, “Sounding Dialectis”, com o saxofonista alto e também um dos grandes cultores do clarinete baixo na actualidade, Frank Gratkowski. As companhias determinam-lhe os rumos tomados… Com Harnik faz pensar num Braxton de sonoridade rude, sem a influência cool/West Coast admitida por este, mas com a mesma dualidade referencial no jazz e na música clássica do século XX. Com Gratkowski é bem menos cerebral, chegando a uma espécie de animalismo sónico que antecede a própria musicalidade.

Ainda pouco conhecida neste lado da Europa, Elisabeth Harnik é, como Sophie Agnel e Eve Risser, uma cultora do piano preparado e da exploração directa das cordas. A construção de texturas abstractas é, manifestamente, a sua praia, e a esse nível será inclusive bastante menos convencional do que o seu parceiro – se bem que este aplique igualmente técnicas pouco usuais. Quanto a Frank Gratkowski, trata-se de um dos mais cativantes palhetistas aparecidos em cena no Velho Continente nesta última década, autor de um jazz pós-cubista, pós-surrealista e pós-Fluxus que é um enigma para a mente, mas só depois de nos atingir o estômago. Subtilmente, pois está muito, muito longe das lógicas brutalistas de um Brotzmann…

“Sounding Dialectics” como que define o que está em causa com um duo, qualquer duo. A construção de uma dialéctica no mais puro sentido hegeliano: uma tese e a sua antítese confluem numa síntese. Schindler e Gratkowski não se escutam para se encontrarem, escutam-se para que não se encontrem, cuidando que o que digam seja uma conversa e não dois monólogos. O resultado das suas trocas de argumentos não é um mínimo denominador comum ou um compromisso, mas outra coisa. Uma síntese que é o princípio de outra tese, clamando por outra antítese. Não há comunicação quando se gerem redundâncias e aqui está uma óptima comprovação dessa máxima. 

Maria Lucchese / Matthias Bauer: “Alchimia Organica” (Creative Sources)

 

A italiana, mas residente em Berlim, Maria Lucchese é uma artista visual e “performer” que estendeu a sua actividade para o domínio acústico. Em associação com o renomado contrabaixista Matthias Bauer usa a voz, um instrumento electrónico “vintage”, o theremin, e outros de ancestralidades étnicas várias, como o australiano didgeridoo e o sardenho launeddas, para o desenvolvimento de rituais performativos que lhe possibilitam o cumprimento de «processos alquímico-catárticos de criação», visando uma «despersonalização espontânea da subjectividade». “Alchimia Organica” é o exemplo áudio possível.

A formulação de Lucchese terá algo de “new age” e de intelectualismo, mas a música não. Esta alinha com aquele sector da improvisação que, distanciada das premissas tanto do jazz como da academia, vem abrindo as possibilidades tímbricas, seja pelo uso do instrumentário das tradições localizadas nos confins do planeta – numa metafórica conexão com os primados da existência humana – ou de outros de invenção própria, nas linhas de Clive Bell e Max Eastley. As partes vocais (com o acréscimo de Bauer) estão na continuidade da poesia fonética Dada, na esteira da recuperação dos elementos “selvagens”, “infantis” e “loucos” procurados pelas primeiras vanguardas do século passado, e o que se procura, com declarado sentido de humor, é o maravilhamento que também motivou Burton Greene, Silke Rollig, Neil Metcalfe, Daniel Thompson e, para todos os efeitos, os demais improvisadores.

Este é um duo primitivista, interessado em tocar uma música que se deseja totalmente desenquadrada de todos os padrões musicais, apesar de se tornar evidente que Lucchese está mais “fora” do que Bauer. Este age como um músico, a artista transalpina não. E o que agrada mais no CD é precisamente o carácter não musical, mas plástico, de Maria Lucchese, uma rebelde empenhada na «libertação do inconsciente». Mas ainda bem que Matthias Bauer está presente, ou ela acabaria por habitar um universo demasiado distante para que pudéssemos entendê-lo. 

Daniel Levin / Rob Brown: “Divergent Paths” (Cipsela Records)

Hugues Vincent / John Cuny: “Tagtraum” (Improvising Beings)

 

Dois discos com dois violoncelistas, Daniel Levin e Hugues Vincent. Figura já familiar em Portugal, onde participou em vários concertos, Levin está ao lado do saxofonista alto Rob Brown em “Divergent Paths”. Vincent, pelo seu lado, emparceira com o pianista John Cuny em “Tagtraum”. Nada de comum encontramos entre as duas edições. A filiação de Levin e Brown é jazzística e distintiva do que se vai fazendo em Nova Iorque. Se há elementos clássicos no discurso do homem do violoncelo, o sax de Brown introduz os modos e as cores da família Vision, aquela que rodeia William Parker, bem como os do “novo jazz” que tem Matthew Shipp como um dos maiores referentes. O que estes mostram de caracteristicamente americano, mostram Vincent e Cuny de europeu (de francês, mais especificiamente), sendo o jazz apenas um dos ingredientes, sem especial ascendência.

Mesmo nos temas com tempos menos acelerados “Divergent Paths” é um assombro de híper-actividade. Se a combinação a dois traz consigo menos densidade, intensidade é o que sobeja neste álbum. Em prejuízo da criação de espaços, é certo, mas com benefício das dinâmicas. O violoncelo não pára quieto, com um pizzicato rítmico a dar lugar a umas arcadas harmonizantes numa questão de segundos. Há nisto tudo, até, uma dimensão de loucura que ultrapassa o mero deslumbramento. Esquizofrenia, ou esquizofonia se quiserem, é o que aqui vem e torna-se cativante por isso mesmo.

Surpresa, surpresa, é isso igualmente o que se passa em “Tagtraum”, embora o figurativismo jazz dê lugar àquilo a que Derek Bailey chamava “não-idiomatismo” e haja uma evidentíssima influência camerística. Isto é, troca-se o fraseado pela textura e o discurso por um “soundscaping” abstracto. Com uma diferença: a intensidade, se é óbvia, inclui dentro de si o silêncio, dramatiza este, transforma-o em teatro. Este duo conta com outro factor: mantém-se há 20 anos e alicerça-se sobre todo um acumular de vivências. Talvez por isso, o “drive” das improvisações é menos urgente do que o dos nova-iorquinos. Tem mais disponibilidade. A demência senta-se por uns instantes e olha para os lados…