Oboés e oboístas, 3 de Agosto de 2015

Oboés e oboístas

Esqueletos no armário

texto Paulo Chagas

Ele próprio oboísta, o único em Portugal a tocar o instrumento de palheta dupla nas áreas da improvisação livre e do jazz, Paulo Chagas detém-se neste texto sobre as suas referências e audições no que ao oboé respeita. Estas passam pelas músicas que pratica mas também pela pop, pelo rock, pela clássica e pelo experimentalismo. Ora tomem nota...

O pato de “Pedro e o Lobo” foi, provavelmente, a forma mais comum de uma boa parte das pessoas que conheço se terem apercebido, pela primeira vez, da existência de um instrumento chamado oboé. Na verdade, a célebre composição de Sergei Prokofiev foi escrita, em 1936, precisamente com o objectivo pedagógico de mostrar às crianças as sonoridades dos diversos instrumentos da orquestra. Não sendo a música sinfónica um dos pratos mais habituais servidos e consumidos actualmente, tal não significa que o timbre incisivo daquele aerofone de palheta dupla não invada frequentemente os ouvidos do cidadão comum. De facto, na música que se situa fora do universo da chamada erudita, há infindáveis vestígios da sua presença.

Assim, dissimuladamente (ou talvez não), o oboé tem vindo a marcar forte presença numa espécie de memória sonora colectiva, desde a pop mais simples às músicas mais experimentais, passando pelo jazz, pelo rock e suas diversas variantes. É desta memória, vista à luz do meu caso pessoal, que me proponho falar hoje, trazendo para aqui uma lista de músicas e músicos que me empurraram para este incrível instrumento de timbre único e apaixonante.

“Happy Together”, dos californianos The Turtles, ficou sobretudo famosa devido ao seu refrão forte e entusiástico, cheio de lalalás. No entanto, neste “hit” de 1967, que já foi usado em mais de 20 bandas sonoras de filmes até aos nossos dias, há uma linha melódica de oboé a partir do segundo “chorus”, que transmite uma requintada atmosfera sem a qual a canção nunca poderia ser a mesma. Não se sabe ao certo quem terá sido o oboísta da gravação original, mas poderia apostar-se no cantor Mark Volman, que tocava vários instrumentos de sopro. Volman e Howard Kaylan, figuras principais do grupo, ingressariam mais tarde como dupla vocal, sob o nome artístico de Flo and Eddie, nos Mothers of Invention de Frank Zappa.

No lado de cá do Atlântico, três anos antes, outra famosa dupla, a de Mick Jagger e Keith Richards dos Rolling Stones, tinha escrito a balada “As Tears Go By”, cuja gravação original por Marianne Faithfull incluía uma melodia introdutória (assim como um “intermezzo”) tocada por um parente mais crescido do oboé: o corne inglês. Este longo instrumento de tudel curvo e campânula em forma de pêra, que no fundo é uma espécie de oboé tenor, seria também utilizado pelos Beach Boys em “I’m Waiting for the Day”, do álbum “Pet Sounds”, de 1966, pelas mãos do músico de estúdio Leonard Hartman.

Estes são apenas alguns exemplos, já que no repositório da pop dos anos 1960 abundam canções com inclusão destes instrumentos. Recordemos algumas delas: “I Got You Babe” de Sonny and Cher, com um oboé minimal no refrão tocado por Warren Webb; a balada “Legend of a Girl Child Linda” de Donovan Leitch, onde sobressai o oboé num arranjo de sopros e cordas extremamente belo; a introdução de “Turn of the Century” dos Bee Gees, numa altura em que os irmãos Gibb faziam coisas interessantes; “Dandelion” dos Rolling Stones, com um curto solo de oboé tocado pelo inevitável Brian Jones.

A pop das décadas seguintes continuaria a mostrar atracção por este instrumento, em êxitos como “Superstar” dos Carpenters (1971), versão de um “hit” da soul gravado por Delaney & Bonnie uns anos antes com a participação de Eric Clapton; “Ladytron” dos Roxy Music (1972), com o oboé tocado pelo soprador da banda, Andy Mackay; “Last Dance” de Donna Summer (1978), com oboé de Nellie Waldrop em pleno frenesim disco-sound; “Gentlemen Take Polaroids” dos Japan (1980), com oboé de Mick Karn.

Ainda “The Rain” de David Thomas (1983), num registo típico da pop híbrida americana desta fase, com oboé e fagote de Lindsay Cooper (a quem voltaremos mais à frente); “Prayer” dos Durutti Column (1983), com o oboé reverberante de Manaugh Fleming na invariável receita da banda de Vini Reilly; “Crazy for You” de Madonna (1985), com o oboé de George Marge a gemer entre uma electrónica pastosa ao bom estilo Eighties, numa altura em que Kate St. John enchia de oboé e corne inglês dezenas de canções dos Dream Academy Dream; o sucesso “Twist in my Sobriety” de Tanita Tikaram (1988), com oboé sincopado de Malcolm Messiter; “Nightswimming”, uma belíssima balada dos R.E.M. (1992) com arranjo de John Paul Jones, dos Led Zeppelin, onde o oboé de Deborah Workman brilha num solo final.

De assinalar igualmente “Kiss from a Rose” de Seal (1994), com um oboé de aroma renascentista tocado por David Theodore; “It’s a Beautiful Day” da fase agoniativa-decadente dos Queen (1995); “Goodbye” de Tracy Chapman (2002), onde o oboé assertivo de William Bennett consegue transformar uma canção insípida numa peça bastante aceitável; “Porcelain Heart” da banda sueca de death metal Opeth (2008) com oboé num dos seus raros momentos de calmaria. Isto para apenas citar alguns que me mereceram um mínimo de respeito (ou curiosidade), pois a lista é extensíssima e com exemplos nem sempre muito suportáveis. 

No jazz, esporadicamente

Paul Whiteman Orchestra 

Yusef Lateef

Paul McCandless

No campo do jazz, o uso do oboé foi acontecendo esporadicamente desde os anos 1920. Nas orquestras da época, era habitual a presença de saxofonistas que se desdobravam facilmente em instrumentos menos usuais como o clarinete baixo, a flauta e o oboé. Era o caso de Harold Feldman na orquestra de Paul Whiteman ou de Garvin Bushell na de Sam Wooding. Os grandes orquestradores do género, como Duke Ellington, Gil Evans ou Charles Mingus, sempre souberam tirar proveito deste instrumento para alargar o colorido tímbrico dos seus arranjos. Ouça-se como exemplos “Medley”, “Sketches of Spain” e “I X Love”. E ainda “Theme for the Eulipions” de Rahsaan Roland Kirk, com o oboé plácido de Romeo Penque, ou “Lanquidity” de Sun Ra, com o oboé agreste de Marshall Allen. Ouça-se sobretudo o genial Yusef Lateef em “I’m Just a Lucky So and So” e “Blues for Vic”, entre dezenas de temas que gravou com este instrumento.

Embora não tão conhecidos, outros multi-instrumentistas houve que se dedicaram a breves espaços nas suas carreiras à palheta dupla, como é o caso de Harold Land em “Procession”, Ken McIntyre em “Home” e Bob Cooper, de quem se recomenda o álbum a meias com Bud Shank, “Flute ‘n Oboe” (1956), uma verdadeira pérola do cool jazz.

Nos terrenos da música de fusão vamos encontrar algumas personagens de grande calibre como o francês Jean-Luc Fillon (provavelmente o mais interessante e conhecido oboísta europeu dentro do género), de cuja vasta discografia se pode destacar o CD “Flea Market”, de 2004.

Nome incontornável é também o do americano Paul McCandless, que começou a dar nas vistas nos finais dos anos 1960, integrado no seio do Paul Winter Consort, colectivo que estaria na base da fundação do supergrupo de world music Oregon. Tendo colaborado com inúmeros artistas de alta qualidade ao longo da sua carreira (Art Lande, Bella Fleck, Eberhard Weber, Ralph Towner), os trabalhos de McCandless a solo nunca conseguiram ser muito consistentes, embora lá pelo meio se consigam descortinar algumas agradáveis surpresas, como é o caso de “Palimpsest”, no álbum “All the Mornings Bring” (1979).

Temos depois Roger Janotta, músico pouco conhecido mas verdadeiramente interessante. Este americano que vive na Alemanha desde a década de 1970 chegou a participar nas bandas de Carla Bley e Michael Mantler, sobretudo na qualidade de flautista e saxofonista. A nível do oboé podemos encontrá-lo no projecto Children at Play de Tom Van Der Geld, com quem gravou três discos dentro da estética ECM. Do primeiro deles, gravado em 1973, realcemos a subtileza do tema “Sweet my Sweet”.

Algo semelhante a Janotta, mas num contexto mais próximo do rock progressivo, descobrimos o holandês Philip de Goey, soprador do grupo Mirror que, em 1976, editou o seu único álbum, bastante interessante por sinal. Mais tarde integraria outro projecto holandês de um só disco, Lethe, cujo homónimo de 1981 se revelaria uma preciosidade e onde o oboé assume particular relevância. 

Também no prog

Lindsay Cooper 

Soft Machine

Metendo o pé um pouco mais na área do rog, começamos por recordar uma canção que Sandy Denny gravou em 1972 para a banda sonora do filme "Pass of Arms". Trata-se de “Here in Silence” (os puristas vão dizer que isto não é prog, mas enfim…), uma belíssima balada folk, em que a voz da malograda cantora nos fascina como sempre e que inclui um comovente oboé, cuja interpretação não conseguimos descobrir.

Mais ou menos nessa altura andavam os irlandeses Fruup a iniciar a sua curta carreira discográfica com o interessante álbum “Future Legends”, no qual se podem descobrir várias passagens de oboé, executadas com competência pelo teclista da banda, Stephen Houston, que mais tarde se dedicaria à vida religiosa. O tema “Graveyard Epistle” é uma boa ilustração da história “fruupiana”.

Com uma linguagem que terá possivelmente influenciado os citados irlandeses, tínhamos os Genesis, uma das bandas mais representativas de sempre do prog e que nos seus primeiros anos de existência, com Peter Gabriel, alimentou as delícias melómanas de toda uma geração. Gabriel era a figura da banda e, além da fantástica voz com que ainda hoje nos encanta, era uma espécie de faz-tudo, desde compositor, actor, cantor e tocador de uma série de instrumentos: flauta, acordeão, percussões diversas e esporadicamente oboé, como se pode ouvir nos épicos “The Musical Box” e “The Cinema Show”, ou ainda carregado de efeitos na melodia final de “I Know What I Like” e em “The Waiting Room”, a faixa mais experimental do último álbum dos Genesis em que participaria – “The Lamb Lies Down on Broadway”, de 1975. No mesmo ano, outra figura importante dos Genesis, o guitarrista Steve Hackett, iniciava a sua carreira a solo com o extraordinário “Voyage of the Acolyte”, onde se podia ouvir a espaços o oboé de um intérprete de grande nível – Robin Miller. Tendo dedicado a sua vida principalmente ao reportório clássico, Miller acabou por ser um nome imprescindível da cena prog por ter deixado a sua marca em trabalhos seminais dos King Crimson, como “Lizard”, “Islands” e “Red”.

Embora mais conhecida como fagotista no seio dos Henry Cow, a talentosa multi-instrumentista Lindsay Cooper utilizava esporadicamente o oboé, com resultados bastante convincentes, como por exemplo em “Song of the Shirt”, do seu álbum a solo “Rags”. Estando já a entrar mais nos terrenos do RIO (Rock in Opposition), e tendo como polo agregador Fred Frith, vamos encontrar uma sonoridade semelhante nos belgas Aksak Maboul. Do seu segundo LP, “Un Peu de l'Âme des Bandits” (1980), sugere-se a escuta de “I Viaggi Formano la Gioventu”, com um oboé de aroma mediterrânico tocado por Michel Berckmans, também ele igualmente fagotista e que participa noutros projectos importantes na área RIO, como Univers Zero e Art Zoyd.

Continuando pelos aromas exóticos, desta vez até um pouco mais orientais, recuemos uns bons anos e detenhamo-nos na incrível Third Ear Band, um grupo inglês de folk psicadélico, onde militava o extraordinário oboísta Paul Minns. O terceiro disco do grupo, “Abelard and Heloise” (1970), com um conjunto de seis peças que oscilam entre as ragas indianas, as influências medievais e os momentos de puro experimentalismo, é absolutamente recomendável.

Da mesma época, mas mais na área do chamado jazz-rock, podemos recordar os Soft Machine, que a partir do álbum “Six” (1973) passou a contar com Karl Jenkins nos teclados e sopros. O seu oboé assumia-se como um dos principais instrumentos solistas ao longo desse disco, atingindo no excelente tema “Fanfare” um dos seus pontos mais altos. No álbum “Seven”, do mesmo ano, a receita repetia-se, como se pode ouvir na faixa “Tarabos”. 

E ainda…

Emmanuelle Somer 

Joseph Celli

Na música portuguesa dos finais dos anos 1970 e inícios de 80, um ilustre desconhecido de nome António Serafim deixava a marca “oboística” em discos de Carlos do Carmo, Sérgio Godinho, Vitorino, Júlio Pereira e José Mário Branco, entre outros. Intérprete de fino recorte, chamou-me a atenção pela primeira vez a sua participação no álbum “Hoje há Conquilhas, Amanhã não Sabemos” (1977) da Banda do Casaco, com o belíssimo tema de encerramento, “Água de Rosas”. Na banda sonora do filme de José Fonseca e Costa, “Kilas, o Mau da Fita” (1980), com música de Sérgio Godinho e arranjos de Thilo Krassman, ouve-se amiúde um oboé muito bom que, apesar de não ter encontrado referência nos créditos do disco, presumo ser também de Serafim.

Em áreas mais vanguardistas e mais recentes podemos encontrar uns quantos oboístas de respeito, embora me limite aqui a referir três que muito prezo:

- A belga de formação clássica Emmanuelle Somer, recomendando a escuta de “Lullaby for a Butterfly”, tema pleno de lirismo do álbum “The Apple Tree” (1997), e "Improvisation uber Mehrklange" do CD “Ambivalences” (2006), com uma abordagem atirada para um experimentalismo mais radical.

- O americano Joseph Celli, compositor, improvisador, conceptualista e experimentador de técnicas extensivas ao nível da palheta dupla, conforme se pode ouvir em “Valentine Ashes” ou “Improvisation”. Nome incontornável da música contemporânea, trabalhou com John Cage, Karlheinz Stockhausen e Steve Reich, entre outros, apresentando estreias mundiais de peças compostas especificamente para ele.

- O também americano Kyle Bruckman, compositor, electronicista e oboísta virtuoso que se tem dedicado a um largo campo estético desde a linguagem mais clássica e tradicional até ao pós-punk, passando pelo free jazz, pela música electrónica e pela improvisação. Creditado numa vasta discografia, podemos recomendar a título de exemplo a audição de “Gasps & Fissures” (2004), “On Procedural Grounds” (2012) e “Uncle Monkey” (2015).

Finalmente, e numa espécie de retorno às origens, não queria deixar de referir algumas peças do repertório erudito que me marcaram desde sempre: o “Concerto em Dó Maior para Oboé e Orquestra” de Joseph Haydn, onde, sobretudo o segundo andamento, bem representativo daquilo que foi o classicismo vienense, consegue comover o mais duro dos corações; a “Sonata em Ré Maior” de Camile Sait-Saens, uma obra de relevância do período romântico; a “Sonata para Oboé e Piano” de Paul Hindemith, uma incrível peça atonal plena de variações rítmicas; o “Concerto para Oboé” de Frigyes Hidas, com um segundo andamento extremamente belo e emocionante; e as magníficas “Five Pieces for Solo Oboe” de Antal Dorati.