Análise, 5 de Dezembro de 2014

Análise

As raízes africanas do jazz em Angola

texto Nuno Marinho

O jazz já está a ser tocado na antiga colónia portuguesa. E bem à maneira angolana, ampliando os elementos que em tempos idos influenciaram as músicas norte-americanas do êxodo africano. Estes que aqui se enumeram…

Desde 2009 assistimos a uma evolução galopante do jazz em terras africanas, nomeadamente em Angola. Por lá já passaram nomes comoMcCoy Tyner, Gary Bartz, Abdullah Ibrahim, Joe Sample, Roy Hargrove, Roberta Ganbarini, Dee Dee Bridgewater, George Benson, Linda Oh, Ambrose Akinmusire, Laurent Filipe, Nelson Cascais, Mário Garnacho, Filipe Mukenga e eu próprio, entre muitos outros.

A crescente dimensão do jazz em Angola deve-se ao desenvolvimento de festivais e eventos bianuais, ao aumento do número de músicos de qualidade e ao fomento pedagógico que se alia ao meritório trabalho social e cultural da figura nº 1 do jazz angolano, Jerónimo Belo (foto acima, ao centro).Mas o jazz não é novo em Angola. Este país também está na génese desta linguagem e as suas características fundamentais permanecem inalteradas. 

Contexto sociocultural 

Falar sobre a tradição musical angolana implica termos presente o contexto histórico e cultural deste país, bem como as repercussões sociais da guerra no próprio povo. Um país refeito da lei das armas luta, agora, por recuperar, a custo, a sua identidade, já que a perda cultural e musical chega a ser quase irreparável.

O desconhecimento da população sobre as suas raízes musicais, a falta de educação e cultura e o desnorte acerca de medidas interventivas de salvaguarda de um património milenar leva-nos, hoje, à – quase – extinção da verdadeira raiz da música angolana. Com efeito, sabemos hoje que a génese de estilos musicais tão difundidos por todo o mundo – tais como o jazz, o samba, a bossa-nova, a música cubana e até o fado – tiveram a sua raiz na música africana. Desconhecemos, no entanto, que música africana é essa e de que forma é que a mesma lançou as bases para aquela multiplicidade de estilos.

Algo ainda mais curioso sucede ao analisarmos a forma e a evolução musical angolana, já que os novos artistas, influenciados pelas culturas estrangeiras supra referidas, acabam por deixar transparecer a ideia de que são essas culturas que influenciaram a música angolana. Apesar de tal afirmação ser atualmente inegável, não devemos esquecer que o contributo primordial e decisivo está de África para as Américas, que devolvem, agora, a sua contemporaneidade musical às raízes onde tudo se iniciou. 

Estilos musicais 

Paulo Flores

Yuri da Cunha

O estilo mais frequentemente considerado como a primeira música afro-brasileira tem o nome de lundu. Este género musical foi criado a partir dos batuques dos escravos angolanos, posteriormente levado para o Brasil e transformado em dança lasciva, de acento mordaz e sensual.

É a raiz do semba angolano, uma música urbana, de ritmo lento e que tem o significado de “umbigada”. Por sua vez, o semba executado de forma mais rápida pulveriza-se em várias vertentes, tais como a kizomba e o kuduro angolanos e o samba e o partido-alto brasileiros.Ao ser acrescentada a execução do semba no acordeão e na harmónica, permitiu-se a transformação deste estilo numa dança de salão de nome rebita, propícia para os cavalheiros cortejarem as damas. 

Características das raízes musicais 

A análise da música que aqui nos traz leva-nos a considerar alguns elementos comuns que unificam as raízes da tradição angolana, tais como o ritmo sincopado, maioritariamente de divisão binária, não tercinado, antes executado à semicolcheia e com acentuação nos tempos fortes do compasso. 

1 – Otchisanji:

Neste ritmo tradicional encontramos a base da música angolana. Acentuações do tempo do compasso, síncopes, antecipações e semicolcheias. Também aqui já se encontra uma certa maleabilidade na interpretação rítmica e melódica desta frase circular, nomeadamente, pela antecipação das duas últimas semicolcheias que compõem o padrão. Tal permite uma quebra do sentido repetitivo, acrescentando imprevisibilidade, surpresa e improvisação. 

2 – Tchandikila Uapangue:

O sentido social da música apresenta-se sob um padrão sincopado do chocalho, que imprime estabilidade e movimento às intervenções melódicas de um coro de mulheres. À “pergunta” da melodia principal junta-se a “resposta” da solista, dando uniformidade rítmica e melódica à frase, funcionando como uma só. Por outro lado, já encontramos aqui a noção de estrutura “ABAC” que também permite uma certa improvisação melódica quer com o recurso à oitava, quer com o acrescento de inflexões esporádicas que contribuem para a imprevisibilidade e a naturalidade de execução latentes. 

3 – Kimbo Yeto Ua Fina:

Ao ser executado num instrumento de cordas introduz-se um novo elemento: a harmonia. A progressão explicita uma tonalidade com recurso aos I, IV e V graus, com o último em segunda inversão.A melodia sobrevoa o padrão rítmico circular e constante, sentindo-se um acelerar natural do tempo. São introduzidos elementos melódicos irregulares do ponto de vista rítmico e até métrico nos momentos de puro diálogo verbal. 

4 – Olunkungulu:

Também a estética modal se encontra presente, elemento observável nesta peça de carácter circular e repetitivo com acentuação rítmica do tempo e melódica do contratempo, através da mudança de nota. A especificidade dos instrumentos utilizados, apesar de melódicos, imprime um carácter percussivo à música, que já deriva – invariavelmente – para pequenas improvisações dos seus intérpretes. 

5 – Koffeka:

A liberdade interpretativa – rítmica e melódica – é aqui bastante explorada, sendo que o elemento musical mais estável é a melodia. Esta é cantada de forma bastante fluida, o que permite o recurso à conjugação de figuras rítmicas menos comuns, mas igualmente irregulares e sincopadas. 

O legado

Apesar de bastante influenciada pelos estilos latino-americanos que outrora fez despontar, a música angolana contemporânea conserva, sobretudo, a sua base rítmica.Artistas como Paulo Flores, Wiza, Yuri da Cunha, Toy Cazevo ou Carlos Ferreira, entre outros, encontram no semba a sua forma de aproveitar os recursos musicais naturais a esta terra, apresentando-os envolvidos em boas doses de contemporaneidade.

Refira-se a métrica binária, as percussões sincopadas e tercinadas contra as linhas melódicas da guitarra à semicolcheia, fundidas com ritmos rock, pop, funk e fusão, que fazem da música angolana uma interessante e estimulante forma de world music por re-descobrir.

Onde ouvir

1 – http://milongoyakissange.podomatic.com

2 – http://www.podomatic.com/profile/milongoyakissange

3 – http://milongoyakissange.podomatic.com/entry/2012-06-01T13_36_23- 07_00